21 lições da International PR Research Conference 2021
15 de março de 2021
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A 24ª edição da IPRRC traz insights sobre Comunicação de estudos acadêmicos 

A edição deste ano da International Public Relations Research Conference (IPRRC), foi realizada entre os dias 3 e 6 de março, ocasião em que ocorreu a 24ª edição do International Aberje Award, premiação que reconhece estudos acadêmicos de pesquisadores estrangeiros relacionados à comunicação no Brasil e na América do Sul. Em formato totalmente virtual, a conferência reuniu profissionais e pesquisadores de 14 países para apresentar 60 trabalhos com sessões que ocorriam de forma simultânea. O estudo vencedor deste ano foi sobre “Comunicação da Covid-19 no Twitter”, conduzido por autores de sete diferentes universidades dos EUA e Itália.

A Aberje, que patrocina a Conferência desde 2009 reconhecendo e premiando estudos acadêmicos de Comunicação, se fez representada pelo responsável pelas Relações Internacionais e Institucionais da associação, Victor Henrique Pereira, mestrando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, pela gerente executiva da Escola Aberje de Comunicação, Emiliana Pomarico Ribeiro, doutora em Ciências da Comunicação pela USP, e pelo economista Leonardo Paes Müller, que atua no núcleo de pesquisas da associação e é doutor em Filosofia pela USP e pela Sorbonne.

Perante tantas informações, com temas de extrema relevância para o momento, os representantes da Aberje na conferência puderam notar que “os trabalhos apresentados refletem novos pensamentos, novas tendências e novas reflexões, mas sempre capturados pela peneira de procedimentos científicos rigorosos”, enfatizam.

Confira abaixo 21 insights que devem ser consideradas pelos profissionais de Relações Públicas e de Comunicação Organizacional, compilados pelo time de representantes da Aberje:

*Cobertura realizada por Emiliana Pomarico Ribeiro, Leonardo Paes Müller e Victor Henrique Pereira

1 – A Comunicação dos órgãos oficiais sobre a pandemia pode ser mais eficaz

O paper vencedor do International Aberje Award mostrou que as redes sociais dos ministérios de saúde ao redor do mundo, inclusive do Brasil, foram vistas como fontes importantes de informação sobre a pandemia, mas de forma incompleta. Sua comunicação poderia ter sido mais eficaz.

O novo estudo do grupo – que já foi vencedor do prêmio anteriormente – focou no modo como os departamentos de Saúde Pública se comunicaram em 2020 em relação à Covid-19 e como as pessoas se engajaram no Twitter. Uma das descobertas é que havia muito mais conteúdo específico nos dois anos anteriores, quando o foco dos estudos era em outras doenças. 

Para alguns países, cerca de 50% de todos os tweets eram relacionados a relações públicas sobre os próprios ministérios. E essas postagens tinham menos engajamento das pessoas, pois essas divulgações não são necessariamente para quem busca informações, especialmente durante uma pandemia.

A maioria das postagens era sobre prevenção, destacando o que lhes pareceu uma preocupante falta de mensagens em torno dos testes, aumentando as incertezas sobre possíveis soluções para a pandemia. Outros pontos negativos foram a falta de mensagens de eficácia (do uso de máscaras, por exemplo), pouca interação e mensagens unidirecionais e com várias perguntas sem respostas. (Tweeting a Pandemic: Communicating #COVID19 Across the Globe Jeanine Guidry e colegas/Virginia Commonwealth University; James Madison University; University of Cagliari, Italy)

2 – A área de comunicação foi reconhecida como principal vetor de transformação no contexto da pandemia 

A pesquisa mostrou que, apesar do forte impacto trazido pela pandemia, os profissionais de comunicação se adaptaram rapidamente na gestão de mudanças, conseguindo ser criativos, flexíveis e usando informações da Covid-19 para construir conhecimento, aumentar a confiança, desenvolver estratégias e orientar ações. 

