O que o organograma não mostra sobre o poder da comunicação

Reporte ao CEO e ter uma sala ao lado da presidência: talvez você já tenha acreditado que isso era a prova de que a comunicação, finalmente, tivesse chegado à mesa das decisões. Mas, depois de mais de duas décadas de mercado percebo que essa é uma das boas ilusões que a nossa área ainda carrega.
A Pesquisa de Tendências da Comunicação Organizacional 2026 da Aberje escancara esse paradoxo. Hoje, 51% das áreas de comunicação já se reportam diretamente ao CEO. Parece vitória, mas apenas 38% dos líderes de comunicação têm, de fato, assento no board.
No fim, estar perto de quem decide e decidir são coisas bem diferentes. O que continuamos vendo é que crachá com cargo de peso, sala ao lado do poder e reporte direto ao topo não mudaram necessariamente o papel que a comunicação recebe de só ser chamada para executar o que já foi decidido.
A mesma pesquisa mostra que 19% das empresas tratam a comunicação sob demanda, no improviso, sem construção de longo prazo. Como pensar estratégia quando a área atua para apagar incêndio ou empacotar decisão tomada?
Eu acredito que leitura de contexto, gestão de reputação e antecipação de risco muitas vezes já estão sendo entregues, mas ainda não são reconhecidos e nem remunerados como tal. No final, são esses os ativos percebidos que sustentam valor de mercado e reputação de longo prazo.
Mas sou otimista e vejo sinais de que o mercado está acordando para essa conta. A gestão de reputação lidera as apostas de crescimento de investimento entre as áreas de comunicação, com 31% de previsão de alta, segundo a mesma pesquisa. E 62% dos profissionais acreditam que o papel estratégico da área vai se ampliar nos próximos anos. O apetite existe, mas ainda falta coragem.
Sim, coragem para trocar o papel de quem viabiliza pelo de quem constrói e entra na conversa antes da decisão estar tomada. Coragem para dizer o que o negócio precisa ouvir, mesmo quando não for confortável comunicar. Para executar o que já foi decidido, um algoritmo faz mais rápido…e mais barato.
Afinal, para que serve ocupar a sala ao lado se não é para influenciar o que sai dela?
A comunicação brasileira já tem pessoas competentes, dados e tecnologia de sobra. Falta entender que seu lugar não é uma caixa no topo do organograma, mas estar e influenciar onde a estratégia nasce.
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