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02 de junho de 2026

A cultura da resposta pronta

Rizzo Miranda
Foto: Matthew Feeney/Unsplash
 
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Preâmbulo – Diogo Cortiz escreveu no UOL dia 24 de maio: “O Google matou o Google. Agora todo mundo terá que se reinventar”. O resumo: o texto faz referência às recentes iniciativas de IA anunciadas pelo Google, especialmente a expansão do AI Overviews e do “AI Mode”, em que a busca deixa de funcionar apenas como lista de links e passa a responder diretamente ao usuário com sínteses geradas por IA, reduzindo a navegação para sites originais e transformando o buscador em uma camada intermediária super ampla entre pessoas e informação.

Agora vem comigo porque essa conversa interessa a todos nós. Talvez o ponto mais importante sobre o novo momento do Google não seja apenas tecnológico. Talvez seja cultural. Durante muito tempo, buscar informação significou ir cruzando caminhos. Nunca ir atrás apenas de uma resposta. Ao contrário, descobrir camadas, contextos, desvios, contradições, associações improváveis e descobertas que nem estavam no plano inicial.

Grande parte da nossa formação intelectual aconteceu assim: menos (mas muito menos mesmo!) no destino, mais no entendimento nada fácil de observar e viver o tal percurso. Não se chega a Carlos Drummond de Andrade apenas digitando “poesia”. Chega-se atravessando tempo, escola literária, contexto histórico, linguagem, referências paralelas, encontros acidentais. O mesmo vale para Clarice Lispector, Caetano Veloso, T. S. Eliot, David Bowie, Basquiat ou Rodin. Grandes movimentos culturais quase nunca nasceram em ambientes organizados para entregar respostas rápidas. Eles emergiram justamente do excesso, da ambiguidade, da dúvida e do contato entre repertórios improváveis.

Cultura sempre teve algo de contaminação. No melhor sentido da palavra. É por isso que a mudança atual merece atenção. Quando uma das principais interfaces de tecnologia e acesso ao conhecimento passa a organizar, sintetizar e responder de maneira cada vez mais direta, acontece uma mudança que se sobrepõe à experiência de busca. Muda a forma como nos relacionamos com o saber, com a curiosidade e até com o tempo da descoberta. O ponto aqui não é negar os benefícios dessa transformação. Eles existem. Há ganho real de eficiência, praticidade e acessibilidade. Em muitos contextos, isso representa avanço. Pessoas encontram soluções mais rápido, formulam perguntas mais complexas e acessam informação com menos “dificuldades” diretas. Seria simplista ignorar isso.

Mas toda grande conveniência também reorganiza comportamento. E talvez o que temos de observar por trás desse novo Google seja exatamente isso: estamos saindo de uma lógica em que a busca nos empurrava para uma rede de caminhos e entrando em outra em que a tecnologia passa a atuar como mediadora mais ativa da realidade. Ela não apenas aponta onde olhar. Ela começa a estruturar como olhar. Não é uma diferença sutil. 

A internet de antes era excessiva, caótica, dispersa. E justamente por isso exigia algo do usuário: selecionar, comparar, desconfiar, interpretar, abandonar uma hipótese, abrir outra aba, voltar atrás. Havia algo intelectualmente formador nesse comportamento . Nem sempre era agradável, mas era fértil. Abrir várias páginas e perceber que nenhuma concordava totalmente com a outra fazia parte da construção de repertório, nuance e pensamento crítico.

A nova lógica reduz esse movimento. E, ao reduzi-lo, também comprime etapas da experiência intelectual. Em vez de múltiplas portas, temos uma interface cada vez mais capaz de condensar, hierarquizar e devolver uma versão mais organizada do mundo. Isso não significa necessariamente perda. Mas certamente significa mudança. E mudanças assim nunca são neutras do ponto de vista cultural. Porque, quando o acesso à informação fica mais fluido, rápido e sintético, algumas habilidades sobem de valor e outras correm o risco de atrofiar. A velocidade ganha espaço. A profundidade precisa ser defendida com mais intenção. A resposta chega antes. O processo, nem sempre.

E talvez uma das grandes questões do nosso tempo seja justamente esta: o que acontece com uma sociedade quando o resumo se torna a experiência dominante e o percurso passa a ser opcional? Essa pergunta vale para a educação, para consumo de cultura, para formação de gosto, para jornalismo, para marcas e para a vida cotidiana. Estamos entrando em uma fase em que descobrir já não depende apenas de procurar. Depende de como as plataformas mediam relevância, contexto e prioridade. E isso desloca o papel do Google: de grande porta de entrada da web para algo mais próximo de uma camada inteligente de interpretação, síntese e orientação. Não se trata de dizer que o Google deixou de ser útil. Ao contrário: ele talvez nunca tenha sido tão funcional. O ponto é outro. Quanto mais eficiente a mediação, mais importante se torna discutir seus efeitos sobre diversidade cognitiva, autoria, repertório e pluralidade de fontes.

E aqui existe uma camada mais delicada nessa conversa. O conteúdo continua sendo produzido por milhares de pessoas, instituições, veículos, artistas, pesquisadores e criadores. Mas, à medida que as interfaces ganham poder de síntese, os rastros desse caminho podem se tornar menos visíveis. O contexto segue lá, mas passa a competir com a conveniência da resposta pronta. E isso nos leva a uma discussão maior do que tecnologia. Fala-se muito sobre inovação, produtividade e eficiência. Nem tanto sobre o tipo de comportamento intelectual que essa nova fase estimula. Sociedades não ficam mais sofisticadas apenas porque acessam respostas melhores em menos tempo. Elas se sofisticam quando preservam a capacidade de interpretação, conflito de ideias, contraste de referências, dúvida e elaboração própria. O risco não está em usar interfaces mais inteligentes. Está em desaprender a fazer o trabalho mental que sempre transformou informação em visão de mundo. Talvez seja esse o debate mais importante agora. Não se o Google está “certo” ou “errado” ao evoluir sua busca. Mas sim que tipo de cultura se forma quando a principal experiência de acesso ao conhecimento passa a privilegiar síntese, fluidez e mediação contínua. E, principalmente, como vamos preservar curiosidade, repertório e profundidade em um ambiente cada vez mais organizado para nos entregar sentido antes mesmo de terminarmos de explorar a pergunta. Porque toda época cria sua tecnologia dominante. E toda tecnologia dominante, cedo ou tarde, também reorganiza a forma como pensamos.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Rizzo Miranda

Rizzo Miranda é sócia da bowler, híbrido de consultoria e agência de Comunicação. Jornalista com MBA em Marketing pelo COPPEAD/UFRJ, é especialista em estratégia e planejamento de comunicação, gestão de projetos de crises de reputação e marketing digital. Atual professora colaboradora de Gestão de Crise na Pós-Graduação em Estratégias de Comunicação Digital da FGVECMI, também é membro do júri do I-COM Data Creativity Awards e liderou o time que ganhou Leão em Cannes (2011) para cliente Governo do Rio, o Sabre Awards Latin America e Aberje para o IBP (2020) e Aberje para Scania 2023.

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