O estudo foi feito partir de três questões principais: (1) em que grau os profissionais de comunicação estão sendo afetados pela pandemia, (2) como esses profissionais estão agindo para conseguir as informações de fontes legítimas para criar comunicações confiáveis sobre a pandemia e (3) como estão desenvolvendo estratégias e orientando suas ações de forma tão rápida, frente a tantas mudanças. 

Uma das conclusões é que as pessoas contam com os profissionais de comunicação para receber as informações, confiam neles em termos de transparência e esclarecimento. A pesquisa destaca que a área de comunicação como um todo aparece como o principal vetor para informar e proporcionar transformações de comportamentos e pensamentos das pessoas frente ao contexto da pandemia. (Leading Transitions in a Traumatically Changing Working Environment: Communication Professionals Adapt to COVID-19 Impacts – Juan Meng e colegas/University of Georgia e University of Alabama)

3 – A comunicação de hoje exige uma cultura ágil, flexível e adaptável 

É o que indica a PRWeek Bellwether Survey Research Project de 2020. Projetado para examinar o estado atual da indústria de relações públicas nos EUA, a pesquisa obteve seus resultados a partir de mais de 2.000 respostas. A maioria dos respondentes indicou concordar com a cultura corporativa da sua organização ao considerá-la “ágil” e flexível, por adaptar-se rapidamente aos processos, ao home office, aos novos pensamentos em relação aos ativismos do contexto e das necessidades frente à responsabilidade social e ambiental. 

A segunda afirmação com maior concordância foi que a função de comunicação nas suas empresas era de extrema importância para conseguir essa “agilidade”. O gerenciamento de mudanças e a comunicação são significativamente mais importantes em organizações altamente ágeis (62%).

O estudo também aponta que quem trabalha em organizações de culturas altamente ágeis geralmente percebe que elas são muito mais éticas, mais atrativas e responsáveis pelo bem-estar dos seus funcionários. Elas também encorajam diferenças de opinião, a diversidade e o ativismo por parte dos funcionários e entendem o poder do colaborador de causar transformações e visões sobre a empresa. Essas organizações foram capazes de alavancar e relatar um desempenho melhor em velocidade de adaptações e uma maior autenticidade em seus posicionamentos e propósitos comunicados. (Studying the Current State of the Public Relations Industry – Arunima Krishna e colegas, Boston University)

4 – Os CEOs assumiram um papel de líder-comunicador no cenário da pandemia

A pandemia afetou de modo profundo a economia e as organizações, forçando mudanças e gerando uma sensação de incerteza e de perda de sentido. Diante desse cenário, muitos CEOs assumiram a função de líderes comunicacionais e, em suas cartas abertas, originalmente dirigidas aos acionistas, passaram a fornecer narrativas que garantissem algum sentido à crise, explicando o impacto da pandemia e a responsabilidade dos negócios. Elas também traziam mensagens de união por ações coletivas, de modo a reforçar a resiliência das organizações e garantir apoio de diversos públicos. (CEO as “Chief Crisis Official” Under Covid-19: A Content Analysis of CEO Open Letters Using Structure Topic Modeling – Jiangmeng Helen Liu, Seattle University; Bora Yook, Fairfield University; e Cheng Hong, California State University Sacramento)

5 – A comunicação não-violenta pode ajudar nos relacionamentos e na produtividade nas organizações 

A pesquisa realizada pela Aberje em 2020 sobre a “Comunicação Não-Violenta nas Organizações no Brasil” também foi apresentada na conferência, mostrando que há espaço para a aplicação dos princípios da CNV nas organizações. Com a curadoria especial de uma das maiores especialistas no tema, Pamela Seligmann, a pesquisa conduzida pela associação levantou as percepções de 327 profissionais de comunicação de várias regiões do Brasil sobre os principais pilares da CNV.

