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19 de maio de 2016

Richard Dawkins: transmissão de valores

Aberje
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Nara Almeida

 

Hoje é possível fazer contato com qualquer pessoa no mundo inteiro. É possível aprender com diferentes histórias e culturas, diferentes experiências e dificuldades. As trocas facilitam a evolução pessoal e profissional. Mas nem sempre esse compartilhamento é positivo. “O que vemos, em diferentes culturas pelo mundo, são conselhos passados aos filhos e netos, sejam eles bons ou ruins”, explica o biólogo e escritor britânico Richard Dawkins. “É algo análogo a um vírus de computador, que faz os programas iniciarem comandos de forma autônoma. Conselhos geralmente são positivos. Mas podem ser ruins, como os vírus que dizem ao sistema: ‘Copie-me! Duplique-me! Transmita-me a outros computadores!’. E o computador não tem como identificar ou diferenciar quais desses comandos são bons ou não.” Para Dawkins, o mesmo acontece com os seres humanos. Informações úteis à nossa sobrevivência e conhecimentos técnicos importantes são transmitidos simultaneamente a crenças e comportamentos que podem ser destrutivos.

Richard Dawkins, escritor britânico
Richard Dawkins, escritor britânico

Realidades simuladas e o desafio da consciência

O avanço das redes neurais artificiais tem entusiasmado – e preocupado – os cientistas. O físico britânico Stephen Hawking prevê que a inteligência artificial deve ultrapassar a humana nas próximas décadas. A ficção científica, gênero que Richard Dawkins consome febrilmente, retrata possíveis futuros nos quais a inteligência humana será superada, suprimida ou subjugada por máquinas. Realidades simuladas também serão frequentes – e, se pareciam fantasias desenfreadas anos atrás, hoje não são mais improváveis. “Talvez todos sejamos parte de um grande jogo de computador, possivelmente programado por uma forma de vida alienígena. Essa é uma teoria difícil de refutar”, disse Dawkins durante sua passagem por São Paulo, em maio deste ano.

A dificuldade filosófica de entrar em contato com a consciência subjetiva do outro e a impossibilidade de compartilhar as sensações individuais é uma questão ainda sem resposta na vida dos homens. “Nunca se sabe se a minha experiência de vermelho é a mesma que a sua, ou a minha sensação de gravidade”, afirma Dawkins. “Eventualmente, a ciência deve ser capaz de compreender esse fenômeno extraordinário”, diz, defendendo que todos os fenômenos têm uma explicação. “Mas eu estou muito longe de compreender isso.”

Genes e memes em aceleração

Na comunicação, o termo “meme” é associado ao dia a dia das mídias sociais. O conceito, proposto por Dawkins em 1976, deriva da redução do termo grego mimema, que significa imitação. A ideia é que, tal qual o seu correspondente biológico (o gene), o meme busca criar cópias de si próprio para se disseminar e, dessa forma, priorizar a sua multiplicação. Assim, crenças, comportamentos, hábitos e qualquer coisa que compartilhamos socialmente pode constituir um meme. “O mundo em que vivemos é um mundo cultural que se transforma mais rápido do que a evolução genética”, diz. Se, para a comunicação, é difícil prever os efeitos das mudanças em que vivemos, a biologia evolutiva adiciona ainda mais questões ao tema. As transformações no ambiente – simbólicas ou materiais –, cada vez mais aceleradas, impactam não somente numa provável seleção natural humana em andamento, descrita por Dawkins, mas também na manifestação de características até então ocultas, despertadas pelas condições do novo ambiente. Pequenas mudanças de natureza material, por exemplo, podem ativar efeitos de genes que, sob as condições anteriores, não seriam ativados. A partir dessas mudanças, características novas e já existentes podem surgir ou se expandir.

Programados pelo egoísmo, seduzidos pelo altruísmo

A obra de Dawkins não pressupõe o egoísmo humano, ao contrário de algumas interpretações. “Nossa existência na natureza é programada pelo egoísmo dos genes, que dá origem ao egoísmo ou altruísmo do indivíduo, sob diferentes circunstâncias.” Originalmente, o altruísmo é estimulado em relações de reciprocidade, onde um ganha com o outro. “Individualmente, um leão seria incapaz de abater uma grande presa. Mas um grupo de leões é capaz. Eles cooperam entre si e cada um tem algo a ganhar. Esta é a visão darwinista de altruísmo. Acredito que isso explique o altruísmo na natureza, mas não na sociedade”, diz.

“Nós damos dinheiro à caridade, doamos sangue, sentimos compaixão quando vemos alguém sofrendo ou infeliz. Queremos ajudar pessoas com quem não temos ligação, que nunca mais veremos; indivíduos que não terão como retribuir o favor.” De acordo com Dawkins, assim como no sexo, o altruísmo está relacionado a uma sensação de prazer favorecida pela seleção natural: “Uma sensação de prazer é despertada quando somos generosos, cooperamos e fazemos algo bom a alguém. Essa sensação é análoga à sexual. Originalmente, o prazer causado pelo sexo foi favorecido porque gerava descendentes. E o prazer der ser solidário com alguém foi favorecido pela seleção natural, porque a pessoa com quem cooperávamos poderia ser um familiar ou seria um potencial parceiro para procriação”, afirma. “Hoje, o sexo não precisa gerar bebês, e ser bom não depende da disseminação dos seus genes ou de reciprocidade. Somos bons apenas porque queremos ser, porque temos a vantagem de ser bons; sentimos um desejo de ser agradáveis, análogo à luxúria do sexo.”

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