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08 de junho de 2026

Um palimpsesto da história e da memória empresarial

História, Memória, Reputação, Imagem e Legado
Paulo Nassar
Henry Ford Museum, em 16/08/2014 (foto: Paulo Nassar)
 
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Quando observamos o campo da História e da Memória Empresarial, encontramos algo semelhante aos antigos palimpsestos¹.

Sob os atuais centros de memória, museus corporativos, projetos de história oral, arquivos digitais, exposições, relatórios de sustentabilidade e narrativas institucionais sobrevivem sucessivas camadas de pensamento produzidas pela História, pela Sociologia, pela Antropologia, pelos Estudos da Memória, pela Comunicação Organizacional e pela Administração.

Mas existe uma questão que torna esse campo particularmente relevante para os comunicadores.

História e memória não dizem respeito apenas ao passado.

Dizem respeito ao futuro.

Mais especificamente, dizem respeito à reputação, à imagem, à legitimidade e ao legado das organizações.

As organizações não são lembradas apenas pelo que produziram.

São lembradas pelo significado que deixaram.

É nesse ponto que a História e a Memória Empresarial deixam de ser uma atividade de preservação documental e passam a ocupar posição estratégica.

Elas ajudam as organizações a responder perguntas fundamentais:

Quem fomos?

Quem somos?

Quem desejamos ser?

E, talvez a mais importante:

Como desejamos ser lembrados?

A legitimidade historiográfica do campo da História e da Memória Empresarial

A legitimidade acadêmica da História Empresarial encontra uma de suas bases na chamada Nova História.

Peter Burke, em obras como A Escola dos Annales (1929–1989): A Revolução Francesa da Historiografia (1991), História e Teoria Social (2002), O Que é História Cultural? (2005) e no ensaio História como Memória Social (1989), demonstra que a história contemporânea ampliou radicalmente seus objetos de investigação.

A história deixou de ser exclusivamente a narrativa dos Estados, dos governantes e das guerras para incorporar virtualmente toda a experiência humana.

A vida cotidiana.

As organizações.

O trabalho.

As profissões.

A cultura material.

As experiências coletivas.

As memórias.

As empresas.

Sob essa perspectiva, as organizações tornam-se objetos legítimos da investigação histórica.

Não apenas porque produzem riqueza.

Mas porque produzem cultura, identidades, símbolos, territórios, relações sociais e experiências compartilhadas.

A voz dos indivíduos, a História Oral e o caso brasileiro

Outra camada importante desse palimpsesto encontra-se na História Oral.

Paul Thompson, em A Voz do Passado: História Oral (The Voice of the Past, 1978; edição brasileira de 1992), promove uma verdadeira democratização da produção histórica ao defender que as experiências e narrativas dos indivíduos constituem fontes legítimas para a compreensão do passado.

A história deixa de ser construída exclusivamente a partir de documentos oficiais e incorpora testemunhos, lembranças, trajetórias de vida e experiências de trabalhadores, dirigentes, comunidades e grupos sociais.

Essa contribuição foi decisiva para a História Empresarial.

As organizações passam a ser compreendidas não apenas por meio de seus relatórios, atas e balanços, mas também pelas memórias daqueles que participaram de suas trajetórias.

No Brasil, essa tradição encontrou uma de suas expressões mais importantes no Museu da Pessoa, criado em 1991 por Karen Worcman.

Pioneiro no campo da memória social e da história oral, o Museu da Pessoa consolidou a ideia de que toda pessoa tem uma história que merece ser preservada. Ao reunir milhares de depoimentos de trabalhadores, migrantes, educadores, empresários, lideranças comunitárias e cidadãos comuns, contribuiu para ampliar a compreensão da memória como patrimônio coletivo.

Sua influência ultrapassou o campo cultural. Diversas empresas, fundações e instituições passaram a desenvolver projetos de memória e história oral inspirados em suas metodologias, incorporando as vozes de trabalhadores, comunidades e públicos estratégicos aos seus processos de construção identitária.

