Human Skills na era da IA: o profissional do futuro já chegou

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e já faz parte da rotina de trabalho. Ela escreve, resume, programa, analisa dados, apoia diagnósticos, automatiza processos e acelera decisões. Diante desse avanço, uma questão ganha força: quanto mais a tecnologia assume tarefas técnicas, mais o valor das pessoas passa a estar naquilo que exige leitura de contexto, senso crítico e intenção. O diferencial competitivo tende a estar menos no acúmulo de informação e mais na capacidade de interpretar, questionar, combinar repertórios e dar sentido ao que a tecnologia entrega.
Esse foi o fio condutor do Progicast #128, que recebeu Mário Bello, CEO da Bora! e CHRO do Extreme Group, e Ricardo Farah, professor universitário, mentor executivo, consultor organizacional e criador da Farah MentorIA – IA com Alma. A conversa partiu de uma inquietação bastante concreta para quem acompanha as transformações do trabalho: se a IA já executa cada vez mais atividades técnicas, em que lugar passa a estar o valor de um profissional?
Os dados mostram que a pergunta não é retórica. O World Economic Forum estima que 22% dos empregos atuais passarão por algum tipo de disrupção até 2030, com a criação de 170 milhões de novas funções e o deslocamento de 92 milhões, resultando em saldo líquido positivo de 78 milhões de postos de trabalho. O mesmo relatório aponta que quase 40% das habilidades exigidas no trabalho devem mudar no período, enquanto 63% dos empregadores já veem lacunas de competências como a principal barreira à transformação dos negócios.
Nesse cenário, falar apenas em substituição de pessoas por máquinas simplifica demais a discussão. O que está em jogo é a transformação das funções. Para Mário Bello, competências técnicas seguem importantes, mas deixam de ser o único critério de valor. Adaptabilidade, humildade intelectual, aprendizagem contínua e repertório ganham mais peso. O profissional mais preparado não é necessariamente quem domina todas as ferramentas, mas quem entende o problema, questiona a resposta e usa a tecnologia como meio, não como fim.
Falar em human skills não é colocar o humano contra a tecnologia, nem tratar a IA como ameaça em si. É reconhecer que, quando respostas passam a ser geradas em segundos, cresce o valor de saber pensar sobre elas. Ricardo Farah lembra que comunicação, empatia, escuta, discernimento, compaixão, autoconhecimento e pensamento crítico sempre fizeram parte do trabalho, mas ganham outro peso agora: a competência se desloca do fazer operacional para a capacidade de interpretar, decidir e responder com responsabilidade.
A McKinsey estima que a IA generativa possa adicionar entre US$ 2,6 trilhões e US$ 4,4 trilhões por ano à economia global, com impacto especial em áreas como atendimento ao cliente, marketing e vendas, engenharia de software e pesquisa e desenvolvimento. O estudo também indica que tecnologias atuais podem automatizar atividades que hoje consomem de 60% a 70% do tempo dos trabalhadores. São números expressivos, mas eles não reduzem a necessidade de julgamento humano. Pelo contrário: tornam ainda mais importantes temas como governança, ética, qualidade dos dados e impacto das decisões.
A adoção da IA já acontece em escala. O Work Trend Index 2024, da Microsoft e do LinkedIn, mostra que 75% dos trabalhadores do conhecimento usam IA no trabalho, e 46% começaram há menos de seis meses. O ponto de atenção está na forma como isso vem ocorrendo: 78% dos usuários levam suas próprias ferramentas de IA para o ambiente corporativo, prática conhecida como BYOAI. Para as empresas, há ganho potencial de produtividade, mas também riscos claros ligados a segurança, privacidade, vazamento de dados e falta de padrões de uso.
