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08 de maio de 2026

A dignidade do cotidiano

Paulo Nassar
Foto: Paulo Nassar
 
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Artigo publicado originalmente no Jornal da USP

Vivemos sob o império de uma estranha pedagogia da postergação. Aprendemos, desde cedo, a deslocar o sentido da vida para adiante: para a próxima conquista, o próximo cargo, a próxima viagem, o próximo reconhecimento, a próxima etapa. Como se o valor da existência estivesse sempre alojado em um futuro idealizado, e jamais plenamente disponível no presente vivido. Esse movimento produziu uma das marcas silenciosas de nosso tempo: a banalização do cotidiano.

O cotidiano passou a ser percebido como o reino do repetitivo, do menor, do sem importância. O espaço das rotinas, dos pequenos gestos, dos vínculos ordinários e dos rituais quase invisíveis foi sendo simbolicamente empobrecido. Como se a vida “verdadeira” estivesse em outro lugar, no extraordinário, no evento, no ápice. Mas talvez essa seja uma das grandes ilusões da modernidade.

Foi o psiquiatra e filósofo Viktor Frankl (1905–1997) quem falou, com rara precisão, em uma “metafísica do cotidiano”, sugerindo que o aparentemente banal não é desprovido de profundidade. Ao contrário: é no cotidiano que se dá, permanentemente, o encontro entre o finito e o infinito. A formulação é poderosa. Essa ideia adquire espessura singular quando lembramos que Frankl a formulou como sobrevivente do Holocausto, após ter sido deportado para campos de concentração ligados a Auschwitz e Dachau, tendo perdido seus pais, seu irmão e sua esposa. Quando fala da dignidade do cotidiano, Frankl não fala desde a abstração, mas desde a experiência extrema da destruição e da sobrevivência.

Ela nos convida a reconhecer que o infinito não é apenas um tema da transcendência abstrata, nem uma promessa deslocada para além do mundo vivido. Ele se inscreve, discretamente, na temporalidade concreta das práticas ordinárias: no cuidado, na responsabilidade, na palavra empenhada, na memória partilhada, no trabalho silencioso, na atenção dedicada ao outro. O extraordinário, sob essa perspectiva, não se opõe ao ordinário. Ele pode estar escondido nele.

Mas talvez seja preciso acrescentar, especialmente em tempos como os nossos, que a presentificação do cotidiano, isto é, a capacidade de estar plenamente presente na espessura do vivido, é também um ensinamento. E talvez um dos mais importantes que um professor possa transmitir aos seus alunos.

Num mundo marcado pela velocidade, pela ansiedade dos resultados de curto prazo, pela tirania do desempenho e pelos regimes de dispersão produzidos pelas redes sociais, muitos estudantes chegam às salas de aula capturados por temporalidades fragmentadas. Vivem pressionados pelo que vem depois, pelo próximo passo, pela próxima entrega, pelo próximo sinal de reconhecimento. Perdem, muitas vezes, a experiência do agora. Ensinar, nesse contexto, não é apenas transmitir conteúdos. É também reeducar a atenção. É ensinar que pensar exige duração. Que a experiência exige presença. Que a formação não se faz apenas por metas, mas por maturação.

E que o sentido não se revela apenas em grandes feitos, mas na dignificação das práticas ordinárias, inclusive as do estudo, da escuta, da leitura, da conversa, da pesquisa, do silêncio. Talvez poucos ensinamentos sejam hoje tão urgentes quanto este: devolver aos alunos a consciência de que a vida não acontece apenas nos grandes acontecimentos, nem apenas no futuro projetado, nem na vertigem dos fluxos digitais, mas também, e decisivamente, no cotidiano vivido com atenção e com paciência.

