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10 de agosto de 2026

Quem tem o direito de responder por você?

Rizzo Miranda
(Foto: Papaioannou Kostas/Unsplash)
 
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Quando alguém pergunta a uma máquina quem é você, quem responde?

Estudo recente de Dmitrij Żatuchin, baseado em dados da RankFor.ai, analisou 167 mil citações usadas por IA para responder sobre 128 marcas, em 13 idiomas. O resultado é desconfortável: 85,7% das fontes utilizadas eram de terceiros. Apenas 14,3% pertenciam às próprias marcas.

Ou seja: na maior parte das vezes, a matéria-prima usada para explicar quem uma organização é vem de fora dela.

E para executivos? Quanto do que existe sobre você representa de fato o seu pensamento?

O silêncio também responde

Ausência de posicionamento não produz ausência de narrativa. Produz “espaço”. Isso a gente já fala há um tempo: ele será preenchido pelo que estiver disponível como notícias, entrevistas antigas, páginas institucionais, comentários, perfis de terceiros, críticas, bases públicas, menções dispersas. A máquina não precisa da sua autorização para formar uma versão sobre você. Ela precisa de fontes.

Quantas lideranças são muito conhecidas pelo cargo e quase desconhecidas pelas ideias? E quantas têm uma biografia digital extensa, mas nenhum pensamento realmente identificável? Estou falando de autoria, o passo seguinte e mais importante que a presença.

Thought Leadership ganhou outra função

Produzir conteúdo não significa necessariamente produzir pensamento reconhecível.

Quando 98% dos CEOs da Fortune 500 já estão no LinkedIn, presença deixou de ser vantagem. A questão é se existe pensamento suficiente para ser reconhecido. Há executivos com alta frequência de publicação e baixíssima identidade intelectual. Falam sobre inovação, liderança, transformação, pessoas, tecnologia, futuro. Como milhares de outros. Estão presentes. Mas são intelectualmente indistinguíveis.

Thought Leadership ganha valor quando alguém consegue reconhecer uma ideia antes mesmo de reconhecer seu autor porque identifica uma tese ou argumentos que se sobrepõem a formatos, ambientes e circunstâncias. A criatura vem antes do criador serve como metáfora.

E é aqui que fica interessante: o pensamento deixa rastros suficientes para não depender apenas da interpretação alheia.

Você pode perder a própria narrativa sem desaparecer

Máquinas sintetizam, escolhem fontes, hierarquizam, comparam e resumem. Neste ponto eles produzem uma representação plausível a partir do que encontram.

Mas aí… a realidade é que uma representação plausível pode ser mais perigosa que uma informação claramente errada. E muitas vezes estará apenas incompleta, desatualizada ou fora do contexto. Ou poderá ter sido construída a partir de pessoas que conhecem você, mas não pensam como você: um admirador, um ex-colega, um jornalista e até sua própria empresa. Mas nenhum deles é você.

Ser fonte importa mais do que simplesmente aparecer

E essa pergunta relevante passa a ser: você é fonte do seu próprio pensamento? Existe material consistente o suficiente para que suas posições possam ser identificadas, atribuídas e compreendidas? Seu pensamento aparece apenas em um feed ou também está registrado em entrevistas, artigos, pesquisas, apresentações, debates, imprensa e outras fontes reconhecidas?

Outras pessoas qualificadas citam suas ideias? Autoria forte também é aquela que passa a existir na voz de outros. Tudo isso forma uma espécie de infraestrutura intelectual. E não, não vai oferecer controle sobre a resposta. Mas é algo mais realista: oferece evidências melhores para que ela seja construída. Durante anos treinamos executivos para lidar com editores humanos. Agora precisamos entender um editor que ninguém consegue telefonar para corrigir.

Autoridade não se terceiriza

É aqui que Thought Leadership merece sair da agenda de conteúdo e entrar na arquitetura de reputação.

Que ideias pertencem a esse executivo? Em quais temas sua voz realmente acrescenta algo? Que posições merecem registro? Que evidências sustentam essas posições? Ser fonte não é produzir muito. Está mais na linha de produzir pensamento suficientemente próprio para ser atribuível a você. Se for uma agenda editorial o foco será sobre o que publicar. Mas se pensarmos em uma estratégia de autoridade, o eixo vai mudar para qual pensamento vale deixar disponível para o mundo.

E aí aparece um risco reputacional mais sofisticado: não ser mal citado, mas ser perfeitamente sintetizado a partir das fontes erradas.

Quem responde por você?

Quando alguém quiser saber quem você é, certamente pode perguntar diretamente. Mas provavelmente também perguntará a alguma IA que terá consultado múltiplas referências antes de responder.

E, nesse momento, cargo, currículo, posts e biografia serão matéria-prima. Ótimo. Mas o que fará diferença será a qualidade do pensamento que conseguiu permanecer identificável no meio delas. Thought Leadership migra para o lugar muito mais legítimo para nossos dias: o da autoria pública.

E, para terminar, deixo a pergunta talvez mais incômoda, embora seja a mais simples e importante:

Se você não é fonte do seu próprio pensamento, quem está respondendo por você?

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Rizzo Miranda

Rizzo Miranda é sócia da bowler, híbrido de consultoria e agência de Comunicação. Jornalista com MBA em Marketing pelo COPPEAD/UFRJ, é especialista em estratégia e planejamento de comunicação, gestão de projetos de crises de reputação e marketing digital. Atual professora colaboradora de Gestão de Crise na Pós-Graduação em Estratégias de Comunicação Digital da FGVECMI, também é membro do júri do I-COM Data Creativity Awards e liderou o time que ganhou Leão em Cannes (2011) para cliente Governo do Rio, o Sabre Awards Latin America e Aberje para o IBP (2020) e Aberje para Scania 2023.

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