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14 de abril de 2026

Coalizão Empresarial contra a Desinformação é lançada em São Paulo com foco em governança e ação coletiva

Iniciativa reúne Aberje, Abert, Abradee e Instituto Ethos, com apoio técnico do NetLab UFRJ, para estruturar respostas empresariais a um risco sistêmico crescente
Mario Bucci
Hamilton dos Santos, diretor-executivo da Aberje; Cristiano Lobato Flôres, presidente-executivo da Abert; e Andréa Álvares, presidenta do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos (foto: Luís Eduardo Figueiredo)
 
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A desinformação e seus efeitos econômicos e reputacionais foram tema do debate que marcou o lançamento da Coalizão Empresarial contra a Desinformação, realizado na manhã da última segunda-feira (13), em São Paulo. O evento reuniu lideranças empresariais, especialistas e representantes de entidades para discutir o papel das organizações diante de um fenômeno que se consolida como risco sistêmico. A iniciativa é uma realização conjunta de Aberje, Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) e Instituto Ethos, com apoio técnico do NetLab UFRJ. A Abradee é associada à Aberje.

Na abertura, Caio Magri, presidente do Instituto Ethos, situou o lançamento em um contexto de intensificação dos riscos associados à desinformação, destacando seu caráter sistêmico. “Este é um momento decisivo para a democracia e para o futuro. A desinformação passou a integrar o cotidiano e afeta diretamente a confiança da sociedade”, afirmou. Com base em dados do Comitê Gestor da Internet, ele ressaltou que 41% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam ter contato diário com conteúdos falsificados por inteligência artificial, índice que chega a 44% entre jovens de 16 a 24 anos.

Magri também destacou que a expansão das tecnologias digitais amplia simultaneamente capacidades e responsabilidades. “Quando uma tecnologia amplia capacidades, ela também amplia deveres. Inovação sem responsabilidade pode ampliar desigualdades e enfraquecer direitos”, disse, defendendo uma resposta baseada em governança, transparência e compromisso institucional com a integridade da informação.

Desinformação como risco sistêmico

Márcio Borges, pesquisador associado do NetLab UFRJ, caracterizou a desinformação como uma indústria estruturada e economicamente relevante. “Vivemos um ambiente de dúvida permanente, alimentado por uma indústria de desinformação que explora a credibilidade e a confiança”, afirmou. Segundo ele, conteúdos falsos são apenas a ponta de um ecossistema mais amplo, que envolve produção de narrativas, testes rigorosos de receptividade, uso de algoritmos e anúncios para amplificação em múltiplas plataformas.

Borges detalhou o funcionamento desse ecossistema ao descrever a chamada “anatomia do fluxo de desinformação”, que passa pela criação de narrativas, testes em ambientes fechados como grupos de mensagens, otimização por meio de anúncios e algoritmos e posterior amplificação em plataformas de grande alcance. “A desinformação ganha escala ao explorar a lógica de distribuição das plataformas e a dinâmica da publicidade digital, que monetiza a atenção e recompensa o engajamento, independentemente da qualidade do conteúdo”, explicou.

Lançamento da Coalizão Empresarial contra a Desinformação reuniu lideranças empresariais, especialistas e representantes de entidades (foto: Mario Bucci)

Ele também destacou que esse modelo é sustentado por incentivos econômicos claros. “Trata-se de uma indústria lucrativa, baseada em baixo custo de produção e alto potencial de disseminação. Conteúdos de desinformação, ou junk news, tendem a alcançar grandes audiências e, com isso, atrair anunciantes por meio de mídia programática”, afirmou. Para Borges, há uma transferência de confiança que fragiliza marcas e instituições. “A desinformação pirateia credibilidade, utilizando marcas, narrativas e símbolos para induzir ao engano, inclusive em fraudes como phishing”, disse.

O pesquisador chamou atenção ainda para a dificuldade de identificação do problema por parte da população. “Os dados se baseiam em percepção. Muitas pessoas não reconhecem que estão diante de conteúdo falso, o que amplia o alcance do fenômeno”, afirmou. Ele acrescentou que o Brasil combina alto consumo de notícias em redes sociais com baixa capacidade de identificação de desinformação, o que agrava o cenário.

