08.08
O Google não perdoou seu funcionário machista. E nem deveria. Engenheiro deu declarações polêmicas na semana passada

Quem acha que falar sobre diversidade é modismo ou "mimimi" sofreu um revés esta semana com a decisão do Google de demitir um engenheiro que atribuiu a diferenças biológicas as desigualdades... Leia mais

Quem acha que falar sobre diversidade é modismo ou “mimimi” sofreu um revés esta semana com a decisão do Google de demitir um engenheiro que atribuiu a diferenças biológicas as desigualdades de gênero encontradas na indústria de tecnologia nos EUA.

James Damore escreveu um memorando justificando por que há menos mulheres no Vale do Silício. Segundo o engenheiro, “a distribuição de preferências e habilidades entre homens e mulheres difere, em parte, por causas biológicas e essas diferenças podem explicar por que não há uma representação igualitária de mulheres em cargos técnicos e de lideranças”.

O (agora ex) funcionário do Google ainda reforçou uma série de estereótipos de gênero, como os que associam os homens ao raciocínio lógico e sistemático e as mulheres, ao trabalho social e artístico.

É a velha técnica de se valer de malabarismos biológicos para evitar a discussão que realmente importa: as diferenças são socialmente construídas. Homens e mulheres não são aptos ou inaptos a determinadas atividades “por natureza”. A formação de nossas habilidades e talentos está relacionada à motivação, aos estímulos que recebemos, ao fato de termos exemplos para nos incentivar, entre outros fatores.

Há muito pouco de “natural” entre seres humanos. O que as pesquisas mostram, isso sim, é que já na formação os estereótipos de gênero prejudicam as mulheres. Professores de Matemática, por exemplo, tendem a dar menos atenção às meninas e dão notas melhores a elas quando não sabem que são garotas.

Isso continua na faculdade, onde algumas mulheres ouvem frases como “agora vamos explicar porque tem muita menina na sala”. Existe um sistema perverso que desencoraja as mulheres a seguirem determinadas carreiras. Aquelas que vencem as primeiras dificuldades e se formam nas áreas de exatas, por exemplo, chegam ao mercado e encontram profissionais como o engenheiro do Google.

A demissão de James Damore não é uma “vitória do politicamente correto”, como ouvi esta semana. É apenas o que se espera de uma empresa comprometida com a inclusão e disposta a tornar sua força de trabalho mais diversa – por razões culturais, sociais e também econômicas.

Imagine o estrago que alguém com a mentalidade do funcionário demitido pode causar na carreira de outras profissionais? Vale para as questões de gênero, mas também para as de raça, de LGBT ou das pessoas com deficiências.

Falar sobre diversidade não é modismo. A discussão veio pra ficar. E quem não se atualizar ou insistir na reprodução de preconceitos tende a ficar para trás – exatamente como o engenheiro do Google

24.07
O empoderamento feminino veio pra ficar, Olivetto

Seguindo a máxima de que um dia sem polêmica é um dia perdido, a internet está às voltas com a entrevista do publicitário Washington Olivetto à BBC Brasil. Nela, o criador de... Leia mais

Seguindo a máxima de que um dia sem polêmica é um dia perdido, a internet está às voltas com a entrevista do publicitário Washington Olivetto à BBC Brasil.

Nela, o criador de campanhas clássicas como a do Garoto Bombril e Meu Primeiro Sutiã, afirma que o “empoderamento feminino é um clichê constrangedor”. Constrangidos ficamos nós, Olivetto.

Está certo que o título da matéria é bem caça-clique e que você disse coisas importantes, como “empoderamento feminino se pratica, não se prega”. Mas a comparação de mulheres a automóveis e a reprodução da ideia de que fazer graça é mais importante que não reproduzir estereótipos pegaram mal.

O mundo mudou, Olivetto. Hoje a piada engraçada é aquela de que todos acham graça. Não se ri mais do gordo, mas com o gordo. Entende a diferença?E isso não quer dizer que ficamos mais chatos ou que a nova geração seja fiscal de criatividade. Muito pelo contrário. A diferença é que hoje temos mais consciência do alcance e do papel da comunicação.

