Master Series Communication: Odisseia da Comunicação, com Vânia Bueno (Parte 3) publicado em: 03/07/2020

Por Aurora Ayres

Para debater o tema “Liderança, cultura e gestão de mudança nas redes sociais corporativas”, a Escola Aberje de Comunicação em parceria com o Workplace from Facebook realizou, no dia 17 de junho, o primeiro módulo online do programa Master Series Communication, que segue com mais três módulos ao longo do ano.

Vânia Bueno

Odisseia da Comunicação: da caverna à rede

O primeiro módulo online do programa Master Series Communication contou ainda com a aula da comunicadora e mediadora do curso Vânia Bueno. A videoconferência foi realizada depois do keynote com Abby Guthkelch e Paloma Redondo, que atuam na Comunicação do Workplace e do Facebook, seguida da apresentação do Case Raia Drogasil com Lilian Kao, gerente de Comunicação da RD.

Durante 20 anos, Vânia Bueno atuou em sua agência de comunicação vivenciando vários momentos da comunicação nas estruturas organizacionais até que teve um insight, durante uma reunião de briefing. Naquele instante, descobriu que precisava mudar o foco de seu trabalho. Isso aconteceu há 11 anos. De lá pra cá, a comunicadora passou a divulgar marcas e empresas no mercado, auxiliando as empresas a ‘serem’ mais do que só ‘parecerem’. É como ela define o que faz.

Considera esta mudança como um processo de evolução, pois tudo o que havia aprendido em sua trajetória de comunicação corporativa, passou a direcionar também para o desenvolvimento humano, de líderes e organizações. Nos últimos 14 de anos investiu fortemente em formações complementares em metodologias de diálogo, transformação de conflitos, práticas colaborativas, inteligência emocional e ética aplicada e transformou seu trabalho também em uma causa que defende desde então. “Sem comunicação não dá. Não dá para se relacionar, não dá para inovar, não dá para crescer, não dá para vender, não dá para comprar”, argumentou. 

Mas isso não é de hoje, prossegue Vânia: “alguém já tinha descoberto isso há 40 mil anos quando tentou deixar, numa caverna, um registro de como vivia, de como era a comunidade. Vemos que essa necessidade de comunicar é inerente ao humano. E o fato de conseguirmos nos comunicar nos trouxe da caverna à rede”, ponderou.

A comunicadora fez os participantes refletirem sobre o momento atual, de grande transição em que as mudanças são abrangentes, profundas e irreversíveis sendo a comunicação o centro de toda essa transformação. “O coronavírus tem um impacto muito grande nesse processo, mas já estava ocorrendo um movimento de macrotransição. O papel do comunicador é absolutamente relevante agora”, frisou.

Em um tema que não se esgota, Vânia trouxe à aula o que considera mais importante em sua leitura de cenário, partindo do princípio de que a comunicação depende de três pilares básicos: um meio para se comunicar, uma ação comunicativa e um significado para gerar resultado.

Quantas vezes você já recebeu mensagens que sequer abriu?

Nas últimas décadas, houve uma influência enorme de ações comunicativas: jornal, revista, newsletter, mural, e-mail marketing, vídeo, live, entre outras. Sem falar da quantidade dessas ações, que surgem de todos os lados. Mas nem sempre elas surtem resultados. “Até pouco tempo atrás e para muitas empresas ainda hoje, quando um gestor identifica um problema de comunicação, logo pensa em criar mais um meio, ou mais ações. Esse modelo mental de que a qualidade da comunicação tem a ver com quantidade de informação precisa ser quebrado. Precisamos questionar isso com muita seriedade”, enfatizou a comunicadora. 

Investir recurso, tempo e energia em ações que não resultam em absolutamente nada gera frustração. “Quantas vezes você recebeu uma mensagem que sequer abriu? Quando você não abre, houve ausência de significado”, frisou. “Para uma ação resultar, precisa ter significado. A mensagem deve fazer sentido para quem vai recebê-la. Para que haja significado, o receptor precisa estar vinculado àquela ação; e mais, precisa estar vinculado a quem lhe enviou a mensagem, com o ambiente onde isso acontece. Do contrário, a comunicação não se completa”, explicou.

Nesse momento, Vânia focou sua fala na dimensão humana da comunicação. “O que dá significado às coisas é o ser humano. E quando esse significado acontece, como normalmente ocorre numa dinâmica de diálogo, a comunicação de fato se estabelece”, ressaltou. “Diferente dos meios e das ações, que são fixas e imutáveis; nós estamos sujeitos a humores e estados de espírito que mudam constantemente. 

O que acontece fora e dentro de nós nos impacta e diferencia a nossa disponibilidade e a nossa abertura. Nas redes sociais, lidamos com pessoas que têm limites, visão de mundo, disponibilidade e humores diferentes, o que torna a nossa comunicação muito mais complexa”, advertiu. 

