Ricardo Sennes

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As eleições envolvem pelo menos duas dimensões: a ideológica e a pragmática. Ideologia é uma referência geral de visão de mundo, de valores e sobre as leis que regem a vida social e a economia. Já o pragmatismo visa algum resultado prático e/ou material, em geral de curto prazo. Poucos votam apenas por uma ou por outra. Essa escolha costuma ser uma combinação em diferentes graus dessas dimensões.

A pesquisa divulgada recentemente pelo DataFolha revela um pouco dessa dinâmica. Grosso modo, a sociedade brasileira está incrivelmente balanceada entre esquerda e direita. Segundo dados da pesquisa, 10% população se consideram de esquerda e outros 10% de direita. 30% se consideram de centro esquerda e outros 30% de centro direita. E 20% se consideram de centro. Houve variação em relação às últimas pesquisas, mas foram marginais. Algumas tendências podem ser inferidas desses dados.

De um lado mostra que um candidato a cargo executivo só é capaz de vencer uma eleição se lograr atrair contingentes significativos fora de seu campo ideológico. Em geral o campo a ser disputado por quase todos – por uma questão lógica – é o centro. Ao restringir o campo ideológico, restringe-se também as chances de ser eleito. Quando o PT entendeu essa lógica, depois de perder três eleições presidenciais, venceu as quatro seguintes. O PSDB nacionalmente nem sempre adota a mesma estratégia e seu desempenho tem sido bem mais tímido. Em São Paulo tem adotado estratégia distinta, com enorme sucesso.

Para as eleições de 2018, portanto, o desafio será identificar qual candidato será capaz de ganhar o centro. Lula, que hoje figura em primeiro lugar nas pesquisas, não deve ter condições de atingir esse objetivo. Com rejeição sempre na casa dos 50% (variando de pesquisa em pesquisa), Lula se tornou um candidato com “piso alto e teto baixo”, tipo semelhante a Brizola, Marta Suplicy e José Serra. Ou seja, são políticos que tendem a iniciar as eleições com alta chance de chegar ao segundo turno, mas se desidratam ao longo das eleições e, caso consigam ir para o segundo turno, enfrentam uma enorme dificuldade para vencê-lo.

O mesmo tende a acontecer com candidatos como Jair Bolsonaro. Embora seja quase impossível saber sua posição ideológica – pois não apresenta um conjunto de ideias minimamente coerente sobre o país, suas instituições e sobre economia -, pode-se identificar nele uma mistura de propostas com tendências autoritárias, militaristas, nacionalistas e moralistas, portanto mais a uma direita não liberal. Supondo que fosse possível classificá-lo como de extrema-direita, suas chances eleitorais também são reduzidas. Tendo a direita apenas 10% do eleitorado, candidatos desse campo para se viabilizarem na corrida eleitoral teriam que atrair a totalidade da centro direita (outros 30%) e mais uma porção do centro. Estando na extrema-direita, só pode crescer caminhando para o centro. Como se espera dois ou três candidatos competitivos de centro direita nas próximas eleições, tudo indica que esse campo será bastante disputado e que Bolsonaro terá dificuldade de firmar como melhor opção.

As pesquisas qualitativas têm indicado de maneira razoavelmente consistente que hoje o eleitorado prefere candidatos de centro direita, moderadamente liberais e favoráveis a reformas de estado não radicais. Discursos focados exageradamente na ideia de privatização seguem tendo muita resistência frente aos eleitores, mesmo aqueles que se posicionam mais à direita. Além disso, existe uma preferência por políticos não envolvidos na Lava-Jato, outsiders ou não, e que mostrem maturidade e capacidade de lidar com crises e situação complexas. Fica evidente aqui o componente ideológico se compondo com o pragmático.

Dos possíveis candidatos para 2018, poucos atendem a todos esses atributos. Isso forçará a busca por composições ideológicas mais amplas em chapas e coligações. Dessa forma, um candidato de centro direita que seja capaz de escolher um vice ou partidos mais ao centro e à esquerda terá mais chances de sucesso do que os candidatos nas extremidades do espectro político-ideológico.

Nesse cenário, o risco é a superpopulação de candidatos de centro direita. Isso pode levar a canibalização desse campo político e retirar parte da racionalidade pressuposta nos mecanismos eleitorais. O efeito seria pulverizar os votos na tendência mais dominante hoje no eleitorado (centro direita) e potencializar os votos em candidatos em campos menos disputados nos dois extremos do espectro político.

O espaço para populistas – seja de esquerda ou de direita – sempre existe, ainda mais em países com muita desigualdade social. Mas as pesquisas quantitativas e qualitativas não têm apontado essa tendência para 2018, salvo em conjuntura eleitoral muito específica.

Ricardo Sennes é sócio diretor da Prospectiva e especialista em cenários políticos e econômicos, formulação e implementação de políticas públicas e avaliação de seus impactos nas empresas. Possui experiência em políticas industriais e de fomento e inserção internacional. É doutor e mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenador geral do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (Gacint) da USP. Atualmente é parceiro não residente do programa latino americano do Atlantic Council e membro do Conselho de Assuntos Estratégicos da FIESP e do Conselho da Revista Foreign Affairs (México e EUA).