Negócios em tempos de solidariedade
01 de junho de 2020
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Há dois caminhos sendo trilhados por empresas engajadas no combate à pandemia: a solidariedade e a reinvenção do negócio. Ambos são válidos e comungam do propósito de reduzir os danos durante a crise. Em Portugal, que ganhou destaque na imprensa internacional pela forma com que conduziu a pandemia, a solidariedade mostrou-se como um esforço de guerra. Faltou desinfetante para bombeiros e equipas da saúde? Cervejarias dispuseram-se a ajudar sem qualquer custo na produção de álcool em gel e doá-lo aos profissionais na linha de frente ao combate ao Covid-19. A Bolsa Alimentar, que garante sustento para centenas de famílias em situação carente, precisa de reforço? Supermercados concorrentes uniram-se na doação de alimentos. E assim essas empresas devolvem para a sociedade aquilo que a sociedade fez por eles adquirindo seus produtos e serviços. “Há dez anos, escolheram-nos. Quero dizer obrigado. Se precisar, pegue grátis o que encontrar nesse cesto”, anunciou, dias atrás, um pequeno mercado italiano.

São ações que encantam e ficarão na memória de muitos. Desaparecerão após a pandemia?

E quanto às empresas que adaptaram rapidamente sua produção para atender uma nova e urgente demanda? Mantiveram empregos, renda e um propósito aos colaboradores, algo cada vez mais procurado pelos profissionais mais jovens, tão difíceis de atrair e reter. Para termos uma ideia dessa situação em Portugal, entre 2014 e 2019, segundo dados do Observatório da Emigração, mais de meio milhão de jovens portugueses deixaram o país em busca de melhores oportunidades no estrangeiro.

Como as empresas farão a transição de uma demanda urgente para a nova normalidade que se anuncia? A responsabilidade social corporativa está na origem de muitas empresas familiares portuguesas, que nasceram com um propósito. Nem sempre, porém, essa missão inicial se manifesta em momentos difíceis como o atual. Às vezes fica na intenção ou escondido sob iniciativas tímidas que não dialogam com seus públicos nem inspiram outros a fazerem o mesmo. A crise fez com que elas assumissem esse protagonismo.

A crise também obriga a todos a redescobrirem seu propósito, porque empresas são forças de mudança primordiais da sociedade. Guerras, revoluções e pandemias aceleram processos pelos quais todos podemos ser beneficiados. É a oportunidade dessas empresas posicionarem-se, de fato, como socialmente responsáveis. Isso coloca a organização em um patamar de notoriedade, principalmente entre os consumidores mais jovens e mais exigentes com a sustentabilidade nos negócios.

As empresas mais valorizadas serão aquelas que compreenderem o que é ser socialmente responsável na sua essência, com atitudes coerentes, consistentes e que causem impacto social positivo na sociedade.

A pandemia reforçou a importância do coletivo e a conexão entre os diferentes atores sociais. A ideia do lucro a qualquer custo e que a empresa não deve retribuir para a sociedade os seus ganhos está fadada ao fim. Quem persistir nesse erro compromete sua imagem e reputação com graves consequências mercadológicas e no mundo corporativo pós-pandemia.

A experiência de fazer o bem precisa ser ampliada. É preciso defender que a história atual abre uma estrada para ações mais eficazes de engajamento desde já, e que continuem quando tudo passar. A retomada econômica em Portugal, como no resto do mundo, ainda é uma incógnita, mas dependerá de decisões que estão sendo tomadas agora.

A pandemia nos deixou diante de um inimigo em comum, obrigando-nos a somar esforços para buscar uma solução. Mas as carências são muitas e persistem como ameaças ao bem-estar geral. As empresas portuguesas que enxergam essas lacunas e as levam em conta já acenam para o mundo com um novo jeito de fazer negócio.

 
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