Da eleição ao LinkedIn: por que a autenticidade virou critério

Antes do segundo turno das eleições deste outubro brasileiro, uma petição com mais de 900 mil assinaturas pediu que o debate presidencial da TV Globo tivesse checagem de fatos em tempo real. A emissora não interveio na transmissão em TV aberta, mas manteve uma equipe de jornalistas conferindo as falas durante o debate, com os resultados publicados em suas plataformas digitais. Agências independentes também fizeram esse trabalho.
O dado que interessa a quem lidera vai além da disputa eleitoral: um público numeroso passou a exigir que a fala pública venha acompanhada de verificação. E, naquele caso, verificar foi trabalho de gente, não de algoritmo. A mesma exigência de credibilidade começa a aparecer em outro ambiente: o das redