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24 de março de 2026

O velho e o mar

Paulo Nassar
Foto: Ant Rozetsky/Unsplash
 
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Artigo originalmente publicado no Jornal da USP

Há uma sensação difusa no mundo contemporâneo que atravessa gerações, profissões e culturas: o futuro chega cada vez mais rápido. Tecnologias surgem, substituem-se e desaparecem em intervalos cada vez menores. Aplicativos envelhecem em poucos meses, linguagens digitais mudam a cada atualização e profissões inteiras são redefinidas pela automação e pela inteligência artificial. Nesse contexto acelerado, uma frase simples parece-me condensar uma experiência coletiva: o futuro chegou e parece que foi ontem.

Essa percepção costuma ser associada às pessoas mais velhas, como se o espanto diante da rapidez das mudanças fosse um privilégio da idade. Mas talvez essa seja uma leitura incompleta. A sensação de descompasso temporal tornou-se uma condição generalizada. Também os jovens vivem hoje sob o risco permanente da obsolescência: aprendem ferramentas que podem desaparecer em poucos anos, constroem identidades profissionais em ambientes tecnológicos instáveis e experimentam a pressão constante da atualização.

Escrevo estas linhas a partir de um lugar de observação particular. Como professor titular da Universidade de São Paulo, convivo diariamente com jovens graduandos e acompanho, de perto, a formação de mestrandos, doutorandos, jovens mestres e jovens doutores. A universidade é um espaço privilegiado para observar como as gerações se encontram e se transformam mutuamente. Ao mesmo tempo, aproximo-me do que a legislação chama de “aposentadoria institucional”, cujo marco são os 75 anos. Esse horizonte, que já se anuncia no calendário, não produz em mim apenas um sentimento de retirada, e até de luto, mas também uma curiosa consciência do tempo: o de quem olha para trás e percebe quantas versões do mundo já atravessou.

É a partir dessa experiência cotidiana, entre jovens que iniciam trajetórias e um professor que acumula décadas de vida acadêmica, que três palavras ajudam a pensar a experiência contemporânea do tempo: velhice, obsolescência e longevidade.

Ser velho é, antes de tudo, uma condição humana. Diz respeito ao corpo que atravessa os anos, à memória que acumula experiências e à consciência de que a vida tem limites. Em muitas culturas tradicionais, a velhice esteve associada à autoridade simbólica. Os mais velhos eram guardiões de histórias, saberes e rituais. Eles representavam a continuidade da experiência coletiva.

Já a obsolescência pertence a outra lógica. Ela não é biológica, mas técnica e econômica. Um objeto torna-se obsoleto quando deixa de funcionar dentro de um sistema tecnológico ou quando é substituído por outro mais eficiente. No século 20, a indústria incorporou esse princípio de forma deliberada, produzindo bens destinados a serem rapidamente substituídos. Hoje essa lógica ultrapassa os objetos e alcança conhecimentos, linguagens e práticas sociais. A obsolescência tornou-se um ritmo cultural. O paradoxo é evidente, a humanidade vive mais, mas as coisas duram menos.

Nesse cenário surge uma terceira ideia: a longevidade. Diferentemente da velhice e da obsolescência, a longevidade não se refere apenas ao tempo em que algo existe, mas à sua capacidade de continuar fazendo sentido ao longo do tempo. Certas obras literárias, certas instituições, certos rituais, certas pessoas e certos conhecimentos atravessam décadas ou séculos sem perder relevância. Eles sobrevivem porque conseguem dialogar continuamente com novas gerações.

A literatura oferece um retrato exemplar dessa distinção. Em “O velho e o mar”, publicado em 1952, o escritor norte-americano Ernest Hemingway constrói a figura de Santiago, um velho pescador cubano que enfrenta sozinho o mar após uma longa sequência de dias sem conseguir pescar. Santiago é velho, seu corpo carrega as marcas do tempo e da fadiga. No entanto, ele não é obsoleto. Sua experiência, sua paciência e sua relação quase ritual com o mar revelam um saber que não pode ser reduzido à lógica da eficiência imediata.