A partir de um mapa de emoções, gerado da pergunta sobre quais eram os sentimentos mais frequentemente experimentados enquanto se está trabalhando, é possível identificar que “ansiedade” e “cansaço” estão entre as mais escolhidas, enquanto “entusiasmo” e “satisfação” ficam entre as menos mencionadas. O desenvolvimento de um vocabulário dos sentimentos, um aprofundamento em si mesmo e uma escuta ativa, sem pré-julgamentos, são elementos chave da CNV que podem ajudar as organizações na resolução de conflitos, nas questões de percepção e satisfação dos funcionários com suas empresas, pares, líderes e equipes. A pesquisa e outras reflexões podem ser encontradas no especial Caderno de Comunicação Não-Violenta, publicado pela Aberje Editorial em 2020. (Non-Violent Communication in Brazilian Organizations – Paulo Nassar, Pamela Seligmann e Victor Pereira, Universidade de São Paulo/ECA-USP)

6 – Comunicadores públicos precisam escutar de forma mais qualificada

A pesquisa da Aberje encontrou relações em outros estudos apresentados, como por exemplo, sobre o impacto de um de seus principais pilares: a escuta. Além de inspirar as organizações a promoverem as premissas da CNV nas relações de trabalho, ficou claro que é preciso desenvolver uma sensibilidade maior na interlocução não só com os funcionários, mas também com os públicos das comunidades do entorno. 

A ideia da escuta, aplicada também à comunicação pública, é profundamente importante, porém, por mais que haja estruturas garantidoras de voz à população, como audiências públicas, a sensação é de que não há realmente ninguém escutando. Comunicadores públicos devem dar mais atenção às vozes de grupos minorizados, focar mais na escuta pessoal e menos nos espaços formalizados. (Listening and Inclusive Dialogue with Marginalized Stakeholders Following a Crisis – Julie O’Neil e colegas, Texas Christian University)

7 – É preciso endereçar e analisar os impactos das comunicações na saúde mental das equipes e da sociedade

Sabemos que uma liderança destrutiva – com comportamentos abusivos, intimidação, pressão, comunicação violenta, humilhação etc. – tem um impacto muito forte e negativo na saúde física, mental e nos relacionamentos dos colaboradores. 

Estudos mostraram que, da mesma forma, lideranças consideradas passivas – em que o líder se isenta de tomar algumas decisões, não escuta ou ignora as necessidades de suas equipes, evita as suas responsabilidades, não interfere em determinadas situações, demora para responder por não se posicionar etc. – também podem causar impactos muito negativos no sucesso organizacional e no bem-estar dos funcionários. 

A liderança deve ter em mente um tratamento justo aos membros da sua equipe, recompensando-os com base em seu desempenho e se comunicando com eles em tempo hábil, de forma transparente e através de uma comunicação empática. (How Avoidant Leadership Styles Turns Employees into Adversaries: The Impact of LaissezFaire Leadership on Employee-Organization Relationships – Jie Jin, University of Florida).

Na mesma linha, outro estudo mostrou que lideranças carismáticas podem ser decisivas para o sucesso da organização e para o bem-estar das equipes. Para uma startup, a perda de um talento pode ser questão de vida ou morte, as pessoas precisam se sentir motivadas, escutadas e seguir juntas por um mesmo propósito. Uma liderança carismática eficaz pode não apenas engajar seu time interno, como pode aumentar produtividade e diminuir o turnover, e manter importantes stakeholders através do senso de comunidade e de visão coletiva. (Engaging Startup Employees via Charismatic Leadership Communication: The Importance of Communicating Vision, Passion, and Care – Linjuan Rita Men e colegas, University of Florida)

De forma mais ampla, a Covid-19 e o isolamento social tiveram grandes impactos na saúde mental de todos. Uma análise das mensagens de suporte no Twitter traz insights para que essas comunicações sejam mais efetivas. Uso de experiências pessoais, foco na audiência exposta a mais riscos e mensagens com objetivo de mudar comportamentos estão entre as implicações do estudo. Para maior disseminação, o uso de micro influenciadores está no topo das recomendações, além de ênfase nas mensagens de opiniões de profissionais. (Communicating About Mental Health During a Pandemic: An Examination of Social Support on Twitter – Jesse King e colegas, University of California Santa Barbara; Brigham Young University; e Harvard University)

8 – A comunicação interna pode potencializar a comunicação externa

As fronteiras entre interno e externo estão cada vez menos nítidas. Nesse sentido, torna-se importante criar uma cultura organizacional de apoio para promover o cumprimento das metas externas de RP. Através de orientação e treinamento das equipes internas, é possível auxiliar na construção da cultura organizacional, em suas interações diárias com os públicos de interesse da organização, através das redes sociais, como Facebook, Twitter, Instagram e TikTok. 

