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Da “rádio-peão” à “rede-peão”: A comunicação mudou o mundo

São mais de trinta anos vivendo a comunicação como paixão, estudo e ganha-pão. Uma experiência rica que ainda alimenta em mim interesse, curiosidade e energia. Mas o melhor de tudo é o privilégio de, como comunicadora, estar vivendo este momento de mundo. Este contexto de mudança e incerteza que amedronta alguns, me fascina e inspira. Quando escolhi o curso de jornalismo não imaginava que ele me colocaria no centro da transformação do mundo.

Foram vinte de trabalho feliz à frente da Anima Panejamento e Imagem, um atelier de comunicação que trabalhava de forma artesanal assessoria de imprensa, eventos, marca, conteúdos, enfim, todo o pacote de comunicação integrada. Vivemos na comunicação empresarial até o início deste século sob o modelo da comunicação formal, oficial e centralizada. Criar, editar e distribuir informação era para poucos. A todos os demais cabia esperar pela versão divulgada, no tempo e na forma mais conveniente para os poderosos da comunicação: fossem eles os diretores dos grandes veículos – jornais, rádio e TV – ou gestores de comunicação, em organizações e entidades de diferentes tipos.

Durante esse tempo, tudo parecia sob controle, exceto o poder paralelo da “rádio peão” – a comunicação entre as pessoas, espontânea e caótica. Era ali no corredor das empresas, ao lado do cafezinho ou na conversa no ônibus de volta para casa, que cada indivíduo comum, com mais ou menos intensidade, sempre teve o direito de questionar, duvidar e criar novas interpretações sobre a versão oficial. E foi por conta disso, que o sistema orquestrado e coeso fez com que a narrativa do mundo fosse quase sempre homogênea e controlada, o que garantiu sucesso de veículos e campanhas de comunicação milionárias, mesmo aquelas pautadas por mentiras e manipulação deliberadas.

Mas aí veio a internet e mudou tudo. Com seu acesso direto e independente à rede, cada cidadão passou a ter também condições de produzir, editar e distribuir sua própria comunicação “de massa”.  E foi assim que a “rádio peão” se tornou o que costumo chamar de “rede peão”.  Um espaço de interação, sem fronteira, que dispensa qualquer intermediação, desafia a censura e muitas vezes também o bom senso.

Da responsabilidade à corresponsabilidade. A mudança essencial na comunicação

Até então, cabia aos comunicadores – aqueles que estudaram teorias e técnicas de comunicação –  o domínio sobre a gestão da comunicação para muitos. Com a “rede peão” todos se tornaram comunicantes que, mesmo sem técnica ou preparo, conquistaram, graças à tecnologia, o poder de divulgar ideias, sentimentos, pontos de vista, produtos, serviços e causas, como e quando quiserem, com a rapidez de um clique.

Esta nova condição e dinâmica são condição e combustível para tantas mudanças profundas, abrangentes e irreversíveis que desafiam a todos nós. Globalização passou a ser realidade com toda a complexidade que isso representa. Nosso conceitos, valores e teses são constantemente desafiadas por argumentos cada vez mais diversos e inesperados. Nós profissionais da comunicação estamos sendo ainda mais pressionados, seja pela sociedade ou pelos nossos clientes e funcionários – a responder: estamos preparados para tantas mudanças?  Apesar de toda nossa experiência e expertise, a resposta sincera para esta pergunta é: Não! Não fomos preparados para este novo mundo que trás demandas sem precedentes.

Quando penso no que podemos fazer diante deste quadro sem volta, me respondo que, antes de mais nada, os profissionais de comunicação precisam passar pela difícil constatação de que não detemos mais o poder da informação e que isto muda radicalmente nosso papel. Se por um lado isso pode parecer frustrante e desanimador, por outro, trás novas possibilidades de aprendizado e atuação. Um exemplo: 10 entre 10 empresas hoje apresentam em suas pesquisas de clima a comunicação como um dos principais problemas. Diante deste resultado, a gestão costuma buscar como solução a troca da agência ou da equipe de comunicação. É preciso esclarecer, porém, que hoje este problema não cabe mais em uma área ou agência. Na medida em que agora todos são agentes de comunicação, esta responsabilidade precisa ser relativizada e compartilhada. Comunicação agora é corresponsabilidade. E cabe a nós deixar claro que ao ganhar o poder de fala e de resposta, os indivíduos ganharam, na mesma medida, responsabilidades que devem ser assumidas. Como consequência, com a diminuição de seu poder, os comunicadores não podem mais ser integralmente responsabilizados pelos impactos da comunicação junto a seus públicos.

O que podemos fazer? Voltar a estudar e refletir profundamente, valorizando nossa experiência e preparo para ensinar e engajar a todos das organizações nessa tarefa que agora é coletiva. Pesquisas mostram que apenas 30% dos líderes se comunicam bem. Temos um enorme trabalho para ajudá-los a desenvolver esta competência essencial, porém a transparência, que agora é condição, exige mais do que os recursos da oratória. A sociedade pede que a comunicação aconteça pelo exemplo.

Há 13 anos a intuição me mostrou que era hora de mudar. Em uma reunião de briefing com um cliente tive o insight que precisava para abrir mão de um negócio que crescia ano a ano para mergulhar em um mestrado internacional em busca de resposta. Naquela tarde o cliente me disse: “preciso que minha empresa seja percebida como inovadora, inclusiva e socialmente responsável. Você pode me ajudar?” A resposta veio de bate-pronto: “sim, eu posso. Se você for, eu conto.” Naquele momento descobri que continuava amando comunicação, mas que não poderia mais trabalhar apenas para promover produtos e serviços: eu queria trabalhar pelo desenvolvimento humano e organizacional.  Ajudar empresas e pessoas a serem a garantia de seu reconhecimento e reputação. Desde então, fui aprender desenvolvimento organizacional, diálogo, mediação de conflitos, ética aplicada, sustentabilidade e práticas colaborativas, com a certeza de ainda tenho tanto a aprender. Coisas que as escolas de comunicação não ensinam. Hoje meu foco da Anima é a convivência produtiva, sempre a partir do poder da comunicação entre as pessoas e a necessidade de cada um assumir sua responsabilidade em atuar de forma séria, consciente e responsável. Tenho me realizado neste papel porque acredito, de verdade, que a comunicação institucional é ainda uma área muito importante e valiosa, mas que precisamos transcender os limites conhecidos, contribuindo para que cada pessoa seja um protagonista relevante e valioso na “rede peão”. A comunicação mudou o mundo e este novo mundo exige novos comunicadores. Você está pronto para evoluir?

Vânia Bueno
Vânia Bueno
Vânia Bueno é uma comunicadora que escolheu o desenvolvimento humano e organizacional como área de interesse. Fundadora da Anima Convivência Produtiva, atua como professora, consultora e facilitadora em processos de coaprendizagem. É jornalista, com mestrado em Organizational Development and Positive Change pela Case Western Reserve. Tem formação complementar em práticas de Diálogo, Transformação de Conflitos, Práticas Colaborativas, Ética Aplicada. É professora convidada para cursos de pós-graduação FIA/USP, ECA/USP, UFSCar, ESALQ/USP, do MBA Aberje. Membro voluntário de comissões do IBGC - Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

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