O romance de Hemingway não é apenas uma história de pesca. É uma reflexão sobre dignidade, resistência e sentido diante do tempo. Santiago luta durante dias contra um peixe gigantesco. No final, retorna apenas com o esqueleto do animal, devorado por tubarões. Do ponto de vista material, ele perde. Mas do ponto de vista humano, permanece inteiro. Sua experiência não se mede pelo resultado econômico, mas pela intensidade da relação com o mundo.

Essa distinção ajuda a compreender uma confusão frequente nas sociedades contemporâneas: confundimos velhice com obsolescência. Nem toda coisa antiga é ultrapassada, assim como nem toda novidade representa avanço real. Muitas vezes, aquilo que é descartado rapidamente, objetos, saberes ou pessoas, ainda possui valor simbólico e experiência acumulada.

O problema torna-se ainda mais complexo quando percebemos que a aceleração tecnológica atinge todas as idades. Jovens programadores veem linguagens desaparecerem em poucos anos. Profissionais recém-formados precisam reaprender continuamente. A promessa de juventude permanente convive com a ansiedade de se tornar rapidamente ultrapassado.

Talvez por isso a pergunta sobre o tempo tenha voltado ao centro do debate cultural. Em um mundo de inovação permanente, torna-se necessário distinguir o que deve mudar rapidamente do que precisa durar.

A universidade ocupa um lugar singular nessa discussão. Instituições como a Universidade de São Paulo existem justamente para cultivar conhecimentos de longa duração. A ciência, a filosofia, a literatura e as humanidades produzem interpretações do mundo que não se esgotam na lógica da atualização tecnológica. Elas preservam aquilo que a aceleração tende a apagar: a memória, o contexto e a capacidade de refletir sobre a própria experiência histórica.

A frase “quando o futuro chega e parece que foi ontem” expressa, portanto, mais do que nostalgia. Ela revela uma tensão profunda entre três tempos que convivem no presente: o tempo biológico das vidas humanas, o tempo acelerado das tecnologias e o tempo longo da cultura. Ser velho é atravessar o tempo do corpo e da memória.

Ser obsoleto é perder lugar dentro de um sistema técnico. Ser longevo é continuar produzindo sentido apesar da passagem dos anos.

Entre jovens estudantes que chegam à universidade cheios de expectativas e um professor que se aproxima da aposentadoria institucional, aprendo todos os dias que essas três dimensões não são opostas. Elas coexistem. E talvez seja essa convivência que define a experiência contemporânea do tempo. Porque, no fundo, a questão não é apenas quanto tempo algo dura. A questão é o que, afinal, merece durar.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Paulo Nassar

Diretor-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje); professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP); doutor e mestre pela ECA-USP. É coordenador do Grupo de Estudos de Novas Narrativas (GENN), da ECA-USP e pesquisados no campo da interface entre Comunicação e Antropologia. Docente de mestrado e doutorado (PPGCOM ECA-USP) desde 2006, onde ministra, juntamento com o Prof. Dr. Luiz Alberto de Farias, a disciplina stricto sensu “Memórias Rituais, Narrativas da Experiência”. Pesquisador da British Academy (University of Liverpool) – 2016-2017. Entre outras premiações, recebeu o Atlas Award, concedido pela Public Relations Society of America (PRSA, Estados Unidos), por contribuições às práticas de relações públicas, e o prêmio Comunicador do Ano (Trajetória de Vida), concedido pela FundaCom (Espanha). É coautor dos livros: Communicating Causes: Strategic Public Relations for the Non-profit Sector (Routledge, Reino Unido, 2018); The Handbook of Financial Communication and Investor Relation (Wiley-Blackwell, Nova Jersey, 2018); O que É Comunicação Empresarial (Brasiliense, 1995); e Narrativas Mediáticas e Comunicação – Construção da Memória como Processo de Identidade Organizacional (Coimbra University Press, Portugal, 2018).

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