As empresas devem se basear no paradigma de comunicação dialógica com seus públicos internos e entender o que eles estão espelhando, se o que estão experimentando internamente é positivo ou não, se a cultura organizacional criada lhes traz uma boa sensação ou não. Pois é isso que eles vão comunicar externamente. E caso haja a compreensão de que seus sentimentos são negativos, é necessária uma ação anterior para a melhoria da cultura organizacional, do clima organizacional e da comunicação. (Exploring the Link between Internal and External Communication: How Supportive Organizational Culture Shapes Company-Public Relationships on Social Media – Michael Johann, University of Augsburg)

9 – A alfabetização digital ainda é um grande desafio para os comunicadores

Com a transição demográfica avançando em diversos países, a alfabetização digital tenderia a crescer de importância, mas com a aceleração da transição para o mundo digital causada pela Covid-19, essa questão se tornou também urgente. Ela é condição para que pessoas com mais de 65 anos, por exemplo, sejam capazes de aferir a confiabilidade e a credibilidade das fontes de informações sobre saúde. (Building Trust with Digital Seniors: Exploring How Older Adults (65+) Determine Online Information Sources and Communication about Health to be Trustworthy and Credible – Alison Gelata, McMaster University)

10 – A Inteligência Artificial ganha espaço cada vez maior nas ações de comunicação

O desenvolvimento da comunicação com IA trouxe maiores possibilidades de personalização das interações entre clientes e máquinas, o que gera uma série de questões a respeito da natureza dessas interações e dos relacionamentos ali criados, assim como de suas implicações éticas. A ideia de que uma grande organização deve ser personificada – criando uma personalidade para a marca ou fazendo a antropomorfização da marca – é antiga. Hoje, teóricos vêm trabalhando com conceitos de humanização da IA e de comunicação interpessoal, discutindo como a tecnologia individualiza e seleciona interesses específicos, e como cada vez mais elas precisam parecer ser humanos interagindo com humanos (A Conversation Model for Computer-Mediated Public Relations – Tom Kelleher e Cen April Yue, University of Florida)

Além desse uso da IA para conversas de organizações com seus públicos através de chats virtuais, ou para ofertas de consumo mais personalizados para cada indivíduo, uma das fronteiras da pesquisa em RP é o emprego de inteligência artificial para o desenvolvimento de programas capazes de identificar e classificar as crises de diferentes espécies e oferecer informações sobre a efetividade de diversas respostas possíveis à crise. As ferramentas já existem, e os desafios estão em treinar propriamente as IAs e fomentar um banco de dados qualificado – por exemplo, com artigos e notícias de crises passadas. (Advancing our Understanding of Public Relations: Improving Crisis Communication through AI – W. Timothy Coombs e colegas,Texas A&M University; Fullintel e Paine Publishing). 

Vale a leitura do case

11 – Existe uma potencial força nas redes sociais internas para o engajamento em ambientes virtuais

A comunicação interna, a partir do uso de redes sociais internas, mostrou uma grande potencialidade no engajamento das pessoas de uma organização, ainda mais no contexto da pandemia, em que grande parte das empresas passou a operar por meio do home office e da virtualização das interações. A realização de campanhas estratégicas, a formação de comunidades por interesses, a compreensão das necessidades de cada grupo, a formação de espaços dialógicos, a criação de comunicações criativas, específicas, conceituadas e contextualizadas para as pessoas são fatores importantes para o sucesso do uso da ferramenta. 

