PATROCINADORES

Ícone do topo

login / cadastro

  • Sobre
    • Quem Somos
    • Equipe
    • Nossas Associadas
    • Nossa História
    • International Aberje Award
    • Estatuto
    • Relatórios
  • Conteúdos
    • Notícias
    • Artigos e colunas
    • Blogs
    • Editora Aberje
    • Pesquisas
    • CEAEC Centro de Estudos Aplicados
    • Revista CE
    • Revista Valor Setorial
    • Podcasts
    • Vídeos
    • Newsletter BRpr
  • Eventos
    • Conecta CI
    • Labs de Comunicação
  • Trends
    • Trends RJ
    • Trends SP
    • Trends MG
  • Escola
  • Prêmio
  • Benefícios
    • Comitês Aberje
    • Centro de Memória e Referência
    • Guia de fornecedores
  • Fale Conosco
  • Associe-se
Ícone do topo

login / cadastro

  • Sobre
    • Quem Somos
    • Nossa história
    • Estatuto
    • Relatórios
    • Equipe
    • Nossas Associadas
  • Associe-se
  • Notícias
  • Opinião
    • Artigos e colunas
    • Blogs
  • Vagas e Carreira
  • Associadas
    • Nossas Associadas
    • Comitês Aberje
    • Benchmarking
    • Centro de Memória e Referência
  • Eventos
    • Aberje Trends
  • Escola Aberje
  • Prêmios
    • Prêmio Aberje
    • Prêmio Universitário Aberje
    • International Aberje Award
  • Labs de Comunicação
  • Conteúdos
    • Editora
    • Revista CE
    • Revista Valor Setorial
    • Pesquisas
    • Materiais de consulta
    • Podcasts
    • Vídeos
  • Aliança Aberje de Combate às Fake News
  • Newsletter BRpr
  • Fale Conosco
  • Relatórios
14 de abril de 2026

“A arte de perder”, de Elisabeth Bishop, e a raridade da experiência

Paulo Nassar
 
  • COMPARTILHAR:

Artigo publicado originalmente no Jornal da USP

Poucos poemas do século XX alcançaram a densidade formal e emocional de One Art (1976), de Elizabeth Bishop – autora de uma obra marcada pela precisão, pela contenção e por uma rara capacidade de transformar o cotidiano em matéria de pensamento. Em sua escrita, nada é excessivo, mas tudo é decisivo. Cada palavra parece ter sido testada contra o silêncio.

Traduzido com notável rigor por Paulo Henriques Britto, o poema A arte de perder condensa, em sua forma quase didática, uma das experiências mais universais e, ao mesmo tempo, mais difíceis de elaborar: a perda. Não como um evento isolado, mas como prática, como aprendizagem, como exercício, quase como um rito íntimo de passagem. É nesse espírito que o lemos:

 

A arte de perder

 

A arte de perder não é nenhum mistério;

Tantas coisas contêm em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério.

 

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,

A chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Depois perca mais rápido, com mais critério:

Lugares, nomes, a escala subsequente

Da viagem não feita. Nada disso é sério.

 

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Perdi duas cidades lindas. E um império

Que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

 

Se o poema de Bishop nos convida a um exercício, quase disciplinar, de convivência com a perda, é porque, sob sua superfície de aparente leveza, ele organiza uma experiência densa, feita de repetição, de contenção e de resistência ao irreparável. Não se trata apenas de aceitar o que se perde, mas de aprender a permanecer com a perda, a dar-lhe forma, ritmo e linguagem.

É precisamente nesse ponto que o gesto poético de Bishop ultrapassa a esfera literária e se abre para uma reflexão mais ampla: o que, afinal, transforma um acontecimento em experiência? O que faz com que algo que nos sucede deixe de ser apenas um episódio e passe a nos constituir? É a partir dessas questões que as reflexões a seguir se desenvolvem.

