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24 de junho de 2026

A IA influencia stakeholders, mas não é um deles

Luis Alcubierre
 
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Na semana passada, participei de uma mesa de debates. Entre os diversos temas relacionados à reputação, comunicação e tecnologia, uma pergunta chamou minha atenção: a Inteligência Artificial é um stakeholder?

A pergunta é boa. Talvez justamente porque sua resposta pareça óbvia para alguns e revolucionária para outros.

Minha visão é clara: não, a Inteligência Artificial não é um stakeholder.

E talvez seja importante dizer isso neste momento em que existe uma tendência crescente de atribuir à IA papéis que ela efetivamente não possui.

O conceito de stakeholder não nasceu por acaso. Ele foi construído para identificar indivíduos, grupos ou instituições que possuem interesses legítimos em relação a uma organização e que, ao mesmo tempo, podem influenciá-la ou ser influenciados por ela. Clientes são stakeholders. Funcionários são stakeholders. Acionistas, governos, comunidades, fornecedores, imprensa e investidores também são.

Todos compartilham uma característica fundamental: possuem interesses próprios. A Inteligência Artificial não possui interesses. Não tem expectativas.

Não tem direitos. Não tem reivindicações. Não vota. Não protesta. Não processa. Não boicota. Não apoia. Não critica. Não negocia.

Uma IA pode gerar uma resposta. Pode recomendar um conteúdo. Pode resumir um relatório. Pode até tomar decisões dentro dos parâmetros para os quais foi programada. Mas não possui vontade própria nem legitimidade institucional para ocupar o espaço conceitual de um stakeholder.

Quando chamamos tudo de stakeholder, acabamos esvaziando o significado da própria palavra. Isso não significa, entretanto, que a IA seja irrelevante para as organizações. Pelo contrário.

Talvez o erro esteja justamente em tentar encaixar um fenômeno novo em uma categoria antiga. A Inteligência Artificial tornou-se um dos mais poderosos intermediários entre organizações e seus stakeholders.

Essa distinção parece sutil, mas muda completamente a análise. Durante décadas, as empresas se preocuparam com os canais que conectavam suas mensagens aos públicos de interesse. Primeiro vieram os jornais. Depois a televisão. Mais tarde os mecanismos de busca. Em seguida as redes sociais.

Agora surge uma nova camada. A IA não é o público. A IA não é a audiência. Portanto, a IA não é stakeholder. A IA é, cada vez mais, quem media a relação entre a organização e seus stakeholders. Isso, sim.

Quando alguém pergunta a um sistema de inteligência artificial sobre uma empresa, uma marca, um produto ou um executivo, a resposta apresentada passa a influenciar percepções. Quando ela resume notícias, interpreta relatórios, organiza informações ou sugere fontes, ela interfere na forma como a realidade será compreendida.

Mas isso não a transforma em stakeholder. Da mesma forma que um jornal nunca foi stakeholder apenas por publicar notícias, uma ferramenta de IA não se torna stakeholder por organizar informações.

O que ela se torna é algo diferente. Um intermediário algorítmico. Um agente tecnológico. Uma infraestrutura de influência. Escolha o termo que parecer mais adequado.

Mas não stakeholder.

A insistência em transformar a IA em stakeholder pode revelar uma dificuldade maior do nosso tempo: a necessidade de encontrar rapidamente conceitos para explicar transformações que ainda estamos aprendendo a compreender.

É compreensível. Toda grande mudança tecnológica produz uma corrida por novas definições. O problema surge quando a busca por modernidade sacrifica a precisão conceitual.

E a precisão importa. Especialmente para quem trabalha com comunicação, reputação, relações institucionais e governamentais. Se uma empresa acredita que a IA é um stakeholder, pode acabar direcionando esforços para uma relação que, na prática, não existe.

Mas se compreender que a IA é um novo intermediário, a discussão muda de nível. Passamos a falar sobre qualidade da informação. Sobre presença digital. Sobre arquitetura de dados. Sobre reputação verificável. Sobre governança. Sobre rastros públicos. Sobre credibilidade.

Porque as IAs não criam reputações do nada. Elas absorvem, organizam e reproduzem aquilo que encontram. A verdadeira relação continua sendo entre a organização e seus públicos de interesse. O que mudou foi a existência de uma nova camada entre eles.

Talvez este seja um dos grandes desafios da comunicação contemporânea.

Não estamos diante de novos stakeholders. Estamos diante de novos mediadores. E entender essa diferença não é apenas uma questão semântica.

É uma questão estratégica. Quem confunde uma ponte com quem está do outro lado dela corre o risco de investir energia no lugar errado.

Por essas razões não me parece que inteligência artificial cumpra os requisitos básicos necessários para ser vista como um stakeholder.

Ignorar seu papel como intermediária, no entanto, pode ser um dos maiores erros de gestão de reputação desta década.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Luis Alcubierre

Luis Alcubierre é executivo de Comunicação Corporativa, Relações Institucionais e Governamentais há mais de 25 anos e hoje atua como conselheiro para a América Latina da Atrevia, agência espanhola de PR e Corporate Affairs, além de liderar o escritório Advisor Comm. É também palestrante, mediador e mentor. Formado em Comunicação Social pela FIAM, possui pós-graduação em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e MBA pela FIA-USP, com diversos cursos de gestão de liderança e negociação realizados em instituições como IESE, Berlin School of Creative Leadership, Columbia Business School, Universidad Adolfo Ibañez, Escuela Europea de Coaching, Fundação Dom Cabral, IBMEC e FGV. Foi diretor de Comunicação e Assuntos Corporativos de empresas como Kellogg, Pernambucanas e Samsung, onde teve responsabilidades adicionais pela Comunicação na América Latina. No Grupo Telefônica, assumiu a Direção Global de Marca e Comunicação da Atento em Madrid, na Espanha, sendo responsável pela gestão da área em 17 países. Passou ainda por Dow Química, TNT (adquirida posteriormente pela Fedex) e Rede (antiga Redecard), tendo iniciado sua carreira no rádio, nos sistemas Jornal do Brasil e Grupo Estado. Também foi membro do Conselho de associações ligadas às indústrias de alimentos, varejo, vestuário e mercado financeiro, onde teve importante papel negociador em distintas esferas de governo.

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