A linguagem e o clima

Na política climática, as palavras são essenciais. Termos que parecem neutros — como “crescimento”, “inovação” ou “custo” — moldam percepções e orientam decisões. A pesquisadora Genevieve Guenther, em The Language of Climate Politics, mostra como esse vocabulário dominante funciona como propaganda da economia fóssil: desloca responsabilidades, minimiza urgências e transforma o debate climático em questão de eficiência, não de sobrevivência. Até expressões aparentemente inofensivas operam como bodes expiatórios, desviando o foco das potências históricas de emissões. O resultado é uma narrativa que mantém o status quo e retarda a transição.
Reconhecer o poder da linguagem é reconhecer que a comunicação não é neutra — ela estrutura a realidade. No campo empresarial, isso significa compreender que reputação e discurso são indissociáveis: cada escolha semântica comunica valores, intenções e posições políticas. Ao falar de “descarbonização gradual”, por exemplo, uma empresa pode sinalizar prudência ou omissão, dependendo do contexto. A reputação, nesse sentido, não se constrói apenas por conduta, mas pela coerência simbólica entre o que se diz e o que se faz.
Para avançar, é preciso recriar o vocabulário da transição, substituindo eufemismos por palavras que expressem urgência, verdade e responsabilidade. Não basta falar em “sustentabilidade” de modo genérico — é preciso nomear quem promove a mudança e quem sustenta as barreiras. O “nós” inclusivo, quando mal usado, dilui a responsabilidade de agentes concretos. A comunicação precisa, portanto, abandonar a retórica confortável da conciliação e assumir a linguagem da transformação. Na COP30 e além dela, o desafio não é apenas convencer, mas mudar o código que define o que é possível — porque, na crise climática, quem controla as palavras, controla o futuro.
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