Em entrevista a O Globo, diretor-executivo da Aberje fala sobre seu novo livro

Em entrevista publicada na edição desta segunda-feira (16) d’O Globo, Hamilton dos Santos, diretor-executivo da Aberje, discute seu novo livro, “Contra a transparência” (Editora Iluminuras), e comenta o papel atribuído à transparência na sociedade contemporânea. A conversa examina como o conceito passou a ocupar lugar central no debate público ao longo da última década, tanto no ambiente corporativo quanto na esfera política, nas plataformas digitais e nas relações pessoais.
Na entrevista, Hamilton argumenta que a transparência, um princípio fundamental para o funcionamento das instituições democráticas e para a governança nas organizações, passou a ser tratada como um valor absoluto. Segundo ele, a difusão dessa ideia transformou a transparência em uma espécie de imperativo moral, associado automaticamente a noções de ética, verdade e legitimidade.
“O título do livro procura justamente interromper essa evidência automática e convidar o leitor a refletir criticamente sobre ela. A intenção não é negar a importância da transparência e, sim, questionar o modo como passou a ser tratada como um valor absoluto”, afirmou ao jornal.
Hamilton também analisa os efeitos culturais e sociais de uma lógica baseada na exposição permanente. Para ele, a ampliação das possibilidades de visibilidade proporcionadas pelo ambiente digital intensificou dinâmicas de vigilância recíproca entre indivíduos, organizações e governos, ao mesmo tempo em que estimulou a divulgação constante de aspectos da vida pessoal.
Hamilton sustenta que a busca por uma transparência total pode gerar paradoxos e produzir efeitos indesejados nas relações sociais. Um dos principais, segundo o autor, é o enfraquecimento da confiança, elemento que, para ele, desempenha papel central na sustentação das instituições e na convivência social.
“Pode parecer paradoxal, mas a confiança pressupõe sempre um grau de não saber. Se tudo precisa ser permanentemente exposto, verificado e monitorado, é sinal de que já não confiamos mais”, explica.
Hamilton também observa que a transparência institucional permanece indispensável em áreas como a administração pública, o funcionamento das democracias e a prestação de contas por parte de empresas e governos. No entanto, sua expansão indiscriminada para todas as dimensões da vida social pode produzir uma cultura marcada pela vigilância permanente.
“A transparência pode ajudar a sustentar a confiança em certos contextos institucionais, mas não pode substituí-la. Uma sociedade que acredita poder funcionar apenas pela exposição total e pela vigilância permanente está revelando que perdeu a confiança em si mesma”, afirma.
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