Nosso mundo é do tamanho da nossa linguagem

Palavras soltas nada significam se não tiverem um significado para quem as escuta.  Desde os primeiros anos de vida, o ser humano cria o seu próprio repertório de significados para tudo o que vê, pensa e sente, a partir do que o outro lhe apresenta. E tudo isso ocorre por meio da linguagem. “Foi a linguagem que nos trouxe até aqui. Nosso mundo é o tamanho da nossa linguagem, já dizia Wittgenstein”, frisou Vânia.

Mas, para além de nomear coisas, as pessoas também nomeiam sentimentos. O interessante aqui é que muito disso também vem dos outros. “Se eu choro muito, posso receber um input de fora de que sou muito sensível e isso que até então não tinha nome para mim, chamo agora de sensibilidade. Mas, se alguém disser que chorar é fraqueza, é desse jeito que isso passa a fazer parte do meu repertório e é assim que me relacionarei com o mundo. Tudo fica registrado no meu repertório a partir do que eu recebo de fora. Então, se eu vejo alguém chorando, posso dizer que a pessoa é fraca ou que é sensível. Depende do meu repertório”, exemplificou.

A comunicação cria as fronteiras de como alguém está no mundo, mas a partir das palavras, pode-se libertar desses limites. “Os pré-conceitos, os pressupostos ou as certezas que defendemos como se fossem nossas, são heranças. Não necessariamente eu criei aquele conceito. Eu vou me relacionar com esse repertório até que eu mesma possa observar e transformar a minha visão de mundo, a minha linguagem, a forma como crio narrativas, assim como a de outras pessoas e até de grupos. Tudo usando meios, ações e significados”.

As lentes de cada um

Cada pessoa vivencia suas próprias experiências a partir de um conjunto de lentes que é só dela. “São as influências culturais e a compreensão que temos sobre elas, que determinam e nos fazem ser quem somos. A diversidade é humana”, frisou Vânia, lembrando que nas relações humanas o óbvio não existe. “Isso é um problema, pois a gente costuma achar que o outro vê o mundo com as minhas lentes, que ele sente o que eu sinto. É uma tendência natural do ser humano”.

Ao trazer a falta de obviedade para o universo da comunicação corporativa, a especialista lembrou que houve um tempo em que o que prevalecia na comunicação eram as macro narrativas (jornais, revistas, ações de comunicação), ou seja, o discurso oficial. “Os comunicadores tinham um papel muito claro, pois definiam meios e ações. Então tínhamos um certo poder sobre o que se produzia e o que se distribuía”, relatou.

Acontece que sempre existiram as micronarrativas, conhecidas como ‘rádio peão’, conversas paralelas de funcionários que questionavam e, muitas vezes, até negavam o discurso oficial da empresa. “Com a chegada da internet, essa configuração mudou completamente e o que era ‘rádio peão’ virou ‘rede peão’. Esses mecanismos internos de distribuição de macronarrativa ainda existem, mas a dinâmica entre elas mudou totalmente. Hoje, temos uma nova distribuição não só de informação, mas uma nova distribuição de poder. O poder que estava concentrado sob a decisão de alguns agora é de todos, é anônimo. Essa dinâmica mudou o papel dos comunicadores, pois agora todos são comunicantes. Todo mundo comunica o que quer, do jeito que quer, multiplicando e compartilhando” acentuou.

Comunicação é comportamento

Ao sair da teoria ‘matemática’ em que há um emissor, um receptor e um meio, Vânia revelou ter se ‘libertado’ diante da teoria da nova comunicação, de Gregory Bateson que defende que comunicação é praticamente sinônimo de comportamento. “Todo comportamento comunica. Como não existe forma contrária ao comportamento (não-comportamento), também não existe não-comunicação. Então, é impossível não se comunicar”. “O que nos resta é escolhermos se nos comunicamos melhor ou pior, com mais ou menos consciência dos impactos que recebemos e produzimos”, refletiu.

Em sua análise, a especialista enfatizou que as pessoas são sempre maiores e mais complexas do que o papel que desempenham numa empresa. “Temos tido uma cultura muito focada em gerir papéis, o que nos leva a dimensões muito limitadas. Alguém motivado tem mais a contribuir. O papel da liderança é bem importante neste momento de transição em que não basta ter um novo meio, pois o fato de uma empresa possuir uma rede social corporativa não significa que a corporação tem uma cultura inclusiva, aberta, dialógica”, comentou. 

Na visão da especialista, as empresas devem investir na qualificação de seus comunicadores. “Precisamos elevar a comunicação para um outro patamar de prioridade dentro das organizações. Devemos atuar em nível da governança, ter lugar nos conselhos, para ajudarmos as empresas a pensar comunicação de forma mais abrangente e estratégica. Nós comunicadores somos co-criadores de significado”, argumentou.

