Legitimidade fragmentada
Artigo publicado originalmente na revista Problemas Brasileiros, da FecomercioSP
A legitimação pode ser entendida como um dos processos centrais da comunicação contemporânea. Num ambiente marcado por hiperexposição, pela fragmentação da atenção e pela disputa permanente de discursos, as organizações passaram a depender menos de estruturas formais de autoridade e mais da capacidade de justificar socialmente sua existência, suas práticas e seus valores.
A ideia de legitimidade está relacionada ao reconhecimento social. Trata‑se da percepção de que determinada instituição atua de maneira adequada dentro de um sistema compartilhado de normas, crenças e expectativas. Os sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann, autores da obra “A construção social da realidade” (Vozes, 2014), compreendem esse processo como parte do que denominam “construção social da realidade”. Isto é, instituições precisam, de maneira contínua, explicar e justificar a própria existência para serem reconhecidas e reproduzidas socialmente. A legitimação funciona, portanto, como mecanismo de estabilização do mundo social.
A legitimação pela comunicação pode ser observada em três movimentos principais: a utilidade, quando organizações demonstram competência e capacidade de gerar benefícios por meio de seus produtos e serviços; a compatibilidade, quando buscam identificação com valores sociais no âmbito nacional e com expectativas coletivas; e a transcendência, quando recorrem a propósitos, valores éticos e justificativas que ultrapassem uma razão simples para sustentar suas ações.
Nas organizações, esses movimentos acontecem sobretudo pela comunicação. É por meio de discursos, símbolos, posicionamentos públicos e narrativas institucionais que empresas constroem sentidos sobre si mesmas e buscam reconhecimento diante de seus públicos. Mais do que transmitir informações, a comunicação organiza interpretações, enquadra acontecimentos e oferece justificativas sobre decisões, identidades e propósitos.
No entanto, o ambiente contemporâneo cada vez mais tensiona profundamente esses processos. A fragmentação da atenção, a multiplicação das plataformas digitais e a hiperexposição permanente tornam mais instável a capacidade das organizações de sustentar narrativas coerentes e duradouras. A legitimação deixa de operar num espaço relativamente centralizado e passa a acontecer de forma dispersa, simultânea e constantemente contestada.
Ainda assim, isso não significa o fim da possibilidade da legitimação. Pelo contrário: quanto maior a instabilidade, maior a necessidade de construir sentidos capazes de sustentar vínculos, reconhecimento e confiança. A legitimidade talvez esteja mais fragmentada, volátil e disputada do que nunca, mas continua sendo uma das principais formas de estruturar a comunicação e garantir a perenidade das organizações em um tempo tumultuado. No contexto empresarial, ela funciona como mecanismo de ordenação da própria realidade corporativa. Empresas constroem versões sobre quem são, quais valores representam e qual papel desempenham socialmente. Não basta existir de forma institucional; é necessário ser percebido como relevante, competente e autorizado diante de governos, imprensa, investidores, colaboradores e sociedade civil.
ARTIGOS E COLUNAS
Nelson Silveira Só os rituais nos salvam do algoritmoElizeo Karkoski Gestão de relacionamentos e a NR-1: a Comunicação Interna como ativo de prevençãoPaulo Nassar Da pirâmide à plataforma
Destaques
- Encontro da Aberje em Vitória debate riscos para a reputação na era da IA
- Divulgada a lista de aprovados para nova turma do Mestrado Profissional em Comunicação Digital e Cultura de Dados
- WhatsApp vira canal de Comunicação Interna e exige governança, métricas e estratégia
Notícias do Mercado
- Obra celebra o legado de Margarida Kunsch na Comunicação Organizacional
- Race Comunicação promove encontro sobre influência corporativa na América Latina
- Gerdau participa da Festa do Peão de Barretos e fornece aço para infraestrutura do parque

































