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10 de junho de 2026

Manipulação da informação: a fábrica de ilusões e mentiras para manter interesses particulares

Carlos Parente
 
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Navegar pelas redes sociais e por sites na internet, muitas vezes, não tem sido tarefa fácil nem suave para o estômago e o cérebro. Difícil não se sentir um tanto perdido ou perdida diante de, primeiro, tanta informação (é um excesso que transborda!) e, depois, pelo volume de desinformação, que é cada vez mais gritante, com um festival de fake news e mentiras, que passaram a ser usadas, sem nenhum escrúpulo, para conquistar benefícios próprios diversos, sejam financeiros, tecnológicos, políticos ou comportamentais. 

O ponto que quero ressaltar é que, normalmente, as pessoas não acreditam em uma fake news ou mentira porque querem acreditar. Na maioria das vezes, elas acreditam porque a informação “parece” plausível, está “embalada” como tal. Ou porque vem de uma fonte que consideram confiável ou, ainda, porque reforça algo que já pensam. O ser humano tende a aceitar mais facilmente informações que confirmam crenças prévias, já enraizadas em sua cabeça.

“Raspas e restos
Me interessam
Pequenas porções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam…”

Disse sabiamente Cazuza, em “Maior Abandonado” (Cazuza e Frejat, 1984)

A grande quantidade e a velocidade expressa de informação que os mais diferentes interesses produzem, para o bem e para o mal, e que as redes e a internet entregam, é assustador e não tem controle, porque controlar não interessa a quem manda no jogo.

Lembra da famosa frase “Em tempos de engano universal, dizer a verdade torna-se um ato revolucionário”? (utilizada pela primeira vez em 1982, pelo jurista, acadêmico, advogado e intelectual italiano Venturino Giorgio Venturini e atribuída por ele, como uma epígrafe, ao escritor britânico George Orwell, embora não exista registro dessa frase em nenhuma obra de Orwell). Essa frase, mesmo não estando presente em nenhum livro ou artigo ou outro material de Orwell, resume com precisão a essência de suas obras mais famosas, como os romances “1984” e “A Revolução dos Bichos”, que abordam temas candentes como: o combate à manipulação, com alertas contra governos e regimes autoritários que reescrevem a história, destroem evidências e fabricam a realidade usando a desinformação, para controlar a população; e a defesa do pensamento crítico, tendo em vista que, em um sistema de opressão, manter a integridade e expor os fatos é visto pelo poder dominante como uma rebelião perigosa. Para quem quiser se aprofundar mais no tema, há uma coletânea e seleção de escritos de George Orwell, extraídos de seus romances, ensaios, cartas e reportagens, reunidos no livro “Sobre a Verdade”, publicado em 2020, pela Cia. das Letras.

E assim, 42 anos depois de Cazuza trazer à luz nosso jeito desajeitado de maior abandonado, parece que andamos nos contentando com raspas e restos e realmente interessados em mentiras sinceras!

Eu espero, mas temo que não, que a maioria de nós esteja nessa conscientemente, procurando entender a quem interessa mentir, e que não se surpreenda com a encenação do ato desmedido de mentir em benefício próprio. E junto vem a exploração midiática do assunto, os bate-bocas, as discussões acaloradas. Cito dois exemplos: a convocação do Neymar para a Copa do Mundo de futebol e a contratação da Virginia Fonseca como repórter de campo. Neymar está praticamente escalado na Seleção há mais de uma ano, jogando ou não. O que contribui para isso? Patrocinadores e retorno dos investimentos! Não se espante. Se ele vai jogar pouco importa. Vai aparecer nas TVs e plataformas em todo o mundo, vai fazer propaganda, gerar retorno para anunciantes e você vai consumir passivamente. Quanto à influenciadora, é vender joguinho e outros “merchans”, mostrar o cotidiano de alguém endinheirado e/ou famoso, sorrir e divertir aqui e ali, mesmo sem nem sempre se comunicar com muita clareza. Pelo visto ninguém quer uma intelectual comentando um jogo de futebol, quer mesmo é entretenimento na veia, com algumas pitadas de fofocas extracampo e uns furos sensacionalistas que gerem mais clickbaits.

Descemos a ladeira e precisamos encontrar um meio de subi-la de novo e interromper rapidamente nosso contínuo declínio intelectual, além da nossa convivência pacífica, na qual era possível dialogar e argumentar sem o risco de uma explosão de ódio, um gesto violento. As notícias policiais ganharam destaque, a violência desmedida tem nos tornado selvagens lutando pelas migalhas de nada que caem no chão.

Não é possível conviver com isso tudo como um novo normal, nem comprar essa falsa ilusão, viver um eterno faz de conta, normalizar tudo e parar de relativizar.

É preciso fazer uma grande reflexão, a começar pela preferência e preservação da comunicação da verdade. Vamos a isso?

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Carlos Parente

Graduado em Administração de Empresas pela UFBA, com MBA em Marketing pela FEA USP, possui um sólido histórico de experiência em Relações Institucionais & Governamentais, Comunicação Corporativa e Advocacy, com participações e lideranças em processos de comunicação estratégica, inclusive internacionais. Carlos Parente é sócio-diretor da Midfield Consulting.

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