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Humanidade Utilitária

Texto originalmente elaborado a partir de apresentação da série BMI – “Elos do Saber”, em 25 de outubro de 2019.

Humanoides são seres aparentemente humanos, mesmo não sendo. Originários na ficção científica, sejam em robôs, sejam em extraterrestes, humanoides podem, em breve, melhor representarem a evolução das espécies humanas, diante da fusão biológica com o digital.

Neste tempo futuro, o Humanismo e, portanto, a própria essência humana, desaparecerão.

Da Natureza à Cultura

Antes de prosseguirmos nesta avenida para o futuro incerto, vale a pena olharmos para o passado sob as lentes antropológicas de Claude Lévi-Strauss (1908-2009). A transição humana do estado da natureza para o contexto da cultura é uma temática relevante para análise das diferentes estruturas sociais que moldaram e moldam as civilizações.

Segundo Lévi-Strauss, a proibição do incesto como lei universal é a inflexão crucial à medida que a obrigatoriedade de procurar parceiros em outros grupos sociais, propiciou as condições necessárias à passagem da natureza à cultura, estimulando condições evolutivas a partir do contato com o diverso. Agindo deste modo, como também delineado pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau, o homem tornou-se o único ser capacitado para transposição de três dimensões necessárias ao surgimento da sociedade: da Natureza à Cultura, do Sentimento ao Conhecimento, da Animalidade à Humanidade.

Mas Humanidade e Humanismo não necessariamente caminharam juntos ao longo desta jornada humana. Pelo contrário, tais encontros foram fortuitos em poucos espasmos históricos.

Espasmos Humanistas

O Humanismo nem sempre foi uma aspiração da sociedade. Desenvolveu-se como uma filosofia que posiciona o humano como foco central no contexto, valorizando suas capacidades e dignidades em contraposição com a perspectiva teocêntrica sobre o mundo. É uma ode ao racionalismo em suas possibilidades de reflexão, transformação e realização.

Pode-se afirmar que o Humanismo surge inicialmente nos idos de 440 a.C., na sociedade grega, com Sócrates, posteriormente acusado de corromper a juventude, sendo inclusive condenado à morte, justamente por contrapor o panteão oficial de deuses gregos.

Platão e os filósofos estoicos também disseminaram os princípios humanistas como centro do pensamento filósofico. O poeta Cícero pronunciou a célebre frase “para a humanidade, a humanidade é sagrada”. O Humanismo grego rompia com a perspectiva mitológica.

Entretanto, com a derrocada da civilização grega/macedônica e advento do Império Romano, a hierarquia militar rígida sepultou o pensamento humanista incipiente que se desenvolvia. Séculos mais tarde, a fragmentação romana impulsionou o Feudalismo europeu, onde o individualismo submeteu-se aos suseranos feudais e, principalmente, à Igreja Católica. O Humanismo era derrotado pelo implacável Cristianismo e sua poderosa ordem religiosa.

O final da Idade das Trevas ocorre nos idos de 1.400 d.C. – ou seja, quase dois mil anos após o ímpeto original humanista em terras gregas – com o advento do Renascimento italiano e holandês. A volta aos textos clássicos gregos (pelo menos, os poucos que sobreviveram a séculos de opressão e censura) convivia com o desenvolvimento do comércio nas cidades mercantilistas europeias, onde a ordem social favoreceu o aumento da liberdade individual. A mentalidade medieval não era mais capaz de oferecer compreensão para os fenômenos naturais. Leonardo Da Vinci (1452 – 1519) foi o maior expoente deste período.

Dogmas cristãos foram sendo descontruídos ao longo do processo de secularização que afastou a Igreja das diversas esferas da vida social. Métodos científicos empíricos floresceram como base fundamental para aumento da credibilidade da Ciência. A obsessão renascentista no retorno à antiguidade greco-romana também impulsionou a perspectiva antropocênica do mundo, no qual o humano é protagonista de sua própria trajetória.

Mais uma vez, o segundo espasmo humanista seria rápido. A Reforma Protestante ao longo do século XVI representou certo retrocesso, ao redefinir o trabalho mundano como um dever que beneficia o indivíduo e a sociedade como um todo. Assim, a antiga crença católica em elevação espiritual por meio de boas obras foi transformada em obrigação para trabalhar diligentemente como sinal de graça divina. Novamente, o Humanismo sucumbiu às crenças religiosas, tal como outrora na mitologia romana e no cristianismo.

Todavia, o advento do Iluminismo (a Idade da Razão) no século XVII recuperava uma vez mais o Humanismo, constituindo-se como filosofia que defendia o uso da razão (luz) contra o antigo regime (trevas) e pregava maior liberdade econômica e política. O Iluminismo promoveu importantes mudanças políticas, econômicas e sociais, baseadas nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. A massa popular era esclarecida por meio da educação: surgia a Enciclopédia, redigiam-se Constituições Civis que, tempos depois, seriam alicerces para a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Tempos áureos! Os iluministas lutavam pelos direitos do indivíduo e do cidadão e acreditavam no progresso cultural e tecnológico.

