Diretor-executivo da Aberje conversa com José Miguel Wisnik sobre brasilidade, futebol e poder

O diretor-executivo da Aberje, Hamilton dos Santos, doutor em filosofia pela FFLCH-USP, entrevistou José Miguel Wisnik, compositor, músico, ensaísta e professor de Literatura Brasileira na FFLCH-USP, em uma conversa que explorou as intersecções entre cultura, identidade e os impasses estruturais do Brasil. O encontro, realizado pelo canal UM BRASIL e pela revista Problemas Brasileiros, em parceria com a Aberje, tomou como ponto de partida a exposição “Complexo Brasil”, com curadoria de Wisnik, apresentada na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026. O canal UM BRASIL e a revista Problemas Brasileiros são realizações da FecomercioSP, associada à Aberje.
A mostra buscou fugir de abordagens “chapa branca” e “puramente cosméticas”. Para isso, seguiu um processo de “desencobrimento” da história brasileira, encarando temas sensíveis como a escravidão e a herança colonial. Para Wisnik, essa postura crítica, longe de fragilizar a imagem do país, fortalece a reputação da “Marca Brasil” ao demonstrar capacidade de autorreflexão e enfrentamento de suas próprias contradições.

“Queríamos fazer isso de uma maneira exuberante e pujante, mostrar essa experiência brasileira de multiplicidades, de diversidades, que afinal é o que nos identifica”, afirmou Wisnik. “Ao longo de três anos, trabalhamos com o princípio de não fazer uma coisa linear evolutiva, não contar uma história com começo, meio e fim. A gente parte do princípio de que a experiência brasileira é uma experiência simultaneísta, em que vivemos, o tempo todo e ao mesmo tempo, tempos muito diferentes”, explicou.
Wisnik afirmou que uma aliança entre educação e cultura é fundamental para romper fronteiras e liberar as potências criativas brasileiras, que muitas vezes permanecem travadas por contextos políticos e sociais.
Futebol: veneno e remédio
Um dos pilares da conversa foi o futebol, um “fato social total” que permeia a linguagem cotidiana e a identidade nacional. Wisnik utilizou a metáfora do “veneno-remédio” para descrever o esporte: ao mesmo tempo em que afirma uma potência criativa original, ele expõe as crises e derrotas acachapantes do país.
Para o professor, o futebol reflete o Brasil como uma entidade que oscila entre “o horror e o sublime”, funcionando como um instrumento capaz de, simultaneamente, curar o “complexo de vira-lata” e evidenciar as fraturas da sociedade.
Wisnik também falou sobre as estruturas de poder no Brasil e retomou os conceitos de “estamento burocrático” e “donos do poder”, formulados por Raymundo Faoro. Ele explicou como se consolidou no país uma camada administrativa que gere o Estado confundindo interesses públicos com interesses particulares. O professor citou escândalos recentes que ilustram o “velho mandonismo patriarcal” em uma versão contemporânea, na qual figuras do setor financeiro ocupam espaços privilegiados nas esferas públicas. Ele enfatizou que o Brasil precisa olhar para essas estruturas e para a herança escravista que permeia o racismo institucional para liberar suas potencialidades.
Hamilton reforçou a importância de trazer a exposição “Complexo Brasil” para o país, permitindo que o público brasileiro tenha acesso a essa imersão sensorial e conceitual sobre sua própria identidade. Ele observou que o mercado vive uma fase de aproximação com a agenda ESG, buscando novos posicionamentos institucionais. Para Hamilton, a capacidade de autorreflexão demonstrada pela mostra é um elemento importante para o aprimoramento da comunicação e dos negócios das empresas.
O vídeo completo da entrevista está disponível no canal UM BRASIL no YouTube.
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