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29 de junho de 2026

Onde as empresas ainda estão tropeçando em riscos e saúde mental

Ciça Vallerio
 
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O mapeamento e o controle dos riscos psicossociais nas empresas ainda precisam ganhar força. Embora a nova Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) tenha sido aprovada pelo Ministério do Trabalho e Emprego em agosto de 2024 e entrado em vigor em maio deste ano, há organizações que nem sequer começaram a implementar ações concretas, mesmo sujeitas a penalizações.

A NR-1 estabelece as diretrizes gerais de Segurança e Saúde no Trabalho e orienta o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Com a atualização, as empresas passaram a ter de identificar, avaliar e gerenciar também os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. Entram nessa discussão situações como assédio moral e sexual, sobrecarga, jornadas excessivas, pressão por metas abusivas, falta de apoio da liderança, ausência de clareza sobre papéis e conflitos nas relações de trabalho.

Thaísa Leal Cintra escreveu uma tese de doutorado, defendida na USP em 2023, que analisou os riscos psicossociais no ambiente laboral

Diante desse cenário, a pesquisadora Thaísa Leal Cintra, que atua na capacitação de equipes, estruturação de processos e gestão dos riscos psicossociais, tem se deparado com empresas que ainda tratam a NR-1 apenas como obrigação documental. Para a também advogada especializada em Direito do Trabalho, Gestão em Saúde e Psicologia Organizacional, essa é uma leitura equivocada.

Ela tem conhecimento para afirmar isso: sua tese de doutorado, defendida na USP em 2023, analisou os riscos psicossociais no ambiente laboral. Seu estudo embasou o Projeto de Lei 3.588/2020, que propõe medidas de prevenção, intervenção e gestão desses fatores nas relações de trabalho.

Além disso, Thaísa fundou a MindScore, plataforma voltada à gestão automatizada desses riscos, a partir de metodologias usadas internacionalmente. Atualmente, desenvolve pesquisa de pós-doutorado sobre intervenções orientadas por evidências científicas no gerenciamento de riscos psicossociais.

Nesta entrevista, ela avalia os primeiros movimentos após a entrada em vigor da NR-1, aponta tropeços na implantação e explica por que a Comunicação Interna precisa fazer parte do processo.

A NR-1 já saiu do papel nas empresas após esse período de implantação?

Thaísa: Há empresas que já entenderam a importância do tema e começaram os primeiros passos: identificação dos riscos psicossociais, classificação do nível de risco, implementação de ações e monitoramento.

Também há aquelas ainda em fase de adaptação, mesmo depois do prazo de orientação e educação. Muitas estão imaturas no início do processo e também na capacitação dos profissionais que vão atuar na linha de frente, como RH, saúde e segurança do trabalho, compliance, jurídico e liderança.

E existe um grupo que ainda está inerte, apático, pagando para ver. São empresas que ainda não acreditaram que a NR-1 chegou para ficar. Mas a gestão dos riscos psicossociais é um caminho sem volta.

Isso não se resume à saúde mental. Estamos falando de ciência aplicada à sustentabilidade dos negócios, de indicadores de turnover, afastamentos, gestão estratégica de pessoas e desempenho organizacional. Muitos países já aplicam essa abordagem há anos, com validação de organismos internacionais como a OIT e a OMS.

Na prática, minha experiência junto às empresas tem sido positiva em alguns aspectos, mas ainda vejo muita resistência. O maior obstáculo é o desconhecimento. Muitos profissionais ainda enxergam a NR-1 como mais um custo, mais um encargo. Falta compreender que esse processo também é uma oportunidade de avançar na gestão estratégica de pessoas.

No fim do dia, risco psicossocial tem a ver com relações humanas e sociais no trabalho. A empresa precisa olhar para isso como parte da sua sustentabilidade. E o trabalhador também precisa ser envolvido como corresponsável nesse processo.

Por isso, tenho atuado muito em educação, sensibilização e capacitação dos profissionais que estarão na linha de frente. Tudo começa pelo conhecimento. Sem isso, a empresa não consegue sair da reação e chegar a um nível maior de maturidade.

Onde as organizações mais estão tropeçando?

Thaísa: O principal tropeço ainda é o desconhecimento. Há confusão sobre conceitos, metodologia e implementação.

Também persiste a ideia de que uma única área pode conduzir tudo. A NR-1 exige uma abordagem multiprofissional, com envolvimento de RH, Saúde e Segurança do Trabalho, compliance, jurídico, liderança e trabalhadores.

A liderança é central porque define prioridades, sustenta a cultura e dá legitimidade ao processo. Mas as decisões também precisam partir de dados: identificar riscos, avaliar sua gravidade e definir ações adequadas a cada contexto.

