O comunicador e o humano

Aos 59 anos da Aberje, uma reflexão sobre comunicação, tecnologia e a difícil viagem de volta ao humano
Há um texto de Carlos Drummond de Andrade que parece ter atravessado o tempo para nos encontrar justamente agora. Chama-se “O homem; as viagens”. Nele, Drummond imagina o ser humano lançando-se à conquista do espaço, colonizando a Lua, Marte, Vênus e outros mundos, para descobrir, ao final, que ainda lhe resta uma viagem muito mais difícil.
Vale ler integralmente o trecho final:
“Restam outros sistemas fora do solar a colonizar.
Ao acabarem todos. Só resta ao homem
(estará equipado?).
A dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo: pôr o pé no chão
do seu coração experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem”
Carlos Drummond de Andrade, “O homem; as viagens”. In: Poesia e Prosa. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979, p. 440–441.
A pergunta entre parênteses — “estará equipado?” — talvez seja uma das perguntas mais contemporâneas que podemos fazer.
Estamos equipados tecnologicamente como jamais estivemos. Mas estaremos equipados humanamente?
A provocação de Drummond ganha uma força particular neste 8 de outubro, quando a Aberje completa 59 anos. Porque chegamos a esse aniversário em um momento no qual não está em transformação apenas a comunicação. Está em transformação uma ideia muito antiga sobre o próprio ser humano.
Vivemos um tempo extraordinário. Nunca produzimos tantas palavras, imagens, sons, dados e narrativas. Nunca tivemos tantas possibilidades de conexão. Nunca dispusemos de tecnologias tão poderosas para produzir, distribuir, traduzir, recombinar e personalizar conteúdos. A inteligência artificial acrescenta agora uma ruptura ainda mais profunda: pela primeira vez, a produção de linguagem, durante séculos entendida como uma das expressões distintivas da inteligência humana, pode ser realizada em escala por sistemas não humanos. Não se trata apenas de uma transformação tecnológica. É uma transformação antropológica.
Durante muito tempo construímos nossa centralidade a partir da ideia de que éramos os seres capazes de pensar, narrar, interpretar, imaginar e criar mundos por meio da linguagem. Agora convivemos com máquinas que escrevem, falam, desenham, traduzem, argumentam, simulam estilos e produzem narrativas em segundos.
Diante disso, talvez a pergunta mais importante para o comunicador não seja: o que a inteligência artificial será capaz de fazer? A pergunta é outra: o que continuaremos querendo fazer como humanos?
Quando o conteúdo vira mercadoria
Há algumas décadas, a comunicação vem sendo progressivamente submetida à lógica da mensuração, da velocidade e da performance. Audiência. Alcance. Engajamento. Cliques. Conversões. Visualizações. Seguidores. Tempo de tela. Tudo isso tem importância. O problema começa quando aquilo que pode ser medido passa a definir aquilo que merece existir.
Nesse ambiente, o conteúdo corre o risco de transformar-se em conteúdo-mercadoria: produzido para circular, competir pela atenção e desaparecer rapidamente, substituído pelo próximo conteúdo. E depois pelo próximo. E pelo próximo.
É a comunicação submetida à economia da atenção e, em seu limite, à economia da distração. Temos então uma situação paradoxal: a conexão cresce enquanto a relação pode diminuir.
Estamos permanentemente conectados e, muitas vezes, pouco vinculados. Recebemos milhares de mensagens, mas poucas nos atravessam. Falamos com centenas de pessoas, mas podemos não encontrar verdadeiramente ninguém.
A conexão, sozinha, não produz comunidade. A informação, sozinha, não produz compreensão. O alcance, sozinho, não produz confiança. E o conteúdo, sozinho, não produz sentido.
A linguagem organiza os afetos
É nesse ponto que precisamos recuperar uma ideia elementar, quase esquecida pela exuberância tecnológica: comunicação não acontece apenas entre dispositivos. Acontece entre corpos, histórias, memórias, afetos e experiências.
Uma palavra pode tranquilizar ou ferir. Um silêncio pode acolher ou excluir. Um olhar pode legitimar. Uma ausência pode comunicar mais do que dezenas de mensagens. Uma narrativa pode reorganizar a memória de uma comunidade. Um ritual pode transformar indivíduos dispersos em um “nós”.