A fundadora e diretora do NetLab UFRJ, Marie Santini, enviou uma mensagem em vídeo especialmente para o evento, na qual ressaltou o papel da transparência e da ciência na construção de respostas ao fenômeno. “A criação desta coalizão reconhece que as empresas são parte ativa na construção de soluções. A pesquisa científica é uma fonte confiável de conhecimento público para orientar decisões”, afirmou.

Papel das empresas e governança reputacional

A dimensão empresarial do debate foi aprofundada por representantes das entidades co-realizadoras. Andréa Álvares, presidenta do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos, destacou o caráter coletivo da iniciativa. “Estamos diante de um risco sistêmico, que exige uma mobilização ampla. Nenhum ator isolado consegue enfrentá-lo”, afirmou, ressaltando a necessidade de desenvolver mecanismos de governança e ampliar o letramento sobre o tema.

Patrícia Audi, presidente da Abradee, também enviou uma declaração em vídeo e reforçou o impacto direto da desinformação sobre os negócios. “A desinformação é um risco real, que causa prejuízos e danos reputacionais às empresas e aos seus setores”, disse.

Hamilton dos Santos, diretor-executivo da Aberje, contextualizou a iniciativa a partir da experiência da entidade no tema. Segundo ele, a preocupação com a desinformação já mobiliza o meio empresarial há alguns anos, tendo levado à criação da Aliança Aberje Contra Fake News em 2023. “As empresas são hoje grandes produtoras de conteúdo e também estão entre as principais vítimas da desinformação. A coalizão amplia esse trabalho, ao permitir alcançar mais organizações e estruturar a disseminação de boas práticas”, afirmou.

Hamilton também chamou atenção para a responsabilidade das próprias empresas na qualidade da informação que produzem. “É preciso considerar até que ponto as organizações não contribuem para a desinformação, por exemplo em práticas como o greenwashing. Há um dever claro de evitar esse tipo de distorção”, disse. Ele destacou ainda o papel das áreas de Comunicação na troca de experiências e na consolidação de padrões de atuação. “Extraímos das empresas o que elas já fazem e disseminamos essas práticas na rede. Esse fluxo é essencial para avançar.”

Cristiano Lobato Flôres, presidente-executivo da Abert, enfatizou o caráter inédito da articulação e o papel do setor de mídia no enfrentamento ao problema. “A desinformação sempre existiu, mas nunca em escala industrial como hoje. As big techs passaram a comercializar a nossa atenção de forma cada vez mais hostil”, afirmou. Para ele, o combate à desinformação deve ser incorporado à governança reputacional das organizações, com desenvolvimento de processos internos e diretrizes claras.

“Hoje, há um aumento significativo nos investimentos necessários para sustentar a reputação, em grande parte por conta desse ambiente”, observou Márcio Borges. De acordo com ele, a desinformação compromete a qualidade da tomada de decisão, afeta a estabilidade institucional e eleva os custos de construção e manutenção da reputação. 

No encerramento, Caio Magri reforçou a natureza coletiva da iniciativa. “Esta coalizão só é possível se for construída em conjunto”, afirmou, sintetizando a proposta de articulação entre empresas, entidades e especialistas.

Sobre a Coalizão

A Coalizão Empresarial contra a Desinformação reúne associações empresariais e organizações com o objetivo de promover uma atuação coordenada do setor empresarial no enfrentamento à desinformação. A iniciativa parte do entendimento de que o fenômeno representa um risco crescente para a democracia, a confiança institucional e o ambiente de negócios, demandando respostas estruturadas, baseadas em evidências e alinhadas às melhores práticas de governança.

Entre seus objetivos estão mobilizar o setor empresarial em torno do tema, promover ação coletiva e articulação multissetorial, apoiar a tomada de decisão com base em conhecimento técnico e fomentar boas práticas de comunicação responsável e integridade informacional. A atuação se organiza em frentes como produção e disseminação de conhecimento, desenvolvimento de diretrizes, promoção de espaços de diálogo e engajamento institucional.

Ao ampliar o papel das organizações nesse debate, a Coalizão busca contribuir para a mitigação de riscos reputacionais, institucionais e sistêmicos, além de fortalecer a construção de um ambiente informacional mais íntegro e confiável.

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