Liderança comunicadora também é liderança de pensamento

O debate sobre liderança comunicadora ganhou uma nova camada de relevância. O Edelman Trust Barometer 2025, uma das pesquisas globais mais conhecidas sobre confiança em instituições, mostrou que a confiança em CEOs e lideranças empresariais vem sendo pressionada. Ainda assim, o estudo aponta uma tensão importante: mesmo em um cenário de maior desconfiança, cerca de oito em cada dez pessoas consideram legítimo que líderes de empresas se posicionem sobre temas sociais quando suas organizações têm capacidade real de gerar impacto.
O dado, repercutido pela Axios — veículo digital norte-americano especializado em negócios, política, tecnologia e mídia — ajuda a qualificar o debate. Públicos estão mais críticos, mas não necessariamente querem lideranças silenciosas. O que se espera é posicionamento com legitimidade, coerência e contribuição real.
É nesse ponto que a liderança comunicadora se aproxima da liderança de pensamento. Em um ambiente de negócios cada vez mais complexo, as empresas não são avaliadas apenas pelo que entregam ao mercado. Elas também são observadas pelo modo como interpretam o presente, pelos temas que escolhem defender e pela contribuição que oferecem para os debates que moldam o futuro.
Não basta que líderes se comuniquem bem internamente, traduzam a estratégia e mobilizem equipes. Cada vez mais, espera-se que lideranças empresariais sejam capazes de participar das grandes conversas do seu tempo — sobre temas como inteligência artificial, futuro do trabalho, sustentabilidade, diversidade, saúde mental, reputação, governança, inovação e transformação cultural.
Da comunicação da estratégia à construção de referência
A liderança de pensamento, ou thought leadership, não se resume à exposição pública de executivos nem à publicação eventual de opiniões em redes sociais. Trata-se da capacidade de formular pontos de vista consistentes, relevantes e próprios sobre temas estratégicos, ajudando a ampliar a compreensão do mercado e a fortalecer o papel da organização como referência.
Quando bem construída, essa atuação contribui para posicionar empresas como role models: organizações que não apenas acompanham tendências, mas interpretam movimentos, antecipam debates e inspiram novas práticas.
Durante muito tempo, a comunicação da liderança esteve associada principalmente à transmissão de mensagens internas: comunicar metas, explicar decisões, reforçar valores e engajar equipes. Essa dimensão continua sendo essencial. Uma liderança que não comunica bem dificilmente gera clareza, confiança e mobilização.
Mas o papel dos líderes se ampliou. Hoje, clientes, colaboradores, investidores, parceiros, imprensa e comunidades esperam que empresas tenham visão sobre os assuntos que impactam seu setor e a sociedade. A ausência de voz também comunica. Quando uma organização não participa de debates relevantes para seu campo de atuação, pode ser percebida como distante, reativa ou pouco conectada às transformações em curso.
Por outro lado, quando suas lideranças se posicionam com autenticidade, profundidade e coerência, a empresa amplia sua autoridade. Passa a ser vista não apenas como fornecedora de produtos ou serviços, mas como uma instituição capaz de contribuir para a evolução do seu setor.
Posicionamento não é opinião sobre tudo
Há, porém, um cuidado essencial: liderança de pensamento não significa opinar sobre todos os assuntos.
Em tempos de excesso de exposição, existe o risco de transformar posicionamento em performance. Líderes não precisam reagir a cada tendência que aparece, nem ocupar todos os debates em circulação. Pelo contrário: uma atuação relevante exige foco, consistência e alinhamento com a estratégia da organização.
O ponto de vista de uma liderança deve nascer daquilo que a empresa conhece, pratica, pesquisa, transforma ou influencia. É essa conexão que dá legitimidade ao discurso.
Uma empresa de tecnologia pode contribuir de forma qualificada para debates sobre inteligência artificial, ética de dados e novas formas de trabalho. Uma organização do setor de saúde pode trazer reflexões sobre prevenção, bem-estar, acesso e inovação. Uma companhia industrial pode assumir protagonismo em temas como segurança, transição energética, produtividade e qualificação profissional.