Aqui, porém, a intuição filosófica encontra respaldo empírico. Um estudo experimental, intitulado Short-Form Videos Degrade Our Capacity to Retain Intentions, apresentado na conferência ACM CHI 2023 (Conference on Human Factors in Computing Systems), em Hamburgo, por pesquisadores vinculados à Ludwig-Maximilians-Universität München, mostrou que o consumo de vídeos curtos degradou significativamente a memória prospectiva dos participantes, isto é, a capacidade de sustentar intenções no tempo.

Uma meta-análise conduzida por Lan Nguyen e colaboradores, da Griffith University, publicada em 2025 no periódico Psychological Bulletin, baseada em 71 levantamentos e mais de 98 mil participantes, apontou associação consistente entre consumo intenso de plataformas de vídeos curtos e enfraquecimento da atenção sustentada. Essas pesquisas não descrevem apenas distração; sugerem uma crise da duração, precisamente um dos elementos sem os quais não há experiência profunda, nem pensamento elaborado, nem relação consistente com o presente. Esses dados recolocam, de modo agudo, uma questão pedagógica: se as plataformas educam para a fragmentação, a universidade e, mais amplamente, outras organizações formadoras e mediadoras da vida social não deveriam educar para a duração?

Há aí, inclusive, uma dimensão ética da docência. Transmitir a importância do cotidiano é ensinar resistência diante de um tempo que banaliza a presença. É ensinar a reconhecer espessura onde o mundo vê apenas rotina. É ensinar a perceber que o finito (uma aula, uma conversa, um gesto, um dia comum) pode conter experiências do infinito. Henri Lefebvre nos lembraria que é na vida cotidiana que se reproduzem, mas também podem se transformar, as estruturas do mundo social. Há, portanto, uma dimensão civilizatória em recolocar o cotidiano no centro.

Talvez o sentido da vida não esteja em escapar do ordinário, mas em dignificá-lo. Dignificar o cotidiano é reconhecer espessura no aparentemente simples. É compreender que responder a uma mensagem com cuidado, preparar uma refeição, escutar alguém, atravessar honestamente um dia de trabalho, ensinar uma aula, cultivar uma memória, cuidar de um idoso, cuidar de uma criança, cultivar um jardim, proteger um animal, manter um compromisso, arrumar a casa, nada disso é menor. Tudo isso pode ser expressão de sentido.

Num tempo marcado por aceleração e por narrativas que sequestram o presente em nome de futuros sempre adiados, recuperar a dignidade do cotidiano é também um gesto de resistência. Porque talvez a vida não esteja esperando para começar. Ela está acontecendo agora. E talvez o lugar mais profundo em que o finito encontra o infinito não esteja nos grandes acontecimentos, mas precisamente nesse território tantas vezes negligenciado, o cotidiano.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Paulo Nassar

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje); professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP); doutor e mestre pela ECA-USP. É coordenador do Grupo de Estudos de Novas Narrativas (GENN), da ECA-USP e pesquisados no campo da interface entre Comunicação e Antropologia. Docente de mestrado e doutorado (PPGCOM ECA-USP) desde 2006, onde ministra, juntamento com o Prof. Dr. Luiz Alberto de Farias, a disciplina stricto sensu “Memórias Rituais, Narrativas da Experiência”. Pesquisador da British Academy (University of Liverpool) – 2016-2017. Entre outras premiações, recebeu o Atlas Award, concedido pela Public Relations Society of America (PRSA, Estados Unidos), por contribuições às práticas de relações públicas, e o prêmio Comunicador do Ano (Trajetória de Vida), concedido pela FundaCom (Espanha). É coautor dos livros: Communicating Causes: Strategic Public Relations for the Non-profit Sector (Routledge, Reino Unido, 2018); The Handbook of Financial Communication and Investor Relation (Wiley-Blackwell, Nova Jersey, 2018); O que É Comunicação Empresarial (Brasiliense, 1995); e Narrativas Mediáticas e Comunicação – Construção da Memória como Processo de Identidade Organizacional (Coimbra University Press, Portugal, 2018).

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