Antes da aplicação do questionário, é importante sensibilizar os trabalhadores. Enviar um e-mail frio com um link é diferente de explicar por que a empresa vai iniciar a gestão dos riscos psicossociais, que tipo de perguntas serão feitas e qual é o objetivo do processo.

Essa comunicação prévia muda o resultado. Quando o trabalhador entende o processo, participa melhor e confia mais.

Depois, um comitê analisa os resultados e define prioridades. As medidas precisam ser baseadas em evidências e indicadores, permitindo avaliar resultados como redução de turnover, queda em atestados médicos e melhora no engajamento.

O que diferencia prevenção real de maquiagem corporativa?

Thaísa: O problema é quando a empresa trata a NR-1 como mais um custo e busca apenas uma resposta rápida para ter um documento guardado.

A prevenção real exige método, diagnóstico consistente, instrumentos adequados, envolvimento da liderança, participação dos trabalhadores, plano de ação e monitoramento. Sem isso, a empresa pode ficar exposta a riscos administrativos e judiciais.

Em uma fiscalização, o auditor pode questionar a metodologia usada, os riscos identificados, as ações implementadas e os resultados monitorados. Também pode solicitar documentos e comparar as informações com dados disponíveis em órgãos públicos.

Por isso, simular uma gestão de riscos pode ser pior do que admitir que o processo ainda está em construção.

As empresas que levam o tema a sério entendem que as relações de trabalho mudaram. A gestão de riscos psicossociais passa por cultura, liderança, tecnologia, formas de trabalho e desenvolvimento de pessoas. Quem estruturar esse processo de forma consistente tende a colher resultados no médio prazo.

Que papel a Comunicação Interna deve assumir na implantação?

Thaísa: A Comunicação Interna tem papel essencial porque toda mudança gera insegurança, estranhamento e resistência. A forma como a empresa comunica a NR-1 pode facilitar ou dificultar a implantação.

A primeira missão é traduzir a norma para uma linguagem acessível. Muitos trabalhadores e lideranças ainda não entenderam que o tema não se limita à saúde mental ou a transtornos mentais. Estamos falando de fatores organizacionais que impactam a sustentabilidade das empresas.

A Comunicação Interna pode ajudar a dar nome a riscos muitas vezes pouco visíveis, como relações deterioradas, assédio, sobrecarga, jornadas exaustivas, conflitos e falhas de liderança. Também pode apoiar canais de escuta, participação e diálogo entre áreas, trabalhadores e comitês multiprofissionais.

Não basta fazer diagnóstico. A empresa precisa explicar o processo, dar retorno sobre os próximos passos e mostrar que as respostas dos trabalhadores têm consequência prática.

Quando não há comunicação, cresce a desconfiança. Quando ela é clara, transparente e estruturada, aumenta a adesão. 

Qual é o próximo passo para quem ainda está perdido?

Thaísa: O primeiro passo é estudar. Não dá para implementar aquilo que não se conhece, especialmente em um tema ainda cercado por dúvidas e ofertas sem base técnica suficiente. Por isso, é importante buscar capacitação e avaliar quem está falando sobre o assunto, qual experiência tem e se há sustentação no que oferece.

Depois, é preciso começar na prática. A empresa deve avaliar se o time interno tem condições de conduzir o processo ou se precisa de apoio especializado. A implantação começa pelo diagnóstico, com instrumentos validados cientificamente, identificação dos riscos, definição de prioridades, plano de ação e monitoramento.

Na MindScore, plataforma que criei para apoiar empresas e consultorias na gestão automatizada de riscos psicossociais, disponibilizamos um teste gratuito para empresas com até 10 funcionários.

Independentemente da ferramenta escolhida, o processo precisa ser acompanhado em ciclos, conforme os riscos identificados. No início, muitas empresas talvez precisem adotar mais ações corretivas do que preventivas. Mas, se o trabalho for feito corretamente, os resultados aparecem no médio prazo.

O Brasil está começando agora uma abordagem que outros países já adotam há mais de 20 anos. Por isso, o mais importante é dar o primeiro passo com seriedade. Não se trata de cumprir tabela, mas de construir uma forma mais madura de gerir relações, riscos e saúde no trabalho.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Ciça Vallerio

Cofundadora da Stella Comunicação, com atuação próxima ao desenvolvimento de soluções em Comunicação Corporativa para clientes da agência. Foi repórter do Estadão por mais de 15 anos e colaborou com revistas das editoras Globo e Abril. Formada em Jornalismo (PUC-SP), com pós-graduação em Globalização e Cultura (FESPSP) e em Marketing (FGV), além de extensão em Comunicação Corporativa (FGV). Participa de comitês e grupos de estudo da Aberje e da ABRH-SP.

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