Relatório do Fórum Econômico Global de 2020, mostra que a percepção global é a de que até 2030 será preciso capacitar mais de um bilhão de profissionais. Até 2022, espera-se que 42% das habilidades básicas necessárias para a execução de tarefas existentes sejam alteradas. O relatório aponta como prioridade desenvolver habilidades interpessoais e comunicação figura entre as três mais relevantes e que estão em falta. Boa comunicação é um dos atributos mais procurados pelas corporações e já figura como grande diferencial competitivo. 

Neste momento de pandemia, a especialista lembrou que comunicação é o alimento das relações e convidou todos a fazerem a dieta e ‘assepsia’ da comunicação, alertando sobre a necessidade de avaliar se uma informação alimenta ou intoxica um relacionamento, antes de compartilhá-la. “Tomem cuidado com o que vocês colocam no ‘prato’ do outro. E com aquilo que recebemos em nossos ‘pratos’. Não precisamos consumir tudo. Observe se aquela ação nutre ou intoxica, você e os demais”, recomendou. “Sem comunicação não há desenvolvimento e não há inovação. Tudo passa pela prática da comunicação”, complementou. 

No encerramento da Master Class foi realizado o pré-lançamento da Jornada de Coaprendizagem “Sem comunicação não dá!”, uma parceria entre a Escola Aberje e a Anima Convivência Produtiva, empresa de Vânia Bueno. A proposta pretende oferecer em 11 encontros interativos, conversas produtivas para o aprofundamento dos temas trazidos nesta aula sobre prática de diálogo, transformação de conflitos, inteligência emocional, inclusividade, inovação comportamental e empresarial, relacionamento intergeracional, entre outros, sempre com foco na busca de significado na comunicação consigo mesmo, com o outro e com o mundo. O projeto está sendo cocriado de forma colaborativa com os participantes. Para receber mais informações sobre a jornada basta se registrar em: http://bit.ly/semcomnaoda.

Princípios para uma comunicação melhor

Comunicação não o que você diz, é o que o outro entende.

“A comunicação só ocorre de fato quando o outro entende o que eu digo. Portanto, é papel do líder e da comunicação corporativa, como comunicante, estar atento de que comunicação não é o que você diz, é o que o outro entende. Se você tem algo importante a dizer, a responsabilidade de entendimento do outro é sua. E também é sua a responsabilidade de perceber em que momento, em qual contexto e com qual linguagem você vai comunicar. E depois, confirmar se o outro entendeu. A responsabilidade não é do ouvinte; cabe ao comunicador consciente perguntar: fui claro? E não: você entendeu?”

Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos.

“Isso ocorre por conta do nosso conjunto de lentes. Não existe uma verdade absoluta porque as pessoas têm lentes, valores e referências diferentes que fazem parte de seu repertório, construído ao longo da vida. 95% do tempo não temos consciência de que esse repertório está operando. A gente acha que está escolhendo, a gente pensa que tem a própria opinião sobre algo, mas, na maioria das vezes, estamos apenas reproduzindo um padrão conhecido, e isso é perigoso nas relações. Temos que prestar atenção nas lentes que o outro usa para que eu possa falar de forma que ele compreenda. Isto é empatia”.

Todo ponto de vista é a vista de um ponto.

“Como cada um tem sua lente única e naquele momento e circunstância, assume um ponto de vista. O que você vê, percebe e sente são verdadeiros, são legítimos, podem e devem ser levados em conta, mas não podem ser assumidos como sendo toda a verdade. Nossas certezas são muito perigosas para a comunicação. Uma mesma experiência pode ser marcante para um e traumática para outro, apenas porque o outro é diferente e, mais do que isso, está sujeito a mudar de opinião horas depois. Essa é a dimensão da complexidade da comunicação que não cabem no meio nem na ação, apenas a partir do significado que criamos e compartilhamos”.

Leia a parte 1: Master Series Communication: “Liderança, cultura e gestão de mudança nas redes sociais corporativas”

Leia a parte 2: Master Series Communication: Case Droga Raia, do tradicional ao digital em três meses

Agenda

As inscrições dos próximos módulos estarão disponíveis em breve. Confira a programação completa no site: https://workplacecommsprogram.splashthat.com/

Módulo 2: 8 de julho. “Como identificar influenciadores internos, gerar colaboração e engajamento e fortalecer a marca empregadora”. Inscrições: bit.ly/MasterClass-08julho

Módulo 3: 4 de agosto. “Novas narrativas para o posicionamento da marca empregadora em redes sociais corporativas.”

Módulo 4: 26 de agosto. “As novas tecnologias como aliadas da comunicação interna: como fazer um planejamento para mídias sociais corporativas.”

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