Paradoxalmente, a combinação das grandes navegações colonizadoras da época renascentista e dos progressos tecnológicos-científicos iluministas deram origem à Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX, onde o ideal liberal em prol da soberania individual seria sobrepujado pela sociedade de massas. A alienação do processo produtivo direcionada pelas grandes plantas fabris e seus métodos produtivos escaláveis resultaram na massificação do trabalho. Anos mais tarde, já no século XX, o American Way of Life definiu globalmente o padrão contemporâneo de consumo massificado que transforma o indivíduo em mero consumidor serial de produtos e serviços produzidos em escala global, com fortes inclinações para obesidade e suas correlatas doenças cardiovasculares e endocrinológicas.

O Humanismo permaneceu, e ainda permanece, adormecido desde meados do século XVI.

Paradoxo de Movarec

Em tempos de panaceia ao redor do Transumanismo como novo patamar desejado para a humanidade, vale o questionamento sobre o potencial espaço para o Humanismo em tempos futuros como filosofia moral. A discussão não é necessariamente nova.

Em meados dos anos 1980, Hans Movarec – cientista no Instituto de Robótica da Universidade Carnegie Mellon – demonstrou que lógicas complexas eram passíveis de resolução computacional enquanto ações sensomotoras aparentemente simples são essencialmente humanas. Replicar padrões humanos de racionalidade requer quantidade limitada de recursos computacionais, quando comparados à réplica simples de funções motoras e sensoriais que requerem muito poder computacional. Portanto, é preciso muito mais esforço computacional para interpretar discursos, caminhar, sentir cheiros ou tomar decisões baseadas em aspectos subjetivos – algo que um humano faz com facilidade.

Tal paradoxo reside na simples constatação evolucionista de nossa espécie humana, na qual tais capacidades sensomotoras foram adquiridas há milhões de anos e, hoje, dispõem-se como intrínsecas à humanidade, mas incompreensíveis aos humanoides robóticos.

Desejar a eliminação deste gap é ainda um desafio ao pensamento filosófico moral, talvez impelido pelo desejo inconsciente humano em superar de vez os desígnios divinos e sobrepujar totalmente os fenômenos naturais. As consequências, não obstante, são ainda inteligíveis. Não apenas o Humanismo, mas a própria espécie humana pode estar em xeque.

Intrínseco, Idiossincrático e Inusitado

A expressão Inteligência Artificial parece disparatada. Afinal, o que ganhamos em utilidade e o que perdemos em humanidade, quando a referência deixa de ser tecnologia e se torna inteligência artificial?

A inteligência humana difere muito da referida inteligência artificial. O intrínseco, a idiossincrático e o inusitado são exclusivos apenas na natureza humana, evoluída no âmbito biológico durante milhões de anos. Capacidades humanas como abstração, autoconsciência, arte, cultura e livre-arbítrio são ainda (e, provavelmente, continuarão sendo) humanas. Humanoides não estarão aptos a desempenharem no mesmo nível de sofisticação humana, nem tampouco algoritmos com toda potência da computação quântica.

Por outro lado, a singularidade – momento no qual o armazenamento em formato digital superará todos os códigos e informações da pré-história à era analógica – pode resultar em uma espiral de crescimento tecnológico desenfreada em prol da superinteligência artificial, com mudanças irreversíveis e imprevisíveis na civilização humana. Neste contexto futurista, tal qual já amplamente retratado na literatura de ficção científica, a ação desenfreada de um agente inteligente atualizável com capacidade de auto aperfeiçoamento geraria cada vez mais rapidamente, máquinas dotadas de uma superinteligência poderosa que, qualitativamente, ultrapassariam toda a inteligência humana. Nesse momento, a criatura (máquina) superaria o criador (humano).

Singularidade e Transumanos

Estamos, portanto, diante do provável surgimento de uma nova Matrix dominada por transumanos como uma nova espécie biotecnológica (denominada por nós como CYBERNETIC UNIVERSUM) capaz de deslocar a atual espécie biológica HOMO SAPIENS.

Como já observado na trajetória evolucionária do planeta nos últimos bilhões de anos, a simbiose potencial entre diferentes espécies em períodos de transição implica também na inevitável competição via seleção natural. Ainda há cenários de supremacia do HOMO SAPIENS, caso tal fusão entre biológico e digital produzir superorganismos programáveis empregados em uma divisão de trabalho de baixo conflito na realização de tarefas informativas, operacionais e repetidas.

