Quando todos “souberem” comunicar, quem pensará?

Há algum tempo, produzir uma boa comunicação exigia uma combinação relativamente rara de competências: repertório, técnica, tempo, equipe, acesso à informação e domínio de linguagem.
Hoje, uma parte importante desse caminho pode ser percorrida em minutos. Uma ferramenta de inteligência artificial pode escrever um posicionamento, estruturar uma apresentação, sugerir argumentos, revisar um discurso, criar um roteiro, montar perguntas para uma entrevista ou propor dez versões de uma mesma mensagem antes que a reunião seguinte comece.
E, sim, isso é extraordinário. Mas, estamos prestando atenção demais àquilo o que acontece depois que damos o comando à máquina e focando cada vez menos no que deveria acontecer antes: a pensata.
Aquele instante em que perguntamos: Qual é a questão que precisa ser resolvida? Quem será afetado? Que contexto estamos deixando de considerar? Qual decisão estamos tentando sustentar?
Parece óbvio, mas a velocidade da tecnologia cria um caminho perigoso: começar pela execução. Abrimos a ferramenta antes de terminar o raciocínio, pedimos uma resposta antes de formular adequadamente a pergunta.
E isso, claro, impacta diretamente na discussão sobre o futuro da Comunicação. Agora, o desafio mais importante é preservar e desenvolver aquilo que vem antes do prompt: a capacidade de observar, interpretar, relacionar informações, perceber nuances e construir um ponto de vista.
A tecnologia pode nos oferecer cenários, argumentos e caminhos. Pode ampliar nosso repertório, confrontar hipóteses e até revelar ângulos que não havíamos considerado. Mas, alguém precisa decidir quais perguntas merecem ser feitas, discernir contexto, intenção, consequência e tomar uma decisão. Essas, talvez, sejam as competências mais importantes dos profissionais que atuam na área agora.
Em um ambiente em que quase todos terão acesso às mesmas tecnologias, a vantagem migra de quem produz primeiro para quem compreende melhor. No momento em que temos abundância de respostas, discernimento e pensamento crítico ficam cada vez mais valiosos.
A inteligência artificial pode acelerar enormemente aquilo que fazemos depois de apertar o start. Mas, ainda cabe a nós decidir por que apertá-lo.
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