Também merece destaque a contribuição de José Carlos Sebe Bom Meihy, autor de Manual de História Oral (1996), um dos principais responsáveis pela institucionalização da História Oral no Brasil.

Sob essa perspectiva, a história das organizações deixa de ser apenas a narrativa dos fundadores e dirigentes para tornar-se uma narrativa construída por múltiplos sujeitos, experiências e pontos de vista.

Memória coletiva e lugares de memória

Uma terceira camada emerge dos estudos da memória.

Maurice Halbwachs, em A Memória Coletiva (1950), demonstra que a memória é sempre construída socialmente.

Não lembramos sozinhos.

Lembramos a partir dos grupos aos quais pertencemos.

Pierre Nora, em Entre Memória e História: A Problemática dos Lugares (1984) e na coleção Os Lugares de Memória (Les Lieux de Mémoire, 1984–1992), mostra como monumentos, arquivos, museus, edifícios, celebrações e instituições funcionam como dispositivos de preservação simbólica do passado.

As organizações também produzem lugares de memória.

Suas fábricas.

Seus produtos.

Suas marcas.

Suas campanhas.

Seus edifícios.

Suas narrativas.

Suas tecnologias.

Tudo isso pode tornar-se parte da memória coletiva de uma sociedade.

Nesse mesmo horizonte intelectual destaca-se a contribuição de Ecléa Bosi. Em Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos (1979), a autora demonstra como as experiências individuais constituem importantes caminhos de acesso à memória coletiva. Seu trabalho tornou-se referência para pesquisadores da memória, da cultura e da experiência social, influenciando também estudos sobre memória organizacional ao valorizar as narrativas dos sujeitos comuns e suas formas de atribuir sentido ao passado.

A empresa como instituição histórica

A História Empresarial contemporânea encontra em Alfred D. Chandler Jr. um de seus autores fundamentais.

Em Estratégia e Estrutura (Strategy and Structure, 1962), Chandler demonstra como a expansão das organizações exige novas formas de gestão.

Posteriormente, em A Mão Visível: A Revolução Gerencial na Empresa Americana (The Visible Hand, 1977), mostra que as grandes corporações modernas transformaram profundamente a economia e a sociedade ao substituir parte da coordenação exercida pelos mercados pela coordenação realizada por estruturas administrativas complexas.

Mais tarde, em Escala e Escopo: A Dinâmica do Capitalismo Industrial (Scale and Scope, 1990), amplia sua análise para compreender o papel das grandes organizações na formação do capitalismo industrial moderno.

A partir de Chandler, a empresa deixa de ser vista apenas como uma unidade econômica e passa a ser compreendida como uma instituição histórica, capaz de moldar mercados, territórios, tecnologias, profissões e formas de vida.

No Brasil, na perspectiva aberta por Chandler, uma figura ocupa posição importante na imaginação histórica e empresarial: Irineu Evangelista de Sousa, o Barão e posteriormente Visconde de Mauá (1813–1889).

Sua trajetória tornou-se símbolo da modernização econômica brasileira, associada à construção de ferrovias, estaleiros, bancos, sistemas de iluminação urbana e outras iniciativas pioneiras.

Autores como Lídia Besouchet, em Mauá e Seu Tempo (1943), Jorge Caldeira, em Mauá: Empresário do Império (1995), e Ricardo Lessa, em Mauá: Sonho e Destino (1999), ajudaram a consolidar sua presença na historiografia nacional.

Mais do que um empreendedor, Mauá tornou-se um símbolo da capacidade das organizações de influenciar o desenvolvimento econômico, social e institucional de um país.

Sua trajetória evidencia que a história das organizações não pode ser separada da história da sociedade.

Empresas centenárias e a construção do legado

O Brasil possui exemplos notáveis de organizações que atravessaram gerações e se transformaram em parte da memória econômica e social do país.

A Gerdau, fundada em 1901, ultrapassou a condição de empresa industrial para tornar-se uma referência da industrialização brasileira.

A Klabin, fundada em 1899, atravessou três séculos diferentes.

O Grupo Votorantim, fundado em 1918, participou de diversas etapas da modernização econômica nacional.