A publicidade forma gostos, pode reforçar preconceitos e espalhar mensagens bastante equivocadas. Mas pode fazer o inverso disso tudo também e colaborar para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e empática.

Falando assim parece chato? Garanto que não é o caso e dá pra divulgar valores mais bacanas e atuais até vendendo sabão em pó – ou palha de aço, se você preferir.

Sabia que no Brasil 1 em cada 3 pessoas culpa a própria mulher pelo estupro sofrido? Que a cada 11 minutos uma brasileira é violentada? Empoderar as mulheres – na publicidade, no trabalho e em toda a sociedade – é uma questão ética e de sobrevivência, Olivetto.

Você não é o primeiro que derrapa falando sobre diversidade. O Nizan também escorregou e ainda vão tomar uns tombos todos os medalhões que não perceberem que o contexto hoje é outro.

Meu conselho não solicitado é o seguinte: chama o pessoal da sua agência pra conversar. Veja o que os mais jovens têm a dizer sobre a repercussão da sua entrevista. Se pessoalmente todos concordarem com você, melhor mudar de tática e tentar, sei lá, bilhetinhos anônimos. Aí, quem sabe, a verdade pode aparecer. Só não dá pra concordar com você, Olivetto.

28.06
28 de Junho, dia do Orgulho LGBT Estimule debates e incentive o respeito e a valorização da diversidade na sua organização.

  Nesta semana, dia 28 de Junho, é celebrado o Dia do Orgulho LGBT. Um bom ponto de partida para recontar esta história é lembrar que não se trata apenas de “orgulho gay”. A sigla... Leia mais

mkt lgbt

 

Nesta semana, dia 28 de Junho, é celebrado o Dia do Orgulho LGBT. Um bom ponto de partida para recontar esta história é lembrar que não se trata apenas de “orgulho gay”. A sigla LGBT abriga mais identidades do que essas quatro letras dão conta de explicar e é importante reforçar a participação também das lésbicas, bissexuais e pessoas trans no processo de afirmação das questões relacionadas à sexualidade e à identidade de gênero. Se hoje este assunto pode ao menos ser discutido em alguns espaços da sociedade, é porque muita gente foi e continua indo às ruas demandar direitos e visibilidade.

 

Mas por que 28 de junho? A escolha da data não é aleatória e remete aos acontecimentos de 1969, no StoneWall-Inn, um bar que funcionava em Nova York numa época em que não eram permitidos espaços para convivência das pessoas LGBT. O Stonewall servia de ponto de encontro informal, e permanecia aberto em parte graças ao pagamento de propinas às autoridades locais. Mesmo com o suborno, eram comuns batidas policiais e agressões aos frequentadores do local. Até que eles resolveram se insurgir.

 

Não há consenso sobre quem iniciou o levante, mas é sabido que houve grande protagonismo de pessoas trans, drag queens e lésbicas, além dos gays, claro. O dia do estopim da revolta foi justamente um 28 de junho. A gota d´água teria sido a agressão que uma lésbica sofreu de um policial. Na sequência deste fato houve confusão e quebra-quebra e, num dado momento, uma travesti teria estimulado os presentes a lançarem moedas aos policiais, aos gritos de “Não é dinheiro que vocês querem? Tomem!”.

 

Há quem diga, talvez em tom de anedota, que a revolta de Stonewall tem relação também com a morte de Judy Garland. A grande estrela do cinema era adorada pela comunidade LGBT e muitos frequentadores do Stonewall-Inn estavam particularmente sensibilizados com a morte dela, ocorrida naquela mesma semana.

 

Seja qual for a versão, fato é que os protestos em Nova York duraram pelo menos três dias. E um ano depois, também num 28 de junho, as ruas da cidade recebiam a primeira Parada do Orgulho. De lá pra cá, houve alguns avanços, mas também alguns retrocessos – como, alías, é praxe nos processos sociais. Dentro da comunidade LGBT, porém, fortaleceu-se a convicção de que direitos são conquistados apenas com luta e visibilidade – o que acontece nas ruas, mas também no trabalho e a partir da nossa comunicação.