De qualquer modo, mesmo antes deste clímax evolucionário, já em nosso cotidiano atual percebemos a aceleração do tempo social com duas consequências que alteram nosso equilíbrio. De um lado, vivemos em estado de ansiedade, com a sensação de “TUDO PARA JÁ”: a percepção de simultaneidade e coexistência no tempo e espaço – proporcionada pelo advento da Internet e novos meios de comunicação – dificulta o exercício da visão sistêmica e a reflexão a longo prazo que nos permite colocar fatos em perspectiva. Do outro, vivemos a agonia do “MANTER-SE À TONA”, na origem da angústia em vivenciar simultaneamente a profusão de inovações e a crença de não ter mais as habilidades necessárias para o trabalho. Estamos perdendo os tempos de respiro neural e reflexão mental, mantendo nosso cérebro superaquecido com contínuo fluxo de estímulos relacionados à hiperconexão – precisamos buscar cada vez mais nosso cooling cerebral, tão necessário para o equilíbrio.

Esteios e freios

O Humanismo perdeu-se na história da Humanidade. Inicialmente confrontado com mitologias divinas sempre presentes nas civilizações em todo planeta em todo tempo, o Humanismo perdeu o rumo da História justamente por não acompanhar a velocidade e a amplitude de suas próprias invenções – tanto as tecnológicas, como as sociais.

A aceleração do tempo observada nas últimas décadas colocou o humano no centro biológico do planeta – vivemos por certo a era Antropocênica, na qual o impacto humano no rumo da natureza já é percebido no aquecimento global, nas devastações em escala, nos desparecimentos de centenas de outras espécies animais e vegetais e nas próprias mudanças de comportamento de animais e vegetais como resposta evolutiva.

Tal protagonismo geológico não encontrou similaridade no protagonismo da agenda Humanista no contexto da humanidade. O consumo de massas, a alienação do trabalho, a opressão urbana, os arranjos políticos populistas e autoritários e a digitalização do tempo são alguns dos responsáveis pela desumanização do humano.

Pela primeira vez na história da Humanidade, estamos diante de uma possibilidade cataclísmica: o próprio extermínio da espécie biológica em prol de uma nova espécie biotecnológica. A Humanidade cede espaço para a Transumanidade, onde é provável que a agenda Humanista perca de vez qualquer relevância como possibilidade filosófica.

Concluindo, apenas um alerta: nunca na história da Humanidade, ética e moral foram barreiras suficientes à evolução tecnológica. Tal dogma de fé não parece estar em risco.

 

Daniel Augusto Motta é sócio e CEO da BMI Blue Management Institute. Doutor em Economia pela USP, mestre em Economia pela FGV-EAESP e bacharel em Economia pela USP. É alumni OPM Harvard Business School. Atua como sócio e diretor geral da WhiteFox Capital, controladora da Nexialistas e PeopleCraft. Também atua como diretor de Planejamento Estratégico da UNIBES. É membro-fundador da Sociedade Brasileira de Finanças. Foi professor nos MBAs da Fundação Dom Cabral, Insper, FGV, ESPM e PUC-SP. Atuou como professor convidado nos MBAs da Thunderbird School of Global Management e Stockholm School of Economics. É autor de diversos artigos publicados por Valor Econômico, EXAME, Você S/A e Folha de São Paulo, e também tem três artigos publicados pela Harvard Business Review Brasil. É autor dos livros A Liderança Essencial e Anthesis.

 

Cristina Panella é associada senior da BMI Blue Management Institute. Doutora em Sociologia pela Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales (França), Mestre em Formação à Pesquisa pela E.H.E.S.S. (França), Mestre em Antropologia Social pela Université René Descartes – Sorbonne (França). Possui também Especialização em Management of Business Communication pela University of Florida (EUA) e Bacharel em Ciências Sociais pela PUC-SP. Também atua em Pesquisa, Planejamento e Marketing e foi Sócia da CDN Estudos e Pesquisa Ltda. Foi professora na FAAP e no Centro Universitário Belas Artes e professora-convidada na Escola de Comunicações e Artes da USP.

Cristina Panella
Cristina Panella
Doutora em Sociologia pela E.H.E.S.S. – Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (França), mestre em Antropologia Social e Cultural pela Sorbonne (Université René Descartes – Paris V, França) e mestre em Formação à Pesquisa em Ciências Sociais, também pela E.H.E.S.S., especialização em Management of Business Communication pela University of Florida (EUA). À frente de sua empresa de consultoria e curadoria é também associada senior da BMI Blue Management Institute. Tem experiência nacional e internacional nas áreas de consultoria, comunicação e marketing, pesquisa de mercado e opinião, principalmente na área de imagem e reputação. Foi professora convidada da Escola de Comunicações e Artes da USP – Gestcorp, do INPG – Instituto Nacional de Pós-Graduação, FAAP e Centro Universitário Belas Artes. Palestrante e autora de artigos e colunas nas áreas de comunicação e pesquisa, notadamente na área de metodologia, indicadores e índices de reputação.

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