Desinteligência Natural vs. Inteligência Artificial: entre o dado e o delírio

Na fila do SUS, uma mulher aguarda atendimento. Até aí, nada fora do comum.
O detalhe? Ela está com um bebê reborn no colo. Fralda, chupeta, nome registrado, tudo. E a intenção era exatamente essa: levá-lo ao pediatra.
Há alguns anos, uma cena dessas causaria espanto imediato. Hoje, ela disputa nossa atenção com teorias conspiratórias, influenciadores que viram especialistas em qualquer assunto da noite para o dia e vídeos que viralizam justamente porque desafiam qualquer lógica.
Em 2026, você lê uma notícia dessas e pensa:
“Bom… mais uma.”
E segue o scroll.
Mas por trás da situação curiosa existe algo que me chama atenção.
Não estou falando de inteligência artificial.
Estou falando do comportamento humano.
Ou, como gosto de chamar, da desinteligência natural.
Calma.
Não é burrice. Não é ignorância. Também não é falta de acesso à informação.
É outra coisa.
É a extraordinária capacidade humana de agir contra todas as evidências disponíveis e, ainda assim, encontrar motivos perfeitamente plausíveis para justificar a decisão.
Em outras palavras: é quando a emoção vence a lógica sem sequer precisar disputar a partida.
E talvez seja justamente isso que nos torne tão fascinantes.
Porque, enquanto a inteligência artificial foi criada para encontrar padrões, a desinteligência natural é a nossa habilidade de quebrá-los sem qualquer aviso prévio.
A IA procura coerência.
Nós procuramos significado.
E significado nem sempre é racional.
A inteligência artificial cruza dados, identifica tendências, reconhece comportamentos e prevê probabilidades em uma velocidade impressionante. Faz em segundos, análises que antes levariam dias ou semanas.
Mas continua tendo dificuldade para compreender aquilo que nem nós mesmos conseguimos explicar.
Por que compramos algo que não precisamos?
Por que acreditamos em determinadas narrativas e ignoramos outras?
Por que algumas informações se espalham com tanta velocidade enquanto fatos relevantes passam despercebidos?
O dado consegue mapear o comportamento.
Mas nem sempre consegue explicar a motivação.
E é exatamente nesse espaço que vivem a comunicação e o marketing.
Passamos horas olhando dashboards, métricas, tendências e jornadas de consumo. Às vezes temos a sensação de que conseguimos explicar tudo.
Até que alguém faz exatamente o contrário do que os dados indicavam.
Tudo parece racional.
Tudo parece previsível.
Tudo parece mensurável.
Até que não é.
Porque, enquanto a inteligência artificial está tentando prever o próximo clique, a emoção continua clicando por impulso.
A verdade é que grande parte das nossas decisões não nasce da lógica.
Nasce da percepção.
E percepção nem sempre anda de mãos dadas com a realidade.
Talvez esse seja um dos maiores desafios da comunicação atualmente: entender que informar não é suficiente.
Dados importam.
Evidências importam.
Mas pessoas continuam sendo pessoas.
Elas não se conectam apenas com números. Elas se conectam com histórias, símbolos, pertencimento, emoções e experiências.
Talvez o papel da inteligência artificial seja facilitar.
Mas o nosso papel, como comunicadores, continua sendo interpretar.
Traduzir.
Conectar.
Criar significado em meio ao ruído.
E reconhecer que, no fim do dia, o comportamento humano continua sendo muito mais complexo do que qualquer planilha, dashboard ou modelo preditivo consegue capturar.
A inteligência artificial aprende com padrões.
A desinteligência natural cria exceções.
E talvez seja justamente nesse intervalo entre o dado e o delírio que a comunicação continue encontrando seu espaço mais importante.
ARTIGOS E COLUNAS
Rodrigo Amaral Desinteligência Natural vs. Inteligência Artificial: entre o dado e o delírioAna Paula Sartor Muito antes da crise: reputação, governança e liderançaRicardo Gioia O preço do silêncio na era da IA
Destaques
- Portal da Aberje amplia recursos de acessibilidade e experiência de navegação
- Masterclass marca início de nova turma do Mestrado Profissional em Comunicação Digital e Cultura de Dados
- Estudo sobre polarização analisa impactos do fenômeno para a comunicação corporativa
Notícias do Mercado
- Votorantim Cimentos marca 90 anos com campanha narrada por Seu Jorge
- Gerdau reforça vínculo com o Rio Grande do Sul durante a 49ª Expointer
- CCEE promove encontro sobre diversidade e inclusão no setor elétrico

