24.06
A importância de comunicar a diversidade A conversa sobre diversidade é um caminho sem volta. Marcas que falam sobre o assunto serão mais cobradas e acompanhadas de perto pelos públicos, e isso é ótimo.

  Algumas marcas mergulharam de vez no assunto diversidade. Comerciais com mulheres empoderadas e pessoas LGBTs passaram a fazer parte da paisagem até ontem monótona da publicidade... Leia mais

abc

 

Algumas marcas mergulharam de vez no assunto diversidade. Comerciais com mulheres empoderadas e pessoas LGBTs passaram a fazer parte da paisagem até ontem monótona da publicidade brasileira.

Como era de se esperar, o movimento veio acompanhado de algumas críticas. De um lado, os ressentidos. Dia desses, numa palestra, vieram me perguntar “cadê o protagonismo do homem branco heterossexual?”. Fiquei com vontade de questionar se os últimos 200 mil anos não tinham sido suficientes, mas fui mais polido.

De outro lado, movimentos sociais cobram, com razão, que as ações de publicidade sejam acompanhadas de medidas efetivas das marcas e empresas em prol da diversidade.

Concordo com estes últimos, mas acho que precisamos desenvolver uma visão histórica e mais ampla do assunto.

Quando uma marca fala de diversidade, ela está se posicionando, saindo de cima muro, e tomando lado em discussões sérias e que precisam avançar na nossa sociedade.

Ao contrário do que se pode pensar, nunca “é só publicidade”. A comunicação molda gostos, pode reforçar ou contestar estereótipos e é, sem dúvida, um processo fundamental para educar e sensibilizar para as diferenças.

Além disso, representatividade importa. Quem cresceu num mundo em que não havia qualquer referência positiva na TV a gays, negros ou pessoas trans sabe bem do que estou falando.

A conversa sobre diversidade é um caminho sem volta. Marcas que falam sobre o assunto serão mais cobradas e acompanhadas de perto pelos públicos, e isso é ótimo. Ganham as organizações e toda a sociedade.

Claro que os esforços de comunicação precisam vir acompanhados de iniciativas concretas e também do desenvolvimento de uma cultura organizacional aberta e inclusiva.

Mas a publicidade pode, sim, ser um excelente primeiro passo para a construção de um mundo mais justo e respeitoso para todas as pessoas.

 

20.06
Você não precisa ser gay para lutar contra a homofobia

O título deste artigo remete a uma série de camisetas lançadas recentemente por uma ONG do Rio de Janeiro. Nelas, estão estampadas frases como "você não precisa ser trans para lutar contra a... Leia mais

O título deste artigo remete a uma série de camisetas lançadas recentemente por uma ONG do Rio de Janeiro. Nelas, estão estampadas frases como “você não precisa ser trans para lutar contra a transfobia” ou “você não precisa ser lésbica para lutar contra a homofobia”.

12345678Eu iria além e diria: você pode ser o que quiser, mas para viver numa sociedade mais justa e igualitária para todas as pessoas – seus filhos, amigos e parentes, inclusive – precisa se posicionar contra toda e qualquer tipo de preconceito. Não dá para ficar apático.

O Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking macabro da LGBTfobia. Só em 2016 foram mais de 300 crimes de ódio cometidos contra lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans e mesmo contra héteros, que foram “confundidos” com os demais – foi o caso de pai e filho espancados na rua por pessoas que achavam que eram um casal de namorados.

A luta contra a LGBTfobia não é uma causa apenas dos LGBTs. É uma preocupação de todas e todos que prezam pela liberdade e pelo respeito.

No domingo (18) aconteceu a 21ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. É manifestação, mas também é festa. É fervo, mas também é luta. Além da presença maciça de marcas e empresas, tinha atrações como Anitta e Daniela Mercury, importantes aliadas da população LGBT.

A Parada é um espaço importante para demarcar território e demonstrar visibilidade, sobretudo quando, paradoxalmente ao tamanho da festa, o conservadorismo cresce.

