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Eu tenho preconceito

Taí uma frase difícil de dizer. Tente. O sensor interno acusa desconforto. Sentimos medo, vergonha ou culpa, e preferimos dissimular. Mas penso que é exatamente nessa negação que sentimentos sombrios fazem seu esconderijo. E ali, no porão das emoções, permanecem reprimidos sem chance de questionamentos e trocas que possam trazer luz, aprendizado e evolução.

Gosto muito do verbete da Wikipédia que define preconceito como “uma opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos, mas unicamente em um sentimento hostil motivado por hábitos de julgamento ou generalizações apressadas.” Leio, releio, e me parece preciso. Sabe aquele sentimento “ah, não vou com a cara dela. Nunca me fez nada, mas…”? Então, isso é preconceito. Ter horror a pessoas com tatuagens, independente de quem sejam, é preconceito. Atitudes são preconceituosas sempre que ignoramos ou menosprezamos pessoas por conta da idade que têm, da roupa que vestem, do país de onde vêm, do bairro onde moram ou do Deus em que acreditam. Indo direto ao ponto: todos nós, em alguma medida, temos preconceito. E está mais do que na hora de falarmos sobre isso.

A mídia, as organizações e as redes sociais felizmente já expõem movimentos em defesa dos negros, das mulheres, LGBTI+ e pessoas com deficiência, porque são chagas sociais enormes e negligenciadas que merecem maior atenção e destaque, porém tenho me dado conta de que é possível encontrar preconceito em quase tudo no nosso dia-a-dia e, na maioria das vezes, de forma velada. Já ouvi gente dizer que não dá para se relacionar com quem ouve pagode. Conheço uma mulher muito especial que para combater o machismo hoje se orgulha de só ter amigos gays. Quase sempre há acusação e rancor, o que torna fácil pendular de um extremo ao outro, invertendo a face da moeda sem conseguir transcendê-la. Estamos todos sujeitos a essas compreensões limitadas e injustas.

Estereótipo, preconceito e discriminação

É preciso deixar bem claro que ninguém carrega ao nascer julgamentos sobre o que quer que seja. A visão e compreensão de cada um são heranças do ambiente e da cultura em que não se escolhe nascer.  Até um ano de idade percebemos do mundo vultos, formas e movimentos. A presença, exemplo e linguagem das pessoas que nos cercam criam, a partir da comunicação complexa, um repertório de significados: mãe, cadeira, carro, cachorro. Bonito, feio, gostoso, perigoso. Isso pode, aquilo sim, esse jamais. Homem não chora, mulheres são frágeis, negros são perigosos, pobres não se esforçam o suficiente, gays são pervertidos, ricos são do mal, aquele grupo é inimigo.

Há julgamento contra quase tudo, constato em mim mesma. A tendência inconsciente que temos de julgar a partir de nossas referências formam os estereótipos, fruto de generalizações apressadas: judeus são isso, jovens são aquilo, gordos são assim, “peruas” são assado. O preconceito se instala quando essas “convicções compulsivas” não fazem concessão e não dão trégua. É comum que resultem em atos de discriminação, essa dimensão ainda mais nociva, que usa o poder e a escolha para impor desigualdade de condições, prejudicando outros, com base em crenças infundadas. É possível não promover um funcionário porque ele quase nunca é pontual, apresenta resultados abaixo do contratado ou tem comportamentos inadequados.  Isso faz sentido.  Discriminação, no entanto, é quando esta decisão é tomada com base em uma percepção totalmente subjetiva.  A promoção não chegará agora, ou não terei consideração, porque ela é negra, porque ele é gay, porque é da periferia, porque não é meu amigo, porque votou no político que eu não suporto, por que o concorrente ao cargo é japonês ou sei lá porquê. É preciso aceitar que isto acontece com muito mais frequência do que temos consciência.

É essa complexidade que torna possível que um gay que luta pelos seus direitos, não se dê conta de um possível preconceito contra as mulheres ou pessoas com deficiência. Da mesma forma que uma mulher defenda seus direitos sem qualquer compaixão pelos pobres ou ignorantes. As combinações são muitas e corremos o risco de validar somente as nossas. Mas isso não é coerente se partimos do principio que é possível encontrar pessoas mais ou menos honestas, mais ou menos inteligentes, mais ou menos responsáveis ou amorosas em qualquer dos grupos que insistimos em catalogar. A diversidade é humana – cada um de nós é único – e qualquer tentativa de generalização é uma forma de exclusão.

“Nada pode ser amado ou odiado antes de ser compreendido” Leonardo da Vinci

Somente a comunicação, a consciência e a compaixão podem nos libertar da carga que carregamos. Enquanto falar sobre nossos preconceitos for um tabu não poderemos compreender o que acontece em nós e em nosso entorno com naturalidade. Aceitar que pontos de vista perderam a validade e não servem mais. Superar o preconceito contra o preconceito é o primeiro passo para nos autorizarmos a falar dessas sombras não apenas com aqueles que pensam como nós e reforçam nossas percepções limitadas. É preciso ouvir a diferença de um lugar onde nos autorizamos a sermos influenciados. Este é o verdadeiro diálogo. Uma troca que não busca vencer ou convencer, mas busca a compreensão, permitindo que o outro nos toque com sua verdade e, nessa “química humana” celebrarmos a transformação mútua.

É urgente provocarmos esta conversa. Nas organizações, escolas, famílias, grupos de whatsapp e na mesa de bar. Vivemos na aldeia global e esbarramos com gente de todos os cantos, costumes, línguas e credos. Na “rede-peão” o que pareciam ser julgamentos inofensivos e sem relevância, inundam contextos e fazem surgir mais e mais frentes de conflitos ideológicos e posições extremadas. Nossa evolução como humanidade depende de uma comunicação restaurativa que considere nosso mundo globalizado, complexo e interdependente.

Diversidade é condição, impossível ignorar. Inclusão é escolha. Carece de intenção e coerência. Dá mais trabalho, eu bem sei, mas é tudo o que precisamos agora.

Eu tenho preconceito. Você também. Esta conversa não pode mais esperar.

Vânia Bueno
Vânia Bueno
Vânia Bueno é uma comunicadora que escolheu o desenvolvimento humano e organizacional como área de interesse. Fundadora da Anima Convivência Produtiva, atua como professora, consultora e facilitadora em processos de coaprendizagem. É jornalista, com mestrado em Organizational Development and Positive Change pela Case Western Reserve. Tem formação complementar em práticas de Diálogo, Transformação de Conflitos, Práticas Colaborativas, Ética Aplicada. É professora convidada para cursos de pós-graduação FIA/USP, ECA/USP, UFSCar, ESALQ/USP, do MBA Aberje. Membro voluntário de comissões do IBGC - Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

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