factual

O Brasil irrompeu o ano de 2017 com uma carnificina em três presídios onde se teve notícia de atos de violência entre os detentos com esmero de crueldade que causaria espanto ao Exército Islâmico. As rebeliões trouxeram à superfície dois problemas de ordem social até então ignorados pela opinião pública, mas que fervilhavam havia anos sob a tampa do caldeirão prontos para supitar: a superlotação nas cadeias e a guerra genocida entre as facções criminosas pelo controle do tráfico de drogas nas fronteiras do país. Por um mês, o assunto ocupou o noticiário dentro e fora do Brasil. E por mais que lêssemos ou ouvíssemos, não encontrávamos nas reportagens respostas para esse estado de coisas. Não porque a temática é misteriosa ou porque está envolta em sigilo, mas devido à opção da mídia em privilegiar o jornalismo narrativo em detrimento do jornalismo dedutivo e explicativo.

Na tentativa de colocar em perspectiva a problemática, a Rapport ofereceu às redações um denso material elaborado pela Federação Nacional dos Policiais Federais que aponta as causas e sugere soluções. O crescimento e fortalecimento de organizações criminosas, como o PCC – Primeiro Comando da Capital, e a disputa sanguinária pelo tráfico internacional e o controle das fronteiras devem-se, diz o levantamento da Fenapef, em grande parte a uma deficiência de gestão e de pessoal da Polícia Federal. As fronteiras estão vulneráveis, um verdadeiro queijo suíço, buracos por quais entram toneladas de cocaína direto para os portos de Santos, Paranaguá e Navegantes, onde geram ferozes disputas pelo escoamento da droga para o exterior. A PF não estaria interceptando nem 5% do que passa ali, preferindo realizar operações pequenas para gerar números, maquiando e superlativando as apreensões. Os subsídios de interesse jornalístico resultaram, entretanto, numa breve declaração da instituição em reportagem do Bom Dia Brasil que, longe da culpa do repórter, pouco esclareceu em função do formato televisivo, sucinto e superficial.

A escolha pelo jornalismo factual se reproduz em outros assuntos de interesse público e de profundas implicações para a sociedade e que igualmente não recebem o devido tratamento, para desilusão dos jornalistas que vivem o interlúdio de uma imprensa muito focada nos lucros e na sobrevivência como empresa (o sociólogo Pierre Bourdieu já detectara lá atrás que o jornalismo “é uma das profissões onde se encontram mais pessoas inquietas, insatisfeitas, revoltadas ou cinicamente resignadas”). Quero dizer com “devido tratamento” uma cobertura jornalística contínua e equilibrada em que sejam colocadas claramente opiniões contraditórias de eminências preocupadas com o bem-estar social, não apenas com o mercado.

As travessuras midiáticas são perceptíveis, porém, mais por quem acompanha o noticiário com interesse acadêmico, pois estão camufladas por meio de recorrentes artigos e de debates sobre o mesmo tópico, o que pode passar a falsa impressão de que ela faz o seu papel de discutir à exaustão com imparcialidade temas relevantes, tais como a reforma da Previdência e o desequilíbrio fiscal do governo. Mas ao optar por apenas mostrar o retrato do momento sem o devido contexto, abrir espaços para doutrinadores alinhados à sua cruzada editorial e sonegar as raízes da questão, os órgãos de imprensa apenas reafirmam conceitos e valores que se encaixam à sua visão de mundo.

Dessas distorções, muitas organizações podem tirar proveito a depender do lado da moeda em que se está. Grandes empresas, entidades classistas influentes, consultorias financeiras e tributárias, startups, instituições e órgãos públicos têm nesse cenário um bom campo de oportunidades para difundir seus pontos de vista e para conquistar mercados e interferir nas instâncias de poder. A imprensa está aberta a novas fontes de informação disponíveis e qualificadas que compartilhem suas premissas. Basta construir o discurso com dados, estudos inéditos, uma abordagem diferenciada, apresentando novidades que mexam com o mercado ou que gerem comentários na audiência, com o enquadramento devido do assunto para não dar margem a dúvidas nem questionamentos.

Para as demais, a estratégia exige mais criatividade, esforço e uma boa dose de sorte. Mas nada que pareça improvável. As redações se rendem a uma narrativa organizacional sedutora que apresentem uma tomografia nítida de uma situação, nem que seja apenas 20 segundos no Bom Dia Brasil.


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