Questões que refletem os resultados do estudo de caso em empresas da Alemanha, sobre o quanto essas interações nas redes sociais internas ajudou a transformar por completo a comunicação das suas ações de Responsabilidade Social Corporativa. (Contributing via Internal Social Media towards a better CSR Communication at the Top and Throughout an Organization. Theoretical Foundations and New Results from a Qualitative Case Study and an additional Quantitative Interview Survey in Germany – Holger Sievert e colegas, Macromedia University)

12 – Como combater as desinformações é papel essencial dos comunicadores

Cada vez mais, os comunicadores estão sendo responsabilizados por serem os principais agentes no combate à desinformação. Diante da ameaça (ou da realidade) de se tornarem vítimas de campanhas de desinformação, organizações estão buscando ferramentas para combatê-las. Duas delas, debunking e pre-bunking, têm apontado resultados interessantes em experimentos apresentados na conferência. (Unveiling Disinformation: Increasing Ethical Concerns and Moral Outrage Towards Practice – Courtney D. Boman, University of Alabama)

13 – A autenticidade está em alta 

Seja em situações de crise ou em caso de posicionamento em uma questão controversa, a organização será cobrada não apenas pelo que diz, mas principalmente pelo que faz. Não há mais espaço para posicionamentos vazios ou de apoio à alguma causa social sem que haja também a comunicação do que realmente está sendo feito. Além disso, endereçar os problemas pelos seus nomes, racismo estrutural, por exemplo, ajuda a construir autenticidade. 

Isso é particularmente verdadeiro no caso de tomada pública de posição pela empresa, o Brand Standing ou Brand Activism. Um dos estudos, porém, apontou que, nesses casos, tanto o grau de polarização da questão, quanto o posicionamento do consumidor pode ser mais importante que a percepção de autenticidade: há casos em que mesmo a autenticidade não é o bastante. (Does Being Real Pay Off? Examining the Impact of Perceived Authenticity in Crisis Communication – Mikkel Soelberg Christensen, Georgia College and State University; Corporate Social Advocacy: Analyzing Corporate Responses to Black Lives Matter – Melissa D. Dodd e Asianna Elston, University of Central Florida; Actions Speak Louder Than Words: Comparing the Effects of Different Corporate Social Justice Statements – Hao Xu and Bugil Chang, University of Minnesota Twin Cities)

14 – A marca não pode ser nem parecer oportunista

Diversos estudos demonstraram preocupação com a percepção dos públicos sobre o lado político da comunicação das marcas durante a pandemia. Algumas campanhas foram acusadas de promover uma determinada agenda política, e foram percebidas como oportunistas. Hoje, o grande desafio para os profissionais de comunicação é descobrir as formas mais adequadas de continuar se comunicando com seus públicos sem parecer oportunista, como se estivesse tentando capitalizar a tragédia. 

Como falamos sobre a pandemia? Como é essa nova realidade? Qual é o lugar da marca neste novo mundo? Newsjacking é uma prática popular na comunicação – profissionais pegam carona em tendências e usam isso para a publicidade gratuita para ter mais engajamento na mídia social. Mas, com os estudos apresentados, percebeu-se que em situações de eventos trágicos, como a pandemia, pode ser uma estratégia bem problemática, pois os públicos podem perceber as ações da marca como oportunistas. 

Já o Brand Activism (ou Brand Standing) é a prática de se posicionar sobre uma questão social ou política controversa. O ativismo de marcas precisa ser autêntico, caso contrário, as empresas podem ser acusadas pela incoerência entre suas narrativas e suas ações. Além disso, deve estar alinhado com a missão geral da organização e suas ações. O absolutismo do posicionamento das marcas sobre uma questão também apresenta alguns riscos e a empresa corre o risco de perder alguns grupos de públicos que não compartilham os valores declarados pela empresa. Fica a reflexão: é aconselhável fazê-lo? E qual seria a forma responsável de uma empresa se posicionar sem contribuir para a crescente polarização da sociedade nesta situação final? (Normalizing the New Reality: Newsjacking, Brand Activism, and Something In-Between – Ekaterina Bogomoletc, North Carolina State University; Citizen Brand: The Emergence of Brandstanding as Organizational Engagement, Voice, and Civic Duty – Luke Capizzo, James Madison University)

15 – Públicos apoiam empresas que possuem ações reais de responsabilidade social e ambiental 

