Só os rituais nos salvam do algoritmo

O retorno das falsas narrativas que circularam durante a pandemia não deveria nos surpreender. Karl Marx, em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte” (1852), já advertia que os grandes fatos históricos tendem a se repetir: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Se a tragédia foi vivida entre 2020 e 2021, com milhares de mortes alimentadas por desinformação sobre vacinas e tratamentos precoces, o que vemos hoje é sua farsa: as mesmas teorias, os mesmos personagens, os mesmos memes, ressurgindo como se o tempo não tivesse passado.
Mas a leitura da antropóloga Letícia Cesarino (2022) sobre essa repetição vai além da metáfora política de Marx. Ancorada na cibernética de Gregory Bateson, Cesarino descreve as redes digitais como sistemas de retroalimentação que não operam segundo uma temporalidade linear e progressiva, mas segundo ciclos recursivos, nos quais informação, ruído e afeto se realimentam continuamente. Nesse regime, a farsa marxista não é apenas repetição irônica: é o próprio modo de funcionamento do sistema. Cada crise reaparece porque o circuito foi desenhado para reencená-la, e não porque a sociedade tenha esquecido a lição da vez anterior.
Essa dinâmica é potencializada pela plataformização do cotidiano. Algoritmos otimizados pela economia da atenção priorizam conteúdos que despertam indignação e medo, emoções com maior poder de engajamento do que a ponderação ou a dúvida. O resultado é um estado de crise permanente: não uma sucessão de crises distintas, mas uma única crise que nunca se resolve, apenas muda de roupagem.
Para compreender esse estado, vale recorrer ao conceito antropológico de liminaridade, desenvolvido por Arnold Van Gennep (1909) e depois elaborado por Victor Turner (1969). Nos ritos de passagem, a liminaridade designa a fase intermediária em que o sujeito já deixou uma estrutura social, mas ainda não ingressou em outra: um intervalo de suspensão de hierarquias e regras, normalmente transitório e ritualmente controlado. O problema das bolhas extremistas contemporâneas é justamente terem convertido esse estado excepcional em condição permanente. Sem ritual que a feche, a liminaridade deixa de ser passagem e se torna morada.
Nessa liminaridade permanente, grupos radicalizados operam sob lógica de guerra: negociação, diálogo e ponderação deixam de ser virtudes cívicas e passam a ser lidos como fraqueza ou traição. O sistema de peritos – a autoridade da ciência, do direito, do jornalismo – cede lugar ao que Cesarino chama de “eu-pistemologia”: a crença de que a experiência pessoal, aquilo que os próprios olhos veem, vale mais do que dado, estudo ou consenso científico. A verdade deixa de ser um problema de método e passa a ser um problema de pertencimento.
É esse pertencimento que explica por que a polarização atual parece irredutível. Não se trata apenas de divergência de opinião: a própria identidade do indivíduo passa a depender de sua participação ativa na crise fabricada pelo circuito algorítmico. Abandonar a narrativa não é apenas mudar de ideia, é perder o grupo, o vínculo, o sentido. A descrença coletiva nas instâncias públicas – política, educação, direito, saúde – não desaparece: migra para a esfera privada, onde encontra novos altares de legitimação. O próprio conceito de democracia liberal, fundado na alternância, no debate e na aceitação da derrota eleitoral, entra em xeque, porque pressupõe justamente aquilo que a liminaridade permanente corrói: um horizonte comum de regras aceitas por todos.
Diante desse quadro, talvez seja hora de resgatar uma sabedoria que a sociedade do desempenho neoliberal tratou como resíduo do passado: os rituais. Byung-Chul Han, em “O Desaparecimento dos Rituais” (2021), argumenta que a sociedade contemporânea, obcecada por produtividade e autenticidade, esvaziou as ações simbólicas que antes ordenavam o tempo coletivo e ofereciam fechamento às experiências de transição. Sem rituais, argumenta o filósofo, a comunidade se dissolve em uma sequência de indivíduos isolados, cada um preso a seu próprio desempenho, incapaz de atravessar – e de fechar – as crises que vive.
É precisamente esse fechamento que falta ao circuito digital descrito por Cesarino e Bateson. Um ritual bem-sucedido, na leitura de Van Gennep e Turner, tem começo, meio e fim: ele separa, transforma e reintegra. O algoritmo, ao contrário, não reintegra: mantém o usuário suspenso, indefinidamente, na fase liminar, porque é nela – na indignação não resolvida, no medo não elaborado – que reside o engajamento. Reconstruir rituais, portanto, não é exercício nostálgico, mas resposta estrutural: recuperar formas simbólicas capazes de oferecer aquilo que o algoritmo estruturalmente não pode dar – um fim.
Esse diagnóstico encontra eco recente na reflexão de Paulo Nassar (2026), para quem talvez estejamos vivendo o maior processo de ritualização da sociedade desde a Revolução Industrial. Segundo o autor, quanto maior a presença dos algoritmos na vida cotidiana, maior parece ser o desejo humano por espaços onde eles simplesmente não entram: retiros de silêncio com listas de espera, hotéis que anunciam a ausência de internet como diferencial, peregrinações como o Caminho de Santiago, a cerimônia do chá. Nassar propõe uma oposição estrutural que dialoga diretamente com a tese aqui defendida: enquanto o algoritmo vive da permanência e elimina intervalos, o ritual vive da interrupção e fabrica intervalos; enquanto o primeiro opera apenas com aquilo que produz presença mensurável – cliques, tempo de tela, engajamento –, o segundo mantém os ausentes presentes, sejam eles os mortos, os ancestrais ou as gerações futuras. Essa geografia crescente da desconexão sugere que a saída da liminaridade permanente já está em curso, ainda que de forma dispersa: sociedades inteiras reaprendendo, por instinto de sobrevivência simbólica, a fabricar os intervalos que o circuito algorítmico insiste em eliminar.
Se, no século 20, cabia às instituições proteger os indivíduos da natureza, talvez caiba agora aos rituais proteger os indivíduos dos próprios sistemas que eles mesmos criaram. Se a farsa se repete porque o circuito foi desenhado para repeti-la, talvez apenas o ritual – com sua capacidade de separar, transformar e, sobretudo, encerrar – seja capaz de nos tirar da liminaridade permanente em que vivemos. Não para restaurar ingenuamente as estruturas do passado, mas para reaprender, coletivamente, a arte de fechar aquilo que o algoritmo insiste em manter eternamente aberto.
Referências
BATESON, Gregory. Steps to an Ecology of Mind. Chicago: University of Chicago Press, 1972.
CESARINO, Letícia. O Mundo do Avesso: verdade e política na era digital. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
HAN, Byung-Chul. O Desaparecimento dos Rituais: uma topologia do presente. Petrópolis: Vozes, 2021.
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011 [1852].
NASSAR, Paulo. Os últimos territórios livres dos algoritmos (Por que os rituais voltaram a importar). Jornal da USP, 8 jul. 2026.
TURNER, Victor. O Processo Ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Vozes, 1974 [1969].
VAN GENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Petrópolis: Vozes, 2011 [1909].
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