Daí a importância da quantidade de pessoas heterossexuais, ou sem qualquer ligação direta com a causa, que passaram pela Paulista ontem para deixar seu recado. Eram grupos de amigos, familiares, colegas de trabalho – muitos com a camiseta das empresas – participando da construção de uma sociedade mais justa e inclusiva para todas as pessoas.

Que tal levar esta atitude para o dia a dia? Você não precisa ser LGBT para lutar contra a LGBTfobia. Basta ser uma pessoa comprometida com um mundo melhor. Boa semana!

16.05
Homofobia nas organizações: um assunto urgente Há 27 anos a homossexualidade deixava o catálogo de doenças da OMS

  Nesta quarta-feira, 17 de Maio, é celebrado o Dia Internacional de Combate à Homofobia. A escolha da data não é aleatória e procura lembrar o momento em que a homossexualidade foi... Leia mais

123

 

Nesta quarta-feira, 17 de Maio, é celebrado o Dia Internacional de Combate à Homofobia.

A escolha da data não é aleatória e procura lembrar o momento em que a homossexualidade foi retirada do catálogo de doenças da Organização Mundial da Saúde, em 1990.

Faz, portanto, apenas 27 anos que ser gay ou lésbica não é considerado uma patologia. Nas últimas décadas, alguns avanços foram conquistados, mas o preconceito contra a população LGBT persiste.

Inclusive nas organizações. Segundo pesquisa da consultoria Santo Caos, 40% dos homossexuais já sofreram preconceito no trabalho por conta de sua orientação sexual. O problema aparece na forma de piadas, de carreiras interrompidas e também de “conselhos” para “desmunhecar um pouco menos”, no caso dos homens, ou “ser mais menininha”, no caso das mulheres.

É uma intolerância assustadora, que fica ainda pior quando se consideram as interseccionalidades. O preconceito tende a crescer quando os marcadores de classe ou raça se somam à orientação sexual: é ainda mais difícil a vida do homossexual negro, com deficiências ou de baixa renda.

No caso da população trans, surge um agravante. A transgeneridade ainda consta dos manuais internacionais de doenças. Para a medicina, as travestis, mulheres e homens trans seguem como um grupo que merece tratamento psiquiátrico. Em 2017. Um escândalo.

Deixo a reflexão sobre como a ciência foi e ainda é utilizada para reproduzir discursos opressores. Duvido que algum leitor que conviva com colegas de trabalho ou amigos LGBT os considere doentes. Mas a medicina dizia isso até pouquíssimo tempo.

O 17 de Maio é um dia mais de meditação que de festa. É uma data para pensar sobre as conquistas que não chegam da mesma maneira para todos e a necessidade de desenvolvermos empatia e solidariedade, sobretudo com aqueles que estão lado a lado na sigla LGBT, mas seguem distantes em termos de direitos, acesso à cidadania e a trabalho.

Que a gente amplie nossa ação e possa, juntos, LGBT e aliados, lutar contra as intolerâncias de todos os tipos, nas escolas, nas famílias, na sociedade e também nas nossas organizações.

26.04
“O candidato é bom, mas é muito gay” O preconceito ainda é frequente na seleção de pessoal

  Quem trabalha com recrutamento e seleção talvez já tenha se deparado com a frase acima em algum momento da carreira. Ela é mais comum do que se imagina. Pesquisa... Leia mais

123

 

Quem trabalha com recrutamento e seleção talvez já tenha se deparado com a frase acima em algum momento da carreira. Ela é mais comum do que se imagina.

Pesquisa da Elancers realizada com dez mil empresas revelou que uma em cada cinco organizações não contratariam homossexuais. 7% dos recrutadores não dariam chance a estes profissionais em hipótese alguma e outros 11% os recusariam para funções que representem a empresa publicamente – o que pode incluir do operador de call center ao CEO.

Os números são bastante ilustrativos da homofobia que persiste no Brasil e demonstram a necessidade de avançarmos nas discussões sobre diversidade no trabalho.

Antes que alguém diga que sexualidade é um assunto privado e nada tem a ver com empresas, retruco: praticamente não existe mais divisão entre pessoal e profissional.