A linguagem não apenas transporta informações. A linguagem organiza afetos. A linguagem cria a realidade. Ela nomeia o medo e a esperança. Dá forma ao sofrimento. Cria pertencimentos. Reconhece o outro. Produz confiança. Inscreve acontecimentos na memória. Faz com que experiências individuais possam ser compartilhadas e transformadas em experiência coletiva.
Por isso, a comunicação não passa apenas pela mente. Ela atravessa o corpo. E talvez seja justamente aí que se encontre uma fronteira decisiva para o comunicador contemporâneo.
A máquina pode produzir linguagem. Mas cabe a nós perguntar que mundo essa linguagem ajuda a produzir.
Do conteúdo à experiência
Para a comunicação organizacional, essa mudança de perspectiva é profunda. O comunicador do futuro não pode ser apenas um administrador de conteúdos, canais e plataformas. Tampouco pode reduzir sua identidade profissional à operação sofisticada de métricas. Sua responsabilidade é maior.
Ele trabalha com aquilo que poderíamos chamar de dimensão simbólica das organizações: as narrativas pelas quais uma instituição explica quem é; os rituais pelos quais manifesta seus valores; as memórias que escolhe preservar; os silêncios que produz; as relações que estabelece; os reconhecimentos que oferece; as experiências que proporciona aos seus públicos e à sociedade.
É nesse território que reputação, confiança e legitimidade deixam de ser abstrações. Não basta comunicar que uma organização é humana. É preciso que as pessoas experimentem humanidade na relação com ela.
Não basta falar de escuta. É preciso criar situações reais de escuta. Não basta proclamar propósito. É preciso fazer com que ele seja reconhecível nas decisões, nos gestos, nos rituais e nas relações cotidianas. A comunicação começa antes da mensagem.
Dos 59 aos 60 anos
Quando a Aberje nasceu, em 1967, o mundo da comunicação organizacional era outro. Mudaram as tecnologias, os meios, as organizações, as relações de trabalho, os públicos e a própria sociedade. Ao longo dessas quase seis décadas, atravessamos diferentes revoluções comunicacionais.
Mas talvez a transformação que vivemos agora seja de natureza distinta. Não estamos apenas diante de novas ferramentas. Estamos diante de tecnologias que nos obrigam a perguntar novamente o que significa ser humano em um ambiente comunicacional compartilhado com inteligências artificiais.
É uma pergunta profissional. Mas é também ética, filosófica e antropológica. A resposta não estará em rejeitar a tecnologia. Seria inútil e empobrecedor. A inteligência artificial amplia extraordinariamente nossas capacidades. Pode nos ajudar a pesquisar, comparar, traduzir, criar, analisar e compreender.
O desafio é outro: quanto mais poderosa for a tecnologia, mais necessária será a consciência humana sobre aquilo que fazemos com ela.
Talvez o grande diferencial do comunicador não esteja em competir com a máquina na produção de conteúdos. Essa é uma competição pouco promissora. Seu território mais importante estará naquilo que exige contexto, responsabilidade, reconhecimento do outro, sensibilidade, memória, julgamento, presença e capacidade de produzir vínculos significativos.
Em uma palavra: humanidade.
A viagem mais difícil
Drummond imaginou o homem conquistando outros sistemas antes de perceber que faltava conquistar a si próprio.
Nós fizemos algo semelhante.
Construímos redes planetárias. Colocamos bilhões de pessoas em conexão. Criamos máquinas capazes de conversar conosco. Produzimos uma quantidade de informação que nenhuma geração anterior poderia imaginar.
Talvez tenha chegado a hora da viagem inversa. Da conexão ao vínculo. Da velocidade à presença. Do conteúdo à experiência. Da audiência à relação. Do clique à confiança. Da inteligência à sabedoria. Da comunicação que ocupa espaços à comunicação que cria significado.
Aos 59 anos da Aberje, e no caminho para os seus 60 anos, talvez seja essa uma boa pergunta para levarmos conosco: depois de aprendermos a conectar máquinas, organizações, plataformas e bilhões de pessoas, estaremos equipados para a “dificílima perigosíssima viagem” de volta ao humano?
Drummond deixou a pergunta aberta. A comunicação terá de ajudar a respondê-la.
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