A responsabilidade social e o ativismo corporativos estão se tornando parte do core business das organizações, isso porque, cada vez mais, as pessoas querem trabalhar para empresas que atuem nesse sentido. (Engaging Employees through Corporate Social Responsibility Programs–Aligning Corporate Social Responsibility and Employee Engagement – Paula Bernardino, Credibility Institute)

Os resultados de ações concretas em RSC também podem ser medidos pelo maior apoio junto aos stakeholders. Empresas com atuação forte em questões ambientais, por exemplo, obtêm maior apoio de seu público. O grau de engajamento de uma pessoa depende do quanto ela conhece sobre o problema e se o problema tem ligação com sua história pessoal. 

Quanto maior o conhecimento e a relevância pessoal do tema, maior a probabilidade de um alto engajamento ser observado. A recomendação é de que as empresas façam pesquisas com seus públicos de interesse para saber em quais ações de Responsabilidade Social Corporativa devem investir, de acordo com as reais necessidades de seus públicos de relacionamento, para melhor atendê-los e engajá-los nas transformações. (Examining the Role of Issue Salience and Issue Proximity on Consumers’ Supportive Behavior Related to Environmental CSR Initiatives – Nandini Bhalla, Washington and Lee University). 

Outras corporações têm conseguido inclusive engajar as pessoas para ações coletivas, e não apenas pelo boca a boca positivo ou doações, em prol de suas ações. Isso ocorre principalmente em torno de questões altamente polarizadas, nas quais sentimentos compartilhados por um grupo atuam de modo decisivo, inclusive para gerar ações. (Supporting Corporate Social Advocacy through Collective Action: The Role of Shared Group Anger, Efficacy, and Politicized Identity – Anli Xiao e Holly Overton, University of South Carolina)

16 – CEOs ativistas devem ser genuínos em suas narrativas e ações

Uma liderança autêntica afeta as atribuições dos funcionários, o que impacta as atitudes e comportamentos dos colaboradores. Isso é decisivo no caso de um líder ativista. Os resultados mostram que para desencadear atribuição genuína dos colaboradores e, assim, aumentar sua conexão e engajamento com seu empregador – ou seja, conexão de marca, defesa da marca, intenção de ativismo –, os CEOs precisam refletir sua autoimagem, apresentar seu “eu” autêntico, pesquisar objetivamente todas as vozes relevantes e agir com base em valores internos para praticar comunicação de liderança autêntica no ativismo do CEO. (When Authentic Leadership Engages Employees: Testing Mediating Effects of Employees’ Attributions of CEO Activism -Cheng Hong, California State University Sacramento, e Yi Grace Ji, Boston University)

17 – Ativismo não pode ser performance

Se a empresa vai se posicionar frente a alguma causa, o mais importante é que o ativismo não seja meramente performático, em especial, aproveitando-se de movimentos sociais ou ambientais para lucrar com uma causa alheia à organização. O perigo é que isso seja visto como um teatro, uma performance, a partir de um roteiro pré-definido, com dia e hora para começar e acabar, que o que sustenta esse ativismo é, na realidade, uma peça de ficção. Alguns estudos criticaram as ações e posicionamentos de marcas frente ao movimento “Vidas negras importam” (Black Lives Matter). 

A grande crítica dos pesquisadores é que a recente ascensão dos protestos nas redes sociais também dá origem a um ativismo performático, no qual empresas e influenciadores lucram por uma causa. Os resultados deste estudo têm um valor especial para os esforços de profissionais de comunicação para construir legitimidade online em um movimento social, desde que evitem o ativismo performático. Como profissionais da comunicação, temos que estar realmente envolvidos com os indivíduos, escutá-los, entendê-los e, principalmente, fazer uma ação real para gerar alguma transformação na sociedade. 

Identificar a diferença entre influenciadores que apenas teatralizam e entram no movimento para lucrar, para se relacionar com aqueles que, de fato, estão envolvidos em ações concretas. Profissionais de comunicação não podem apenas dizer o que está acontecendo ou replicar as informações para fazer parte de um movimento. Tem que haver algum nível de interação, de co-criação e de ação. (Performative Activism and Public Relations: Theatrics and Validity in Social Media Interaction – Brian Smith e colegas, Brigham Young University). 