A Suzano, fundada em 1924, consolidou-se como uma das maiores empresas globais do setor de papel e celulose.

O Itaú e suas organizações predecessoras ajudaram a construir parte importante da história financeira do país.

O Grupo Ultra tornou-se referência em setores estratégicos da infraestrutura e da energia.

Essas organizações não sobreviveram apenas por sua eficiência econômica.

Sobreviveram porque construíram legitimidade.

E legitimidade depende de memória.

Nenhuma organização permanece por mais de cem anos apenas por seus produtos.

Ela permanece porque consegue renovar continuamente as razões pelas quais a sociedade considera sua existência relevante.

A construção brasileira do campo

No Brasil, a consolidação desse campo contou com contribuições importantes de pesquisadores e instituições.

Jacques Marcovitch, por meio da coleção Pioneiros & Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento no Brasil (2003–2007), conectou trajetórias empresariais à história do desenvolvimento nacional.

Maria Cecília Spina Forjaz ajudou a compreender as relações entre elites econômicas e formação institucional brasileira.

Boris Fausto, Fernando Novais e José de Souza Martins forneceram interpretações fundamentais sobre trabalho, industrialização e modernização no Brasil.

No campo da comunicação organizacional consolidou-se a compreensão de que a memória é um ativo estratégico relacionado à identidade, à reputação, ao pertencimento e à legitimidade.

A Aberje desempenhou papel central nesse processo.

Desde os anos 1990, promove congressos, seminários, encontros nacionais e internacionais de história e memória empresarial, grupos de pesquisa, publicações, prêmios e programas de capacitação que ajudaram a institucionalizar o tema no país. Além de estimular e apoiar dissertações de mestrado e teses de doutorados sobre a história e a memória empresarial. 

Particularmente importantes foram os encontros dedicados à memória empresarial e à história organizacional, com a presença de acadêmicos como Paul Thompson, que aproximaram historiadores, arquivistas, museólogos, comunicadores, gestores culturais e lideranças empresariais.

Ao aproximar historiadores, arquivistas, museólogos, comunicadores e gestores, a entidade contribuiu para transformar a memória empresarial em um campo institucionalizado de conhecimento e prática profissional.

História, memória, reputação e legado

Talvez uma das contribuições mais importantes desse campo seja mostrar que história e memória não dizem respeito apenas ao passado.

Dizem respeito também à reputação, à imagem, à legitimidade e ao legado das organizações.

A imagem responde à pergunta:

“O que pensam de nós hoje?”

A reputação responde:

“O que a sociedade aprendeu sobre nós ao longo do tempo?”

E o legado responde:

“O que permanecerá quando não estivermos mais aqui?”

Sob essa perspectiva, história, memória, reputação, legitimidade e legado tornam-se dimensões inseparáveis.

A reputação pode ser entendida como memória social em circulação.

Ela resulta do encontro entre experiências acumuladas, narrativas compartilhadas e interpretações produzidas pelos diferentes públicos ao longo do tempo.

Ela não nasce apenas da comunicação.

Ela nasce da história vivida.

Da experiência acumulada.

Da coerência percebida entre discurso e prática.

Nesse sentido, as organizações não administram apenas marcas ou identidades.

Administram também memórias.

E é justamente da qualidade dessas memórias que emergem a confiança, a legitimidade e a possibilidade de construção de um legado duradouro.

Considerações possíveis

Se a História Empresarial nos ajuda a compreender o que as organizações fizeram, e a Memória Empresarial nos ajuda a compreender o que elas significaram para as pessoas, então o estudo conjunto desses campos permite compreender algo ainda mais importante: as razões pelas quais determinadas organizações permanecem relevantes para a sociedade ao longo do tempo.

Talvez seja justamente essa a contribuição mais importante da perspectiva do palimpsesto para os estudos organizacionais.

Organizações não são páginas em branco.

Tampouco são construções inteiramente novas a cada geração.

São reescritas permanentes.

Cada estratégia, cada reposicionamento institucional, cada transformação tecnológica ou cultural acrescenta uma nova camada àquilo que já existia.

