Uma pitada de boa comunicação contra o etarismo

Eu o conheci há alguns anos no mercado, ou no mundo corporativo, como costumamos dizer. Nos encontramos algumas vezes, e sempre mantivemos relações cordiais. Inclusive, temos idades semelhantes. Porém, por motivos de agendas, direções de trabalho e desencontros profissionais, nunca fomos próximos. Nada específico.
Certo dia, ele me viu caminhando na calçada, me chamou e me cumprimentou efusivamente. Eu o achei um pouco angustiado. Ele me perguntou se eu aceitaria tomar um café. Como eu tinha um tempo livre antes de uma reunião, aceitei o convite e fomos ali pertinho, em um pequeno café.
Ele foi direto. Perguntou como poderia se inserir novamente no mercado de trabalho, como lidar com o etarismo, como se reposicionar no mundo atual… E começou a desfiar um rosário de reclamações sobre a vida, o mundo, os preconceitos, as empresas, a postura dos jovens e por aí vai. Olhei para meus botões e pensei: “Cara, a conversa aqui será longa!” Pedi licença por um instante, liguei para a pessoa com a qual eu teria reunião, e consegui reagendar o compromisso.
Retomamos o papo e eu disse que a primeira coisa urgente e necessária a fazer, para ele, seria entender melhor o mundo de hoje. E contei uma história que vivi com um chefe que tive e que se tornou depois um grande amigo.
Saímos, eu e meu chefe, de uma reunião no finzinho da tarde e ele me perguntou se eu topava ver uma exposição do Basquiat (1960-1988), que estava em um museu da cidade. Topei. Entramos na exposição e aí nos separamos, como muitas vezes acontece em visitas a exposições. Quando eu já estava diante do décimo painel, meu chefe se acercou e perguntou se eu estava gostando. Confesso que eu não estava curtindo muito, então respondi: “mais ou menos”. E ele não me poupou: “Você não conhece o artista, não é? Não leu o painel na entrada da exposição, não sabe do que se trata. Você não é obrigado a gostar, mas precisa entender o que está vendo (o movimento; a contracultura etc.). Sugiro que você volte ao começo e leia o painel introdutório”. Meio sem graça, foi o que fiz e realmente mudou minha visão sobre o artista, sua arte e a exposição. Não me tornei um fã, mas compreendi melhor o que estava vendo e achei realmente muito bom.
Voltando ao papo na cafeteria. Repeti essa história naquele momento para que o meu interlocutor pudesse refletir e percebesse que talvez estivesse deslocado do mundo, sem compreender o que realmente estava vendo e acontecendo ao nosso redor. “Ele não estava lendo o painel”, pensei, me lembrando novamente da história da visita à exposição.
Emendei outro exemplo a respeito de um evento em que eu participei no final do ano passado, com entrega de prêmios e para o qual eu podia convidar uma pessoa para ir comigo. Chamei um amigo de longa data, com quem já tinha feito trabalhos juntos, mas já estava um pouco distante do mercado. Por variados motivos, achei que o convite seria bom. Ele foi, chegou emburrado e a primeira coisa que disse foi: “só você para me tirar de casa para vir tão longe!” E deitou reclamação! No final do evento, depois de conversar com muitas pessoas e fazer contatos, veio sorridente e me agradeceu, enfatizando que valeu muito a pena. Claro, relembrou como funciona o mundo profissional, no qual só existe quem mostra a cara. “Quem não é visto, não é lembrado!”
O meu interlocutor me ouvia atentamente, e concordava com a cabeça. E para encerrar a conversa, comentei que participo de diversos grupos temáticos, desde os de ex-alunos da faculdade, da turma do 2º grau etc., e que fico impressionado como muitas dessas pessoas, que eram consideradas superavançadas na juventude, tornaram-se hoje em dia, em sua grande maioria, caretas, rabugentas, reacionárias… São incapazes de lidar com as mudanças do mundo, não se atualizaram nem se adaptaram (pelo visto não querem ou não percebem valor nesse movimento). Condenam frequentemente os jovens, sem às vezes perceber que nunca fomos santos e que o mundo mudou, o contexto mudou, as condições mudaram e a geração é outra. Somos uma geração que se alegrou com “boquinha na garrafa”, com a malícia de canções, com a “banheira do Gugu”, com a “Feiticeira” ou a “Tiazinha” em programas de TV, entre outras lembranças. Definitivamente, não podemos ter a soberba de julgar determinados comportamentos atuais. O mundo atual é outro. Não tem coisa mais sem noção, mais anacrônica, do que a surrada frase “no meu tempo não era assim, era assado…”
Já no final de nossa conversa, disse a ele: “meu caro, eu sei que não é uma tarefa fácil, e por vezes também me pego desanimado, mas creio que o segredo é olhar o mundo não com olhos saudosistas e professorais, mas sim procurar compreender com profundidade o que acontece, aceitar, ser um cidadão do seu tempo e não ser chato, resistente e cheio de verdades. É aproximar-se dos jovens com naturalidade, sem alimentar ou reforçar estereótipos. Enfim, pratique a interação, a boa comunicação, a abertura ao diálogo e a construção de narrativas integradoras. Isso é o mínimo para fazermos, porque a jornada contra o etarismo é permanente.
Lembre-se de que o mundo mudou mesmo. Adapte-se para seguir em frente ou caia fora!
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