Há uma pedagogia silenciosa na perda. Uma pedagogia que não se organiza como método, nem se deixa capturar por protocolos. Ela se insinua naquilo que nos escapa, no que falha, no que não se fixa e, sobretudo, no que nos atravessa sem aviso. É precisamente nesse território que o poema de Bishop encontra uma ressonância profunda com a reflexão contemporânea sobre a experiência, tal como formulada por autores do campo da fenomenologia, especialmente Merleau-Ponty, e por Jorge Larrosa Bondía, um pensador da filosofia da educação.

“A arte de perder não é nenhum mistério”, escreve Bishop, em um movimento reiterativo que, mais do que convencer, parece treinar o sujeito para uma aceitação progressiva da perda. O poema estrutura-se como um exercício, quase um ritual de desapego, que vai do banal ao irreparável: perder chaves, horas, lugares, casas, cidades, até alcançar a perda de um império, de um continente, e, implicitamente, de si mesmo. Mas há aqui um ponto decisivo: o poema não trata apenas da perda como evento. Ele trata da perda como experiência.

E é exatamente nessa distinção que se insere a contribuição de Bondía: a experiência não é o que acontece, mas o que nos acontece. O mundo contemporâneo é pródigo em acontecimentos, fluxos contínuos de informações, estímulos, deslocamentos, notificações. No entanto, como o próprio Bondía sugere, a experiência tornou-se rara. Porque ela exige condições que o nosso tempo sistematicamente inviabiliza: tempo, atenção, silêncio e disponibilidade para ser afetado.

O poema de Bishop pode ser lido, então, como uma tentativa de produzir experiência em meio à perda ou, mais radicalmente, de transformar a perda em experiência.

Há algo de profundamente contemporâneo (e, ao mesmo tempo, trágico) no modo como a poeta insiste que “não é nada sério”. Essa insistência, repetida quase como um mantra, revela uma tensão: quanto mais se afirma a banalidade da perda, mais se evidencia sua gravidade. O poema encena, assim, um sujeito que tenta domesticar o impacto do que se perde, organizando a dor em linguagem, ritmo e repetição. Mas essa organização não elimina a experiência, ao contrário, ela a produz.

A experiência, nesse sentido, não é anterior à narrativa, mas tampouco se confunde com ela. Como já se indicou: antes de narrar, o ser humano vive. Contudo, viver não basta. A experiência emerge quando o vivido nos afeta, quando nos transforma, quando deixa marcas. E é a narrativa, como forma simbólica, que permite dar contorno a essas marcas, ainda que nunca as esgote.

Bishop não apenas narra perdas. Ela as faz operar como experiência sensível. O poema cria um espaço de desaceleração dentro da linguagem. Cada repetição é uma pausa, cada enumeração é um gesto de atenção, cada perda é reencenada como possibilidade de inscrição. Nesse sentido, o poema A arte de perder pode ser compreendido como um dispositivo contra a anestesia contemporânea.

Vivemos em um tempo em que perder tornou-se, paradoxalmente, algo banal e imperceptível. Perdemos tempo em fluxos infinitos de informação, perdemos memória em arquivos digitais que não revisitamos, perdemos relações na superficialidade dos contatos instantâneos, perdemos o mundo na sua substituição por representações mediadas. E, no entanto, pouco disso se transforma em experiência. Porque não há tempo para sentir a perda. Não há silêncio para que ela se inscreva. Não há atenção para que ela nos toque.

O poema de Bishop, ao contrário, nos obriga a permanecer com a perda. Ele recusa a aceleração. Ele constrói uma espécie de ética da atenção ao que se desfaz. E aqui reside uma de suas contribuições mais profundas para o pensamento contemporâneo: a de que a experiência não é apenas aquilo que nos marca positivamente, mas também e talvez sobretudo aquilo que nos desestabiliza, que nos retira, que nos esvazia. Perder, nesse sentido, não é apenas um acidente da vida. É uma condição da experiência.

