Terceiro setor é essencial
Publicado originalmente no O Globo, em 10/06/2025
Em 1968, Garrett Hardin cunhou uma das metáforas mais influentes do pensamento ambiental e político: a tragédia dos comuns (tragedy of the commons, palavra correspondente em português a rossio, ou terreno comum). Em artigo publicado na revista Science, descreveu um pasto coletivo onde cada criador de gado, buscando maximizar seu lucro individual, adiciona mais um animal – até que o pasto entra em colapso. Para Hardin, a lógica do interesse individual, quando aplicada a recursos compartilhados, levava inevitavelmente à destruição coletiva. A solução? Restrições externas: ou o controle estatal ou a privatização.
Décadas depois, Elinor Ostrom, Prêmio Nobel de Economia, apresentou uma resposta contundente. Com base em estudos de campo em diversas comunidades ao redor do mundo, ela mostrou que os bens comuns – como água, florestas, sistemas de irrigação ou pesca – podem ser geridos coletivamente com sucesso, desde que se criem instituições locais robustas, regras claras e mecanismos de fiscalização e resolução de conflitos. Ostrom não apenas contestou o fatalismo de Hardin, mas recolocou a comunidade como protagonista legítima e eficaz da governança.
Esse debate é central para compreendermos o papel das organizações do terceiro setor na sociedade contemporânea. Num cenário marcado por crises ambientais, desigualdade de acesso a bens essenciais e pela emergência de bens comuns digitais (como dados, redes e conhecimento), ONGs, coletivos, institutos e fundações atuam como guardiões e mediadores dos commons. Constroem pontes entre o saber técnico e o saber comunitário, entre a urgência da ação e a ética da solidariedade.
No entanto a desqualificação da ação coletiva e o afastamento radical do setor privado das discussões sobre os bens comuns produzem efeitos deletérios. De um lado, desacredita-se a capacidade de autogestão е cooperação das comunidades; de outro, transforma-se o mercado em mero antagonista, desconsiderando sua potencial responsabilidade social.
A governança dos commons exige, hoje, aproximação madura entre os três setores: Estado, iniciativa privada e sociedade civil. O terceiro setor, com sua atuação em rede, compromisso com o interesse público e experiência territorial, pode ser o elo catalisador dessa convergência. A “tragédia dos comuns” não está no uso coletivo, mas na ausência de diálogo, regulação e educação.
Afinal, vivemos hoje tragédias silenciosas: a contaminação de rios e mares, o abandono de praças, o abuso de dados pessoais, o sucateamento de escolas e hospitais públicos. São tragédias não da coletividade, mas da não governança. Superá-las passa por reconhecer que a defesa dos bens comuns não é tarefa de um só setor – é um projeto coletivo de futuro. E o terceiro setor está no centro dessa missão.
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