As pessoas querem se levar inteiras para o trabalho, sem se preocupar em necessariamente sair da sala para atender uma ligação do companheiro, sem precisar trocar o pronome, chamando “ela” de “ele” a todo momento ou fugir das conversas sobre o fim de semana, tão comum no retorno de feriados prolongados.

Imagine o estresse a que é submetido um profissional que passa por essas situações? É possível ser produtivo e engajado quando se vive com medo de ser “descoberto” e, eventualmente, ver sua carreira comprometida apenas por conta de sua orientação sexual?

Dizer “não” a gays e lésbicas é fechar as portas a um ambiente mais inclusivo, criativo e inovador. Todas essas características emergem quando as diferenças – todas elas – são valorizadas e bem recebidas nas organizações.

Precisamos apostar no diálogo e na empatia como formas de avançarmos neste assunto. É a partir da troca de experiências e da disposição para o entendimento que conseguimos vencer preconceitos, conscientes ou não.

É importante ressaltar que gays e lésbicas não querem privilégios. O que reivindicam é apenas aquilo que já é garantido aos seus pares heterossexuais: oportunidades iguais e respeito.

Não é porque um grupo ganha direitos que outro vai perdê-los. Não é assim que funciona. É possível expandir a noção de cidadania e incluir mais pessoas sem prejuízo daqueles que já são contemplados ou exercem posições de prestígio na sociedade ou no mercado de trabalho.

Heterossexuais, inclusive, têm um papel fundamental nesta jornada. A atuação deles como aliados é importante para espalhar a mensagem do respeito, coibir “piadas” ou manifestações de preconceito e convencer mais colegas da importância do assunto.

Estimule as conversas sobre diversidade na sua empresa. Reúna pessoas sensibilizadas para o assunto para discutir as especificidades de ser mulher, negro, pessoa com deficiência, jovem, velho ou LGBT na sua organização.

Vocês podem refletir sobre a situação atual, identificar eventuais problemas, envolver a liderança e, juntos, traçarem um planejamento para garantir um ambiente seguro e acolhedor para todas as pessoas.

Um mundo mais igualitário e respeitoso pode ser construído a partir de nossas baias e salas de reuniões. Ganham a empresa, a sociedade e os funcionários, todos eles, não apenas os gays e lésbicas.

PS: A questão das pessoas trans, ainda mais complexa, será tratada em outros artigos sobre diversidade e trabalho.

11.04
O que podemos aprender com o erro da Pepsi Marca de refrigerante derrapou em campanha sobre o ativismo das ruas

Durante muito tempo, a publicidade foi baseada em "sacadinhas", aquelas ideias geniais (ou nem tanto) que costumam sair da cabeça de alguém de agência. Embora criatividade continue sendo... Leia mais

123

Durante muito tempo, a publicidade foi baseada em “sacadinhas”, aquelas ideias geniais (ou nem tanto) que costumam sair da cabeça de alguém de agência.

Embora criatividade continue sendo uma das bases deste negócio, é preciso mais que bons insights – ou intenções – para sustentar uma campanha.

Que o diga a Pepsi e seu desastroso filme lançado na semana passada nos EUA.

No comercial, a fabricante de bebidas escalou a modelo Kendall Jenner para distribuir refrigerantes durante um protesto fictício.

A ideia em si já não era das melhores, mas a desgraça da marca partiu de sua completa alienação do ambiente em que está inserida.

Num momento em que movimentos como o Black Lives Matter ou contra o presidente Donald Trump dominam as ruas dos EUA pareceu oportunista sugerir a paz a partir da entrega de latinhas de refrigerante a manifestantes e policiais.

Ficou feio para a marca e para a modelo, uma webcelebridade de primeiro escalão que deveria escolher melhor que tipo de trabalho aceita.

A grita foi enorme e fez a Pepsi recuar. O comercial saiu de cena e a empresa soltou um pedido de desculpas.

A decisão foi acertada, claro, mas serviu apenas como redução de danos. Não foi suficiente para remover os carimbos de “oportunista” e “alienada” que a marca ganhou nos últimos dias.

O principal erro de Pepsi foi entrar num território nebuloso, o do ativismo, sem lastro nem propriedade para falar do assunto.