A resposta às demandas por uma maior atuação das organizações em questões ambientais e sociais deve estar fundamentada em algum modelo de ativismo corporativo. São tantas as questões sociais a serem consideradas hoje pelas organizações e, por isso, surgem as dúvidas: Quais devem ser apoiadas? Que tipo de ativismo devemos selecionar para trabalhar as comunicações e posicionamentos das nossas organizações? O importante é que qualquer tipo de ativismo precisa levar em consideração o valor relacionado à própria marca e o interesse dos seus públicos. Qualquer ação ativista será uma boa escolha, desde que esteja relacionada aos valores reais da organização, comunicando suas genuínas ações e adequadas ao interesse dos seus públicos. (A Corporate Activism Model of Public Relations: Understanding the Effects of Corporate Activism Type and Activism Motives – Ying Xiong, University of Rhode Island) 

18 – A importância das lideranças femininas

A simples presença de mulheres em papéis de liderança pode ser decisiva para a retenção de jovens talentos femininos (como modelos), mas sua atuação no sentido de criar um ambiente inclusivo para jovens mulheres pode trazer efeitos que ultrapassam em muito os limites da organização, refletindo em suas escolhas de vida. (Closing the Leadership Gender-Gap in Public Relations Starts During the First Five Years of Employment: A Qualitative Analysis of Early-Career Women’s Socialization Experiences – Danielle LaGree e Katie Olsen, Kansas State University)

19 – Redes sociais potencializam crises secundárias pela catarse de emoções 

As mídias sociais também vêm sendo utilizadas como um local para se ter alguma liberação emocional, com o compartilhamento de preocupações, sentimentos, crenças e estresse. Isso é particularmente visível em situações de crises, na pandemia, diante de desastres climáticos, movimentos sociais e ativistas, ou mesmo diante de uma organização que tenha cometido algum equívoco. As pessoas sentem necessidade de postar, comentar, compartilhar, se expressar e fazer parte de algum tipo de movimento e vêm utilizando as redes sociais para isso. 

O que a pesquisa apresentada trouxe foi como construir uma ponte teórica entre a catarse nas mídias sociais e as emoções na comunicação de crises, mostrando que também é possível falar em contágio de emoção em situações de crises nas mídias sociais, o que aumenta o engajamento da comunicação, e pode gerar crises secundárias. (Catharsis in Crisis Communication on Social Media: How People Process a Crisis with Publics’ Emotions and Secondary Crisis Communication? – Hayoung Sally Lim, University of Texas at Austin)

20 – Alfabetização financeira é desafio para os comunicadores

O tema da alfabetização financeira exige atenção especial por parte dos comunicadores. Um caso típico é o do crédito estudantil – que tende a crescer no Brasil nos próximos anos. O ideal é que faculdades e universidades tracem uma estratégia de comunicação que apresente informações claras e precisas, mesmo a respeito dos conceitos mais básicos, e desenvolvem mecanismos de interação com os estudantes voltados especificamente para questões financeiras. (School Public Relations: An Examination of Student Perceptions on a University’s Financial Aid Office, and its Strategic Communication Strategies – Courtney Colletti, Rowan University)

21 – A ética deve sempre fazer parte das ações de comunicação das organizações

A observação de critérios éticos é decisiva para uma reação positiva de todos os públicos de interesse de uma organização. (Organizational Overclaiming and Underclaiming: Public Perceptions, Reactions, Organizational Reputation and Behavioral Intentions – Anli Xiao, University of South Carolina e Michelle M. Maresh-Fuehrer, Texas A&M University-Corpus Christi).

Critérios éticos também são importantes para o bom funcionamento da comunicação interna e envolvem a necessidade de desenvolvimento de uma escuta ética, com empatia e sensibilidade moral, por parte das lideranças. (Employee Perceptions of Ethical Listening in U.S. Organizations – Marlene S. Neill, Baylor University, e Shannon A. Bowen, University of South Carolina)

 

 
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