Acordos da COP26 devem ser inclusivos e países ricos precisam ajudar nações pobres a cumprir metas
08 de outubro de 2021
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Em webinar da Aberje com Brazil Institute do King’s College de Londres, especialistas apontam elementos necessários para que a Conferência em Glasgow tenha sucesso; inclusão e divisão justa de responsabilidades com objetivos acordados estão entre principais pontos

Em novembro, líderes globais se reunirão em Glasgow (Escócia) para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima de 2021, também conhecida como COP26. Em seminário internacional promovido pela Aberje, como parte de uma série em parceria com o Brazil Institute do King’s College de Londres, estudiosos e representantes do setor privado discutiram as expectativas para o encontro e aspectos da  mudança climática, que representam ameaça à humanidade.

O termo “inclusão” protagonizou o debate, que teve a participação de Juliane Reinecke,  professora de Gestão Internacional & Sustentabilidade na Escola de Negócios do King’s College de Londres; Kat Thorne, diretora de Sustentabilidade do King’s College de Londres e Cristiano Teixeira, diretor Geral da Klabin.

“Os negociadores da COP26 terão um grande desafio para d a algum acordo. Nós sabemos onde queremos chegar, mas como fazer isso é o xis da questão, e também como alcançar esse objetivos de forma justa e inclusiva”, destacou Juliane Reinecke, acrescentando que a proteção ao meio ambiente que temos hoje “não é suficiente”, considerando a extensão e a complexidade da questão climática. 

Juliane Reinecke

Kat Thorne concorda no que diz respeito à importância de que o viés do debate e dos compromissos firmados seja realmente inclusivo. “O Reino Unido, como anfitrião, irá pedir que os países participantes estabeleçam metas mais ambiciosas de redução de emissão de poluentes, para 2030. Obviamente, o que queremos é ver essas metas acontecendo, [que os outros países] as  levem à ação”, disse ela.

Em relação ao que se pode esperar da participação do Brasil, Cristiano Teixeira, da Klabin – a única empresa brasileira na COP26 Business Leaders, grupo formado por dez executivos da iniciativa privada -, diz estar otimista. “Se olharmos o que está na agenda oficial [da conferência], e não nas redes sociais e outros meios, o Brasil reafirma o que ficou acordado no encontro recente ocorrido nos EUA, organizado por Joe Biden. O governo se compromete a zerar o desmatamento ilegal da Amazônia até 2030, e atingir a neutralidade climática em 2050, não mais em 2060”.

Na visão do executivo, se analisarmos os anúncios oficiais, o cenário não é tão negativo quanto o que tem sido falado a respeito.  “Sabemos como diminuir o desmatamento ilegal da Amazônia, já fizemos isso há alguns anos. E se avaliarmos o que foi feito nos últimos 40 anos, pensando em termos do Estado Brasileiro, e não considerando apenas um único governo, estamos bem”, avalia.

Conceito de vulnerabilidade é mito

Para Juliane, a ideia de que países mais ricos são menos vulneráveis às consequências das mudanças climáticas e os países pobres são mais vulneráveis não é verdadeira. “Divulgou-se recentemente que a Suécia, a França, a Finlândia, a Alemanha e os EUA estariam no ranking dos menos afetados, e os que correriam mais riscos seriam Nigéria, Bangladesh, Costa do Marfim, Tanzânia e Tunísia”.

No entanto, para a pesquisadora Kat Thorne, esse conceito é um grande mito. “Todos os países são vulneráveis, e serão afetados pelo aquecimento global.  O Fórum Econômico Mundial estimou que, até 2050, 80% da população global será atingida pelas mudanças climáticas. Ou seja, todos nós somos vulneráveis”, alerta.

Kat Thorne

Na visão da estudiosa, é importante pensar como balancear as responsabilidades de mitigar as mudanças climáticas.  “A grande questão é: como fazer com que os países ricos ajudem os países pobres a progredirem na questão climática?”, questiona Juliane.

Metas de redução de emissões

Questionada sobre o papel das empresas em prol do cumprimento da meta zero de carbono até 2050, atendendo os objetivos do Acordo de Paris, Juliane ressalta que é um compromisso coletivo. “Para garantir o zero carbono em 2050, é preciso limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius. Para isso, em menos de 10 anos, as emissões de carbono devem cair pela metade, essa é uma meta muito ambiciosa”.

“Por um lado, está nas mãos de todos nós, inclusive das empresas, agir para começar a mitigar as mudanças climáticas e evitar que os piores efeitos aconteçam. Mas é uma situação desafiadora, pois exige um compromisso de todos, mas muitas vezes ninguém quer aderir sem que todos os outros tenham feito o mesmo. Por isso, é muito importante que autoridades e governos do mundo todo definam o escopo e as regras, para que isso possa tornar-se realidade”, pondera Juliane.

Ela lembra ainda que, em 2008, o relatório IPCC da ONU estabeleceu o prazo de 12 anos para reduzir o risco da catástrofe da mudança climática. “Ou seja, agora, temos apenas 9 anos. O relatório IPCC de 2021 apenas confirmou que os impactos no meio ambiente estão se acelerando. E, a não ser que tenhamos uma redução drástica de emissões, a meta estabelecida no Acordo de Paris, há alguns anos, de limitar o aquecimento global a 1,5 a 2 graus Celsius, estará fora de nosso alcance”. 

Brasil x Mudanças climáticas

Para Cristiano Teixeira, é fundamental que o Brasil contenha as ações ilegais de desmatamento da Amazônia. “Hoje, representamos 3% da emissão de gases poluentes, estando como o sexto maior emissor no mundo. Estima-se que 50% dessa emissão seja decorrente do desmatamento ilegal da Amazônia. É por isso que precisamos pressionar as autoridades para que inibam  essas ações”, afirma.

Cristiano Teixeira

Mas a principal medida, na visão do executivo da Klabin, é deixar de utilizar o carvão e o gás natural como fontes de energia. “Esse é o passo mais difícil, basta ver a crise de energia que está acontecendo na China. O governo está tentando convencer as empresas a reduzirem o uso de carvão, e apenas esse anúncio já gerou uma crise. Imaginem o que pode acontecer no norte da Europa no próximo inverno, em países como a Alemanha, que depende do gás natural da Rússia?”.

Ele conta que a Klabin tem buscado fazer sua parte em relação à proteção ambiental. “Agimos para neutralizar as emissões de carbono que resultam das nossas operações. Em relação ao COP26, temos buscado dialogar com os representantes brasileiros. Tenho ido a Brasília a cada 15 dias e conversado com negociadores oficiais que irão a Glasgow, para tentar influenciar as autoridades nos pontos que precisamos alcançar, e no que o mundo espera de nós”, explica.

“É preciso conscientizar a iniciativa privada, fazer com que as empresas brasileiras, e do mundo todo, se engajem. Esse compromisso não se esgota no COP26, deve continuar pelas próximas décadas, ou veremos muitas catástrofes decorrentes da mudança climática”, finaliza o executivo brasileiro.

Assista ao webinar na íntegra:

 

 
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