Marcas têm sido cada vez mais cobradas a se manifestar sobre diversos temas, e isso é ótimo. Os consumidores, sobretudo das novas gerações, querem produtos e empresas com propósito e valores alinhados às questões da atualidade.

Mas fazer isso não é para qualquer um nem acontece de uma hora para outra. Exige trabalho, pesquisa e sensibilidade.

É preciso ter clareza das motivações, entender como o tema se relaciona com os territórios da marca e saber como o público que se quer atingir e a sociedade como um todo estão posicionados em relação a determinado assunto.

Falando assim pode parecer muito complicado, mas uma das saídas é ouvir a maior quantidade possível de pessoas e com as mais diferentes opiniões.

Gente de esquerda, de direita, negros e brancos, heterossexuais e LGBTs, pessoas mais ou menos escolarizadas, homens e mulheres, profissionais de comunicação e leigos completos no assunto.

Enfim, diversidade. Este conceito que tem cada vez mais aparecido nas campanhas, mas continua sendo artigo raro na maioria das grandes agências de comunicação.

Cabeças diferentes, com diversas perspectivas e visões de mundo, são mais criativas e podem até demorar para chegar num consenso.

Mas certamente tomam decisões mais acertadas ou, pelo menos, com menor risco de escorregões.

27.03
Diversidade no mundo jurídico Mais um segmento importante se engaja na causa da diversidade. E as agências de comunicação, cadê?

Os clichês costumam associar o mundo jurídico a grandes mesas de madeira, formalidade no relacionamento entre pares e alguma burocracia no trato de processos. Se por uma lado esta imagem... Leia mais

123

Os clichês costumam associar o mundo jurídico a grandes mesas de madeira, formalidade no relacionamento entre pares e alguma burocracia no trato de processos.

Se por uma lado esta imagem não é totalmente equivocada, por outro, a área de advocacia tem dados passos importantes rumo a ambientes mais respeitosos, mas não necessariamente sisudos. Falo aqui de políticas de diversidade e inclusão.

A Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo recebeu na última sexta-feira (24) a primeira edição do evento LGBT por Direito: diversidade e inclusão no mundo jurídico.

A iniciativa contou com a participação dos mais importantes escritórios do país, como Mattos Filho, Trench, Rossi e Watanabe, Pinheiro Neto, Shearman e Sterling e outros.

Advogadas e advogados renomados apresentaram suas principais preocupações e iniciativas em relação ao tema da diversidade.

Chamou a atenção o tom de sinceridade das falas, com pessoas claramente emocionadas e engajadas com a possibilidade de ajudar a construir uma sociedade mais justa e igualitária.

Foram anunciadas ações importantes, como o ingresso gratuito de ações de retificação de nome para pessoas trans. Além disso, os escritórios firmaram o compromisso de avançar com este debate, conscientizar seus clientes e fornecedores para a importância do assunto e encarar novas frentes, como o desafio da inclusão racial no meio jurídico.

É mais um segmento importante se engajando na causa da diversidade. Depois das multinacionais e dos grandes players de tecnologia, agora os escritórios de advocacia.

Mas falta gente nesta conversa. Agências de comunicação, o segmento automotivo, os grandes bancos e estatais, por exemplo.

Quando o assunto é inclusão, não existe concorrência. A causa é maior. Por isso, converse com os principais representantes do seu setor e comecem juntos a discutir o assunto.

Quanto mais gente estiver preocupada com a questão da representatividade e do respeito às diferenças, mais rapidamente avançaremos.

17.03
A virada de mesa de Skol Marca se aproxima das questões de diversidade e surpreende o mercado

  Tenho a honra de fazer parte, como consultor de comunicação e diversidade, da equipe que está por trás de um dos movimentos mais instigantes da publicidade brasileira recente: a... Leia mais

123

 

Tenho a honra de fazer parte, como consultor de comunicação e diversidade, da equipe que está por trás de um dos movimentos mais instigantes da publicidade brasileira recente: a virada de mesa na comunicação das marcas de cerveja.

