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As organizações precisam cobrar accountability da imprensa

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Certa vez, num jantar com uma psicóloga conhecida minha, comentei que, depois de me livrar da secular culpa católica, passei a viver melhor. Ao que ela me perguntou:

– O que você colocou no lugar da culpa?

Pego de surpresa, perplexo não sabia o que responder.

– Se não a trocou pela responsabilidade, você se tornou um cínico.

Aquela inferência exerceu um efeito imediato sobre mim. Passei a me questionar se preenchera, de fato, o vácuo da culpa com a responsabilidade sobre meus atos e discursos. Comecei a olhar em volta e observar, dentro dessa perspectiva, pessoas, sobretudo, autoridades, cujo poder de decisão produziram grande impacto negativo na vida das pessoas. Tomo como exemplo extremo, mas real, duas figuras centrais dos universos político e empresarial, em 2016.

Primeiro, o ex-deputado federal Eduardo Cunha, alcunhado de “meu malvado favorito” entre inquilinos do Congresso Nacional. Suas escolhas nada republicanas e seus métodos de intimidação, como definiu o juiz Sérgio Moro – como tática de autopreservação -, o elevaram à condição de pessoa mais odiada no país.

Outro caso é o de Ricardo Vescovi, ex-presidente da Samarco, mineradora que causou o maior desastre ambiental do país e que até hoje nada fez para aliviar a dor e a perda da gente simples, que padece sem esperanças sequer de uma compensação financeira para se reerguerem. Para esses dois personagens, é como se dessa tragédia de ordem social, política e econômica, não tivessem havido autores. Portando, nada de arrependimentos.

A sociedade brasileira não tem mais tolerância para esse tipo de cinismo. Exige altas doses de accountability – prática hoje aplicada nas corporações com compromisso com a ética e a transparência. É dessa capacidade de assumir as consequências de suas escolhas que parece faltar aos órgãos de imprensa. A história está recheada de casos que comprovam certo desprezo da indústria da notícia pela falta de acuidade nas suas apurações, que resultaram em dramas coletivos e individuais, sem que fossem penalizadas por isso.

Na mídia estrangeira, temos o episódio da invasão no Iraque, em 2003, liderada pelos Estados Unidos. O pedido de desculpas do jornal New York Times a seus leitores – por ter avalizado a ficção difundida pelo ex-presidente George W. Bush de que o ditador Saddam Hussein detinha armas de destruição em massa -, não impediu a morte de 4.805 militares das forças de coalizão e de 134 mil civis iraquianos, boa parte crianças (algumas fontes contabilizam a perda de mais de 600 mil vidas). Aproximadamente 4 milhões de iraquianos foram deslocados e 2 milhões teriam deixado o país. A despeito do erro grosseiro, o NYT continua gozando de prestígio e seus editores executivos, em plena atividade profissional.

No Brasil, o mais emblemático dos casos de erro da imprensa é o da Escola Base, cujos donos e alguns professores foram sacrificados pelo noticiário. Destruídos, acusados injustamente de pedofilia, nunca mais se recuperaram. Quais as implicações práticas para os veículos que se prestaram a esse papel? A única punição foi a judicial, com a condenação de importantes órgãos de imprensa a pagar uma dívida milionária por danos morais. A penalidade foi seguido por um mea culpa tardio e envergonhado, que não serviu de lição para a mídia.

Erros acontecem, em proporções cada vez maiores, segundo a premiada jornalista Judith Miller, ex-NYT, por conta da queda dos padrões jornalísticos. A severa pressão financeira sob a qual vive a imprensa nos dias atuais disparou uma concorrência desenfreada entre os veículos por histórias fascinantes e pela exclusividade. Para subir na internet a notícia antes dos outros, o filtro da apuração teve que se alargar.

Acontece que a desinformação em elevada escala na era digital não veio acompanhada de mecanismos eficientes de controle, correção e de punição dentro das empresas de notícias. O mais longe a que fomos até o momento foi a criação, na Folha de S. Paulo, da figura do ombudsman, uma espécie de porta-voz dos leitores, que faz uma leitura crítica da cobertura jornalística do veículo e da mídia em geral sem maiores consequências.

Enquanto isso, a imprensa continua com sua imunidade para errar, denegrir e condenar. Em recente media training que a Rapport ministrou para 200 oficiais da Polícia Militar de São Paulo, ouvi muito a queixa de que havia preconceito por parte das redações contra a instituição. De que a cobertura não era equilibrada, justa e sem julgamentos. De fato, ao longo do curso, testemunhei essa distorção na cobertura da chacina de cinco jovens Mogi das Cruzes, em novembro. As mortes recaíram logo de cara sobre a PM, porque foram encontradas ao lado dos corpos cápsulas de pistola ponto 40, de uso privativo de policiais militares. De maneira precipitada, até mesmo editorial de um grande jornal não poupou a corporação. Dias depois, descobriu-se que os suspeitos eram guardas municipais.

Se falta aos órgãos de notícia o que tem de sobra na imprensa sueca – onde o limite da notícia é a ética e não o lucro -, resta às organizações, muitas das quais fontes confiáveis de informação, exigir dos veículos accountability e objetividade no seu papel de bem informar. Isso se faz de várias maneiras: no relacionamento com a imprensa, na aproximação com os profissionais das redações e no pedido extra-judicial de retratação proporcional ao agravo. Se nada disso der resultado, a depender também do estrago cometido pela imprudência jornalística, as organizações públicas e privadas devem valer na Justiça a prerrogativa constitucional e legal do direito de resposta e de reparações morais e de ordem financeira. Se a imprensa não se impõe limites, alguém precisa reeducá-la.

Luis Humberto Carrijo
Luis Humberto Carrijo
Jornalista formado na Cásper Líbero com pós-graduação em Comunicação Empresarial na USP. Instrutor de cursos de comunicação organizacional, palestrante e articulista. Com passagens nos grupos Folha e Estado, revista Exame e TV Cultura, atua como comunicador há 25 anos. Fundou a agência de comunicação Rapport Comunica. É autor do livro “O Carcereiro – O Japonês da Federal e os presos da Lava Jato”.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

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