“A arte de perder”, de Elisabeth Bishop, e a raridade da experiência

Artigo publicado originalmente no Jornal da USP
Poucos poemas do século XX alcançaram a densidade formal e emocional de One Art (1976), de Elizabeth Bishop – autora de uma obra marcada pela precisão, pela contenção e por uma rara capacidade de transformar o cotidiano em matéria de pensamento. Em sua escrita, nada é excessivo, mas tudo é decisivo. Cada palavra parece ter sido testada contra o silêncio.
Traduzido com notável rigor por Paulo Henriques Britto, o poema A arte de perder condensa, em sua forma quase didática, uma das experiências mais universais e, ao mesmo tempo, mais difíceis de elaborar: a perda. Não como um evento isolado, mas como prática, como aprendizagem, como exercício, quase como um rito íntimo de passagem. É nesse espírito que o lemos:
A arte de perder
A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Se o poema de Bishop nos convida a um exercício, quase disciplinar, de convivência com a perda, é porque, sob sua superfície de aparente leveza, ele organiza uma experiência densa, feita de repetição, de contenção e de resistência ao irreparável. Não se trata apenas de aceitar o que se perde, mas de aprender a permanecer com a perda, a dar-lhe forma, ritmo e linguagem.
É precisamente nesse ponto que o gesto poético de Bishop ultrapassa a esfera literária e se abre para uma reflexão mais ampla: o que, afinal, transforma um acontecimento em experiência? O que faz com que algo que nos sucede deixe de ser apenas um episódio e passe a nos constituir? É a partir dessas questões que as reflexões a seguir se desenvolvem.
Há uma pedagogia silenciosa na perda. Uma pedagogia que não se organiza como método, nem se deixa capturar por protocolos. Ela se insinua naquilo que nos escapa, no que falha, no que não se fixa e, sobretudo, no que nos atravessa sem aviso. É precisamente nesse território que o poema de Bishop encontra uma ressonância profunda com a reflexão contemporânea sobre a experiência, tal como formulada por autores do campo da fenomenologia, especialmente Merleau-Ponty, e por Jorge Larrosa Bondía, um pensador da filosofia da educação.
“A arte de perder não é nenhum mistério”, escreve Bishop, em um movimento reiterativo que, mais do que convencer, parece treinar o sujeito para uma aceitação progressiva da perda. O poema estrutura-se como um exercício, quase um ritual de desapego, que vai do banal ao irreparável: perder chaves, horas, lugares, casas, cidades, até alcançar a perda de um império, de um continente, e, implicitamente, de si mesmo. Mas há aqui um ponto decisivo: o poema não trata apenas da perda como evento. Ele trata da perda como experiência.
E é exatamente nessa distinção que se insere a contribuição de Bondía: a experiência não é o que acontece, mas o que nos acontece. O mundo contemporâneo é pródigo em acontecimentos, fluxos contínuos de informações, estímulos, deslocamentos, notificações. No entanto, como o próprio Bondía sugere, a experiência tornou-se rara. Porque ela exige condições que o nosso tempo sistematicamente inviabiliza: tempo, atenção, silêncio e disponibilidade para ser afetado.
O poema de Bishop pode ser lido, então, como uma tentativa de produzir experiência em meio à perda ou, mais radicalmente, de transformar a perda em experiência.
Há algo de profundamente contemporâneo (e, ao mesmo tempo, trágico) no modo como a poeta insiste que “não é nada sério”. Essa insistência, repetida quase como um mantra, revela uma tensão: quanto mais se afirma a banalidade da perda, mais se evidencia sua gravidade. O poema encena, assim, um sujeito que tenta domesticar o impacto do que se perde, organizando a dor em linguagem, ritmo e repetição. Mas essa organização não elimina a experiência, ao contrário, ela a produz.
A experiência, nesse sentido, não é anterior à narrativa, mas tampouco se confunde com ela. Como já se indicou: antes de narrar, o ser humano vive. Contudo, viver não basta. A experiência emerge quando o vivido nos afeta, quando nos transforma, quando deixa marcas. E é a narrativa, como forma simbólica, que permite dar contorno a essas marcas, ainda que nunca as esgote.
Bishop não apenas narra perdas. Ela as faz operar como experiência sensível. O poema cria um espaço de desaceleração dentro da linguagem. Cada repetição é uma pausa, cada enumeração é um gesto de atenção, cada perda é reencenada como possibilidade de inscrição. Nesse sentido, o poema A arte de perder pode ser compreendido como um dispositivo contra a anestesia contemporânea.
Vivemos em um tempo em que perder tornou-se, paradoxalmente, algo banal e imperceptível. Perdemos tempo em fluxos infinitos de informação, perdemos memória em arquivos digitais que não revisitamos, perdemos relações na superficialidade dos contatos instantâneos, perdemos o mundo na sua substituição por representações mediadas. E, no entanto, pouco disso se transforma em experiência. Porque não há tempo para sentir a perda. Não há silêncio para que ela se inscreva. Não há atenção para que ela nos toque.
O poema de Bishop, ao contrário, nos obriga a permanecer com a perda. Ele recusa a aceleração. Ele constrói uma espécie de ética da atenção ao que se desfaz. E aqui reside uma de suas contribuições mais profundas para o pensamento contemporâneo: a de que a experiência não é apenas aquilo que nos marca positivamente, mas também e talvez sobretudo aquilo que nos desestabiliza, que nos retira, que nos esvazia. Perder, nesse sentido, não é apenas um acidente da vida. É uma condição da experiência.
Mas há ainda uma dimensão adicional, que conecta o poema à reflexão mais ampla sobre narrativa e mundo: a perda como condição de narrabilidade. Só narramos aquilo que, de algum modo, nos falta. A narrativa nasce da fissura, da ausência, do intervalo entre o que foi e o que já não é.
Se a experiência é rara, como sugere a vida cotidiana, talvez seja porque já não conseguimos habitar essas fissuras. Preenchêmo-las rapidamente com novos estímulos, novas informações, novas urgências. Não deixamos que a perda se torne experiência e, ao não fazê-lo, empobrecemos também nossas narrativas. Bishop, ao contrário, nos ensina a permanecer. Permanecer na repetição. Permanecer na ausência. Permanecer naquilo que insiste em doer, mesmo quando afirmamos que “não é nada sério”.
Há, portanto, uma dimensão ética e estética nesse gesto: recuperar a capacidade de ser afetado. Recuperar a lentidão necessária para que algo nos aconteça. Recuperar a densidade do vivido em um mundo saturado de acontecimentos. Talvez, no limite, a arte de perder seja também a arte de experimentar. E, mais ainda, a arte de resistir a um mundo em que tudo acontece, mas quase nada nos acontece de fato.
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