Mas há ainda uma dimensão adicional, que conecta o poema à reflexão mais ampla sobre narrativa e mundo: a perda como condição de narrabilidade. Só narramos aquilo que, de algum modo, nos falta. A narrativa nasce da fissura, da ausência, do intervalo entre o que foi e o que já não é.

Se a experiência é rara, como sugere a vida cotidiana, talvez seja porque já não conseguimos habitar essas fissuras. Preenchêmo-las rapidamente com novos estímulos, novas informações, novas urgências. Não deixamos que a perda se torne experiência e, ao não fazê-lo, empobrecemos também nossas narrativas. Bishop, ao contrário, nos ensina a permanecer. Permanecer na repetição. Permanecer na ausência. Permanecer naquilo que insiste em doer, mesmo quando afirmamos que “não é nada sério”.

Há, portanto, uma dimensão ética e estética nesse gesto: recuperar a capacidade de ser afetado. Recuperar a lentidão necessária para que algo nos aconteça. Recuperar a densidade do vivido em um mundo saturado de acontecimentos. Talvez, no limite, a arte de perder seja também a arte de experimentar. E, mais ainda, a arte de resistir a um mundo em que tudo acontece, mas quase nada nos acontece de fato.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Paulo Nassar

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje); professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP); doutor e mestre pela ECA-USP. É coordenador do Grupo de Estudos de Novas Narrativas (GENN), da ECA-USP e pesquisados no campo da interface entre Comunicação e Antropologia. Docente de mestrado e doutorado (PPGCOM ECA-USP) desde 2006, onde ministra, juntamento com o Prof. Dr. Luiz Alberto de Farias, a disciplina stricto sensu “Memórias Rituais, Narrativas da Experiência”. Pesquisador da British Academy (University of Liverpool) – 2016-2017. Entre outras premiações, recebeu o Atlas Award, concedido pela Public Relations Society of America (PRSA, Estados Unidos), por contribuições às práticas de relações públicas, e o prêmio Comunicador do Ano (Trajetória de Vida), concedido pela FundaCom (Espanha). É coautor dos livros: Communicating Causes: Strategic Public Relations for the Non-profit Sector (Routledge, Reino Unido, 2018); The Handbook of Financial Communication and Investor Relation (Wiley-Blackwell, Nova Jersey, 2018); O que É Comunicação Empresarial (Brasiliense, 1995); e Narrativas Mediáticas e Comunicação – Construção da Memória como Processo de Identidade Organizacional (Coimbra University Press, Portugal, 2018).

  • COMPARTILHAR:

ARTIGOS E COLUNAS

  • Paulo Nassar“A arte de perder”, de Elisabeth Bishop, e a raridade da experiência
  • Mônica BrissacA economia da atenção e o valor da voz dos líderes
  • Carlos ParenteVocê quer ser relevante nestes tempos “acelerados”? Pense na sua comunicação. Faça-a florescer!

Destaques

  • Visita do Instituto Poiesis à Aberje aborda comunicação, IA e nova fase institucional
  • Masterclass do MBA Aberje-FGV destaca comunicação estratégica em aula com Leandro Modé
  • Coalizão Empresarial contra a Desinformação é lançada em São Paulo com foco em governança e ação coletiva

Notícias do Mercado

  • Estadão lança prêmio para reconhecer destaques do turismo brasileiro
  • InfoMoney anuncia Rodrigo Flores para liderar o portal
  • PR³ Itaú debate desafios da comunicação em cenário de polarização e desconfiança

BLOGS

A Aberje é uma organização profissional e científica sem fins lucrativos e apartidária. Tem como principal objetivo fortalecer o papel da comunicação nas empresas e instituições, oferecer formação e desenvolvimento de carreira aos profissionais da área, além de produzir e disseminar conhecimentos em comunicação.

ENDEREÇO
Rua Amália De Noronha, 151, 6º Andar – Pinheiros, São Paulo/SP
CEP 05410-010

CONTATO
(11) 5627-9090
(11) 95166-0658
fale@aberje.com.br