Se até pouco tempo o segmento era associado apenas à objetificação da mulher, hoje o que vemos são algumas marcas engajadas, demonstrando conexão com seus consumidores e com os novos tempos. Skol é a principal delas.

A marca já não usava a imagem da mulher em seus filmes há quase dez anos, mas seguia compartilhando o estigma de um segmento que ainda comete deslizes. Neste caso, como líder de mercado, nada melhor que usar sua força e voz para elevar a categoria. E foi isso que Skol fez com mais intensidade a partir de 2016.

Em junho do ano passado, a marca patrocinou a Parada LGBT de São Paulo e lançou o conceitou #RespeitoIsOn. A ação se repetiria no Rio e em Salvador, e estimulou a criação do filme abaixo, da agência F/NAZCA S&S:

 

O impacto foi grande. Não é todo dia que se vê uma empresa do porte da Ambev tomando partido numa discussão tão necessária quanto a dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans.

Na sequência vieram as ações de patrocínio aos Jogos Paralímpicos do Rio, incluindo filmes com pessoas comuns com deficiências, e não apenas os paratletas.

Em setembro, mais um passo adiante. Skol Beats trouxe uma mulher negra como protagonista de seu novo lançamento. O fato, que deveria ser corriqueiro, causou comoção num país em que negras representam apenas 1% das protagonistas da publicidade, segundo estudo da Heads. O filme foi criado pela Wieden + Kennedy.

Quem achou que tinha acabado se surpreendeu positivamente com a campanha de verão. O mote “Redondo é sair do seu quadrado” levou as pessoas a conversarem sobre diferentes tipos de corpo, cor e estilos.

O filme Viva a Diferença, abaixo, foi um dos mais compartilhados nas redes sociais.

No Carnaval, Skol se posicionou contra o assédio. Distribuiu milhares de apitos em blocos de Florianópolis, Recife, Salvador e Rio, e incentivou as mulheres a denunciarem abusos. Até uma “marchinha de respeito” foi criada.

E no Dia Internacional da Mulher, a marca demonstrou mais uma vez seu compromisso com a valorização da diversidade e com o respeito às diferenças. Skol encarou seu passado de frente e convidou oito artistas a redesenharem cartazes antigos da cerveja, mostrando como as mulheres são vistas pela marca: fortes e independentes.

A ação #ReposterSkol estimula as pessoas a indicarem bares que eventualmente ainda tenham cartazes antigos. A partir disso, o time da Ambev vai até lá e providencia a alteração. O conceito agora é “Redondo é sair do seu passado”, e o site da iniciativa é http://www.skol.com.br/reposter

Este movimento de Skol mostra a potência e a atualidade das discussões sobre diversidade, respeito e inclusão. É um trabalho atento, feito com bastante cuidado, e que já reverbera dentro da própria Ambev e também sobre outras marcas do grupo.

Campanhas recentes de Brahma e Budweiser também estão mais antenadas aos novos tempos. A empresa, além disso, tem estimulado as discussões sobre diversidade no ambiente de trabalho e recentemente assinou acordos com o ONU Mulheres e o Fórum de Empresas e Direitos LGBT.

É assim, com um olhar para fora, mas sem se perder do seu próprio ambiente, que grandes empresas têm avançado rumo a um mundo mais justo, inclusivo e respeitoso.

Ricardo Sales

Ricardo Sales

Ricardo Sales é profissional de comunicação e pesquisador na ECA/USP. Atualmente, desenvolve trabalhos envolvendo políticas de diversidade nas organizações e na comunicação das empresas. Como consultor, auxilia agências, marcas e organizações a desenvolverem uma comunicação mais respeitosa, inclusiva, empática e que valorize a diversidade. Faz parte da equipe que está revolucionando as campanhas de cerveja no país, atendendo a marca Skol. É, palestrante, professor e dá aulas e palestras sobre sexualidade, diversidade e comunicação intercultural. Formado em Comunicação Social pela ECA/USP, tem pós-graduação em Comunicação Institucional e cursa mestrado sobre políticas de diversidade e comunicação, também na USP. Contato: ricardodesales@gmail.com