Rituais, experiência e criação – contra a dispersão, a forma

Palestra proferida em 28 de abril de 2026, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em encontro organizado no contexto do Mestrado Profissional em Comunicação Intercultural nas Organizações, atendendo o convite do Prof. Dr. Carlos Netto.
Vivemos um tempo de intensificação sem precedentes. Nunca tivemos tanto acesso à informação, tantos estímulos concorrentes, tantas possibilidades de expressão. E, no entanto, raramente a experiência parece tão fragmentada, tão pouco estruturada, tão difícil de ser transformada em algo que perdure. Vivemos em um tempo de excessos.
Há, nesse cenário, um paradoxo central: vivemos mais, mas elaboramos menos. Produzimos mais, mas consolidamos menos. Consumimos mais, mas compreendemos menos.
A formulação de Herbert Simon, ainda nos anos 1970, antecipa com precisão esse quadro: “uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção”. O problema, portanto, não é apenas o excesso de dados, mas a incapacidade crescente de organizá-los em experiências dotadas de sentido.
Essa condição pode ser descrita como uma forma contemporânea de entropia: quanto mais informação circula, mais difícil se torna produzir ordem, coerência e significado. A lógica do fluxo contínuo, intensificada pelas plataformas digitais, dissolve começos e fins, interrompe processos, fragmenta a atenção. O resultado é uma experiência sem duração, e, portanto, sem forma.
É nesse ponto que os rituais, frequentemente associados ao passado, revelam sua atualidade.
Rituais são práticas milenares de organização da vida. Criam comunidades, fortalecem vínculos, instituem pertencimento. Vinculam indivíduos a grupos, a territórios, a temporalidades compartilhadas. Mais do que isso: são, fundamentalmente, narrativas vividas. Não apenas representam o mundo, produzem experiência, produzem realidade.

Nesse sentido, os rituais podem ser compreendidos como dispositivos que tornam possível uma operação decisiva: a passagem da experiência à forma.
Como sugere Paul Ricœur, “o tempo torna-se tempo humano na medida em que é articulado de modo narrativo”. A experiência, por si só, é difusa, muitas vezes caótica. Para que se torne compreensível, transmissível, compartilhável, ela precisa ser configurada, isto é, narrada. E essa configuração não ocorre espontaneamente: ela exige estruturas, repetições, formas de organização do tempo e da atenção.
Essas estruturas são, em grande medida, rituais.
Daí a hipótese que orienta esta reflexão: não há criação sem ritual, o que varia é o tipo de ritual que sustenta a passagem da experiência à forma.
Essa hipótese torna-se particularmente clara quando observamos diferentes regimes de criação.
Frédéric Chopin, um dos grandes nomes do romantismo musical, experimentava a criação como uma irrupção intensa, quase total. Ideias musicais surgiam completas, plenas, como se já estivessem prontas. No entanto, ao tentar traduzi-las em partitura, mergulhava em um processo extenuante de repetição, correção e reescrita. O ritual, nesse caso, não produzia a inspiração: ele continha o excesso da experiência, permitindo que ela se transformasse em forma.
Já Albert Einstein, frequentemente associado à imagem do gênio disruptivo, operava em um regime oposto. Sua vida era marcada por uma rotina estável, quase banal. Leitura, trabalho, caminhadas, descanso. É nesse ambiente de regularidade que emergem ideias que redefinem a física moderna. Aqui, o ritual não contém, ele organiza. Cria condições para que o pensamento se sustente no tempo e alcance níveis elevados de complexidade.
No caso de Willem de Kooning, um dos principais nomes do expressionismo abstrato, o processo assume uma terceira configuração. A criação se dá por imersão contínua, repetição intensa e quase ausência de interrupção. O artista trabalha dia e noite, retorna incessantemente à tela, insiste até o limite. O ritual, aqui, intensifica a experiência, ampliando sua energia até que a forma emerja do próprio processo.
Por fim, Henri Matisse constrói sua obra ao longo de décadas de trabalho disciplinado. Sua produção não depende de momentos excepcionais, mas de uma prática contínua, reiterada, quase cotidiana. O ritual deixa de ser técnica para se tornar forma de vida. A criação se estabiliza no tempo, e é essa estabilidade que permite alcançar níveis elevados de síntese e simplicidade formal.
Quatro trajetórias distintas, quatro modos de organizar o cotidiano, mas uma constante: em todos os casos, a criação depende de estruturas que resistem à dispersão.
Essa constatação ganha especial relevância no contexto contemporâneo.
No ambiente corporativo, a ausência de rituais consistentes leva à fragmentação da estratégia e à fragilização da cultura. Sem práticas recorrentes que organizem a experiência coletiva, a comunicação se torna episódica, reativa, incapaz de produzir sentido compartilhado.
No plano pessoal, a falta de rituais contribui para a dispersão da atenção e a dificuldade de sustentar processos mais longos. O sujeito passa a viver em estado de interrupção permanente, incapaz de aprofundar ou consolidar experiências.
Nas famílias, a erosão dos rituais (refeições, encontros, celebrações) compromete a transmissão e enfraquece vínculos. No plano comunitário, a substituição da experiência compartilhada por conexões contínuas não garante pertencimento. Redes não são, necessariamente, comunidades.
Diante disso, torna-se possível afirmar que os rituais não são resquícios de um mundo pré-moderno. Ao contrário: são tecnologias fundamentais para enfrentar a entropia do presente.
Eles organizam o tempo em um contexto de fluxo contínuo. Reconstroem a atenção em um ambiente de dispersão. Criam forma em meio ao excesso de estímulos.
Se a experiência contemporânea tende à fragmentação, o ritual é o que permite recompor sua unidade. Se a informação se multiplica sem cessar, o ritual é o que torna possível produzir sentido. Se tudo passa rapidamente, o ritual é o que institui duração.
A questão que se coloca, portanto, não é se precisamos de rituais, mas quais rituais somos capazes de construir (individual e coletivamente) para sustentar processos de criação, reflexão e convivência no mundo contemporâneo.
Sem eles, restará apenas o fluxo.
Com eles, talvez ainda seja possível produzir forma, memória e futuro.
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