Entretanto, as camadas anteriores permanecem.

Algumas visíveis.

Outras ocultas.

Algumas celebradas.

Outras esquecidas.

Mas todas participando da construção do sentido contemporâneo da organização. Nesse aspecto, a História e a Memória Empresarial não procuram apenas recuperar o passado. Procuram revelar as inscrições anteriores que continuam atuando sob a superfície do presente. Em última instância, História e Memória Empresarial não tratam apenas do passado das organizações.

Tratam da construção social de sua legitimidade.

Tratam de sua reputação.

Tratam de seu legado.

Tratam das formas pelas quais empresas e instituições se transformam em parte da própria história da sociedade.

Por isso, estudar História e Memória Empresarial não significa apenas olhar para trás.

Significa compreender como as organizações constroem sua presença no presente, sustentam sua legitimidade e procuram justificar sua permanência no futuro.

 

¹ O conceito de palimpsesto não se refere apenas a uma metáfora literária. Na Antiguidade e na Idade Média, designava a prática de escrever um novo texto sobre um papiro ou pergaminho cuja escrita anterior havia sido raspada ou lavada. Como observou Gérard Genette em Palimpsestos: A Literatura de Segunda Mão (1982), os vestígios da escrita anterior raramente desapareciam por completo. Permaneciam sob a nova inscrição como marcas visíveis ou invisíveis de uma narrativa anterior. Essa característica transformou o palimpsesto em uma poderosa metáfora da memória. Thomas De Quincey, em seu ensaio O Palimpsesto do Cérebro Humano (The Palimpsest of the Human Brain, 1856), comparou a memória humana a um antigo manuscrito reescrito inúmeras vezes, no qual experiências aparentemente esquecidas permanecem armazenadas em camadas profundas, passíveis de reaparecer no presente. Mais recentemente, os estudos culturais passaram a utilizar o palimpsesto para compreender como sociedades, instituições e narrativas carregam em si traços de experiências anteriores, mesmo quando estas parecem ter sido superadas ou esquecidas. É nessa perspectiva que utilizamos aqui o palimpsesto como método de leitura da História e da Memória Empresarial. Como método, o palimpsesto nos convida a olhar para as organizações não apenas como realidades presentes, mas como construções históricas compostas por sucessivas camadas de significados. Cada geração de dirigentes, trabalhadores, consumidores, comunidades e comunicadores reescreve parcialmente a organização. Contudo, as camadas anteriores não desaparecem. Permanecem inscritas em seus edifícios, produtos, símbolos, rituais, narrativas, crises, conquistas e memórias. Assim como os antigos manuscritos preservavam sob a nova escrita vestígios do texto anterior, as organizações carregam em sua identidade marcas de experiências passadas que continuam influenciando sua interpretação no presente.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Paulo Nassar

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje); professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP); doutor e mestre pela ECA-USP. É coordenador do Grupo de Estudos de Novas Narrativas (GENN), da ECA-USP e pesquisados no campo da interface entre Comunicação e Antropologia. Docente de mestrado e doutorado (PPGCOM ECA-USP) desde 2006, onde ministra, juntamento com o Prof. Dr. Luiz Alberto de Farias, a disciplina stricto sensu “Memórias Rituais, Narrativas da Experiência”. Pesquisador da British Academy (University of Liverpool) – 2016-2017. Entre outras premiações, recebeu o Atlas Award, concedido pela Public Relations Society of America (PRSA, Estados Unidos), por contribuições às práticas de relações públicas, e o prêmio Comunicador do Ano (Trajetória de Vida), concedido pela FundaCom (Espanha). É coautor dos livros: Communicating Causes: Strategic Public Relations for the Non-profit Sector (Routledge, Reino Unido, 2018); The Handbook of Financial Communication and Investor Relation (Wiley-Blackwell, Nova Jersey, 2018); O que É Comunicação Empresarial (Brasiliense, 1995); e Narrativas Mediáticas e Comunicação – Construção da Memória como Processo de Identidade Organizacional (Coimbra University Press, Portugal, 2018).

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