Esse ponto dialoga diretamente com a visão apresentada por Mário Bello: a IA não deve entrar nas organizações como moda, atalho ou imposição. Para ele, colocar inteligência artificial sobre processos mal desenhados apenas acelera problemas antigos. Antes da ferramenta, é preciso rever fluxos, integrar bases, qualificar dados, definir responsabilidades e entender qual problema se deseja resolver. A tecnologia é tão boa quanto o contexto que a sustenta.
O IBM Global AI Adoption Index reforça esse diagnóstico: 42% das organizações de grande porte já usam IA ativamente em seus negócios, enquanto outras 40% ainda estão em fase de exploração ou experimentação. As principais barreiras apontadas são falta de habilidades e expertise em IA, complexidade dos dados e preocupações éticas. Em outras palavras, o desafio não é apenas tecnológico; é organizacional, cultural e humano.
Ao reunir os dados de mercado com os pontos levantados pelos convidados, o episódio ajuda a deslocar a conversa sobre IA de uma lógica de ameaça para uma leitura mais estratégica: a tecnologia muda tarefas, mas também exige novas formas de aprender, liderar e decidir.
Liderança aumentada: IA como apoio à reflexão, não à decisão automática
No campo da liderança, Ricardo Farah leva a discussão para uma camada mais sensível. Ao apresentar a Farah MentorIA, ele propõe uma IA que não se limita a entregar respostas prontas, mas ajuda a formular perguntas. A lógica é menos a da automação da decisão e mais a da ampliação da consciência. A ferramenta parte da percepção de que decisões complexas costumam envolver tensões entre valores e medos. Nesses casos, a IA pode apoiar líderes na reflexão sobre conflitos, inseguranças e escolhas difíceis, desde que a responsabilidade final continue sendo humana.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico também aponta que trabalhadores expostos à IA não precisarão, necessariamente, ser especialistas em machine learning ou processamento de linguagem natural. O que muda é a composição das tarefas e das habilidades exigidas. Em ocupações altamente expostas à IA, competências de gestão, processos de negócio, habilidades sociais, emocionais e digitais seguem entre as mais demandadas. A tecnologia, portanto, não reduz a importância do humano; ela reposiciona o humano no centro da complexidade.
Um dos pontos mais fortes da conversa foi a defesa do repertório. Em um tempo de respostas instantâneas, ler, escrever, estudar e formular pensamento próprio tornam-se práticas estratégicas. A IA pode gerar textos, argumentos e hipóteses, mas não substitui a experiência acumulada, a leitura crítica, a sensibilidade ética nem a capacidade de perceber nuances. Sem repertório, o profissional corre o risco de aceitar como verdade aquilo que é apenas uma formulação estatística convincente.
A criatividade também ganha novo contorno. Para Ricardo Farah, ela nasce da curiosidade: da disposição de fazer novas perguntas, explorar alternativas e combinar referências. Para Mário Bello, inovar exige sair do próprio campo, buscar repertórios em outras áreas e trazer leituras de mundo para dentro do trabalho. A IA pode ampliar esse processo, mas não cria propósito, intenção ou responsabilidade. Ela reorganiza padrões; cabe ao humano romper, interpretar ou reinventar esses padrões.
Por isso, a discussão sobre o futuro do trabalho não deveria ficar limitada ao medo da substituição. Um risco menos óbvio, mas igualmente relevante, é a dependência cognitiva: delegar à máquina não só tarefas, mas também parte da nossa capacidade de pensar. O profissional aumentado não é quem terceiriza sua inteligência. É quem usa a IA para ganhar tempo, ampliar a visão, testar hipóteses e melhorar entregas, sem renunciar a autoria, discernimento e responsabilidade.
Ao final, a principal mensagem que fica é menos futurista do que parece. Para prosperar na era da inteligência artificial, será preciso desenvolver com mais intenção aquilo que nos torna humanos. Não como oposição à tecnologia, mas como condição para usá-la melhor. O profissional do futuro já chegou, e será reconhecido não apenas pela fluência digital, mas pela capacidade de aprender, questionar, criar, se relacionar e decidir com consciência.
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