Liderança, gênero e cultura do cuidado: o desafio além do discurso

Cuidar das pessoas já é tratado como competência importante no discurso das organizações. Mas ainda existe um ruído quando olhamos para esse cuidado na prática: 64,2% das mulheres e 78,6% dos homens concordaram que ele ainda pode ser visto como fragilidade no ambiente corporativo. Ao mesmo tempo, o cuidado também é amplamente reconhecido como prática essencial para o bem-estar individual e coletivo, com alta concordância entre ambos os grupos – 92,6% entre elas e 100% entre eles.
Esses são alguns dos resultados da pesquisa “Liderança, Bem-Estar e Igualdade de Gênero”, realizada pelo Comitê Alumni FGVnianas na Liderança em 2026, o primeiro comitê interescolas da FGV voltado ao debate sobre igualdade de gênero, idealizado e liderado por Vera Regina Meinhard.

O paradoxo revela uma contradição do trabalho atual: enquanto lideranças defendem perfis mais humanos, muitos continuam escondendo vulnerabilidades e adoecimentos. A 7ª edição da “Pesquisa Inteligência Emocional e Saúde Mental no Ambiente de Trabalho”, da The School of Life, mostra que 73% das lideranças não comunicam à própria liderança o uso de medicação psicofarmacológica.
Após 25 anos atuando como executiva do Groupe Renault France, Vera se tornou pesquisadora e consultora em gestão de cultura organizacional e igualdade de gênero. No livro “Vamos Voar Juntas?”, aborda o machismo estrutural e seu impacto na carreira e bem-estar das mulheres.
Na entrevista a seguir, ela reflete sobre os impactos dessa cultura corporativa, que ainda associa cuidado à fragilidade, na saúde mental das lideranças.
Nessa pesquisa, 92,6% das mulheres e 71,5% dos homens acreditam que lideranças ainda associam o cuidado mais às mulheres. Por quê?
Vera Regina: É importante entender que as organizações não estão separadas da sociedade. Pessoas reproduzem crenças e padrões culturais aprendidos desde cedo.
Ainda vivemos uma educação binária, que ensina o que seria “coisa de menino” e “coisa de menina”. Isso também atravessa as organizações. Cuidado ainda é considerado coisa de menina.
A sociedade é androcentrista e posiciona a perspectiva masculina como padrão universal da experiência humana. Competências ditas do masculino – historicamente associadas aos homens, como direcionamento, performance e competição – seguem sendo mais valorizadas. Já cuidado, escuta, colaboração e gestão emocional, ditas do feminino e historicamente associadas às mulheres, ainda são vistos como secundários ou até como fragilidade.
Na maioria das organizações, essas competências ainda são tratadas como opostas, mas deveriam funcionar juntas. Sem cuidado geramos relações frágeis, burnout e ambientes tóxicos. E o cuidado sem exigência de resultado destrói o valor da organização.
As lideranças precisam aprender a integrar essas competências para fortalecer resultados e relações.
Enquanto o cuidado continuar sendo tratado como “coisa de mulher”, ele dificilmente será legitimado como competência estratégica dentro das empresas.
Mesmo com o avanço do discurso sobre saúde mental, muitas lideranças seguem adoecidas e silenciosas dentro das organizações. O bem-estar virou prioridade real ou ainda está mais no discurso corporativo?
Vera Regina: Hoje, existe um discurso muito forte sobre saúde mental, liderança humana e bem-estar. Mas quando uma liderança não consegue dizer dentro da organização que está adoecida, fazendo terapia ou usando medicação, a cultura real da empresa aparece.
A mensagem que essa pessoa recebe é: “Se você demonstrar fragilidade, pode ser considerada fraca.”
E isso é ainda mais grave porque estamos falando da própria liderança. Se quem ocupa essa posição sente medo de parecer frágil, essa cultura vai se reproduzir para toda a organização.
Quando alguém entra em burnout e perde espaço, a empresa mostra que o cuidado não é valorizado. Isso acontece porque ainda prevalece um modelo centrado em performance e resistência emocional.
O desafio agora é entender que autocuidado, gestão emocional, aceitação das vulnerabilidades e saúde mental não podem ser tratados como ameaça aos resultados da organização. Eles precisam ser reconhecidos como competências essenciais da liderança.
Qual é o custo invisível dessa lógica para as empresas?
Vera Regina: Essa lógica empobrece as lideranças e fragiliza relações organizacionais.
Quando uma organização valoriza exclusivamente resultado, competição e produtividade, cria ambientes de pressão contínua, baixa autorregulação emocional e relações frágeis. E isso aparece diretamente em burnout, adoecimento e queda de engajamento.
O engajamento mundial caiu pelo segundo ano consecutivo e está em 20%, de acordo com a Gallup.
Segundo o “State of the Global Workplace 2025”, esse baixo engajamento custou à economia mundial US$ 438 bilhões. Um engajamento total adicionaria US$ 9,6 trilhões em produtividade à economia global.
As organizações estão exigindo habilidades relacionais, inteligência emocional e capacidade de gestão humana sem terem criado culturas que sustentem isso. Precisamos tratar as crenças de gênero para desenvolver lideranças capazes de integrar essas dimensões sem hierarquizá-las por gênero.
A pesquisa mostra maior concordância das mulheres na afirmação “costumo assumir responsabilidades que não são minhas”. O que esse dado revela sobre a distribuição do cuidado e como isso afeta a vida das mulheres em posições de liderança?
Vera Regina: Isso revela algo que começa muito antes do trabalho. As mulheres continuam assumindo maior carga mental e responsabilidade pelo cuidado na vida doméstica. E esse padrão acaba sendo transportado para o ambiente profissional.
As mulheres foram socializadas para cuidar da logística emocional e operacional das relações. Isso gera sobrecarga e impacta diretamente suas carreiras, pois tendem a assumir responsabilidades extras.
Ao assumirem o operacional e o suporte, deixam menos espaço para se ocuparem da carreira e ocupar posições estratégicas e de visibilidade.
Quando discutimos mulheres na liderança, saúde mental e cultura organizacional, precisamos olhar para a distribuição do cuidado dentro e fora das empresas.
85% das lideranças intermediárias relatam esgotamento (The Burnout Risk: Strengthening Your Midlevel Leaders – HBI – 2025), o que precisa mudar primeiro: a liderança ou as condições que as empresas criam para ela atuar?
Vera Regina: Mudança cultural exige mais do que treinamento pontual. Exige diagnóstico, revisão de processos e mudanças reais nos critérios de reconhecimento dos comportamentos valorizados pela empresa.
A liderança precisa aprender e praticar novas formas de gestão. Quando uma organização diz que valoriza cuidado, mas recompensa exclusivamente performance individual, reforça exatamente a cultura que diz querer mudar.
Hoje, meu trabalho nas empresas envolve justamente esse processo de transformação cultural, do diagnóstico à prática.
O ponto crucial é conscientizar a alta liderança sobre seu papel nessa questão. A empresa não é abstrata; ela é formada por pessoas. As decisões que moldam a cultura organizacional são tomadas pela liderança.
É a alta liderança que precisa rever suas crenças e comportamentos no dia a dia. Cuidado não é fragilidade, é competência estratégica. E liderança humana não é discurso, é prática cotidiana.
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