O importante é que a liderança fale a partir de um território legítimo. Quanto mais conectado ao negócio, à cultura, ao repertório e à experiência real da organização, mais forte será o posicionamento.
Redes digitais ampliaram o espaço da liderança
Também mudou o território onde esse posicionamento acontece. Se antes a voz pública de uma liderança dependia principalmente de entrevistas, eventos e artigos em veículos especializados, hoje as redes digitais — especialmente plataformas profissionais como o LinkedIn — passaram a ocupar um lugar relevante na construção de autoridade.
Esse movimento também tem sido observado pela imprensa internacional. A própria Axios mostrou que, com a redução dos espaços tradicionais de opinião em grandes veículos, executivos e especialistas têm usado mais as redes sociais para compartilhar seus pontos de vista. A matéria cita exemplos de publicações de lideranças como Jim Farley, CEO da Ford, e Daniel Ek, CEO do Spotify, que ganharam repercussão para além das próprias plataformas.
Isso não significa que a imprensa tradicional perdeu importância. Ao contrário: entrevistas, artigos assinados, eventos setoriais e veículos especializados continuam tendo enorme valor para reputação e legitimidade. A presença digital passou a compor esse ecossistema. Hoje, a liderança de pensamento se constrói na combinação entre canais próprios, imprensa, eventos, redes sociais e conversas qualificadas com diferentes públicos.
Por isso, o papel da comunicação corporativa torna-se ainda mais estratégico. Cabe à área ajudar lideranças a identificar seus territórios de fala, organizar mensagens, construir narrativas, preparar porta-vozes e conectar posicionamentos individuais à estratégia reputacional da organização.
Essa preparação não significa artificializar a voz dos líderes. Significa qualificar sua presença pública para que ela seja mais clara, responsável e relevante.
Da visibilidade à autoridade
Há uma diferença importante entre ser visível e ser reconhecido como referência. A visibilidade pode vir da frequência de exposição. A autoridade exige repertório, coerência, clareza de visão e capacidade de contribuir para o debate público com ideias que tenham valor para além da autopromoção.
Uma liderança comunicadora não é apenas alguém que fala bem. É alguém que compreende o impacto da sua fala. Sabe que cada manifestação pública pode fortalecer ou fragilizar vínculos de confiança. Sabe que posicionamento exige escuta, responsabilidade e coerência entre discurso e prática.
Essa consciência é fundamental porque líderes não falam apenas por si mesmos. Mesmo quando se expressam em canais pessoais, carregam uma associação direta com a organização que representam. A voz do líder pode humanizar a marca, aproximar públicos e tornar mais tangível a visão institucional. Mas também pode gerar ruído quando não está alinhada à cultura, aos valores e às práticas da empresa.
Empresas que desejam ser reconhecidas como referências precisam preparar seus líderes para esse papel. Não se trata de criar personagens, mas de revelar pontos de vista autênticos, estrategicamente conectados ao propósito e à atuação da organização.
Liderança comunicadora como ativo reputacional
Em um mundo em que produtos, serviços e tecnologias podem ser rapidamente comparados ou copiados, a forma como uma organização pensa, se posiciona e contribui para o futuro torna-se um diferencial competitivo.
A liderança de pensamento fortalece a reputação porque amplia a percepção de competência, visão e responsabilidade. Mostra que a empresa não está apenas reagindo às mudanças, mas participando ativamente da construção de caminhos possíveis.
Liderança comunicadora não deve ser vista apenas como uma competência interna de gestão. Ela é também uma competência reputacional.
Organizações reconhecidas como role models não se posicionam só para responder a crises ou anunciar resultados. Elas participam continuamente dos temas que importam para seu setor e para seus públicos — e fazem isso por meio de lideranças preparadas para comunicar visão, compartilhar aprendizados, assumir compromissos e propor caminhos.
No fim, liderar também é oferecer sentido. É ajudar pessoas, mercados e organizações a compreenderem para onde estamos indo — e qual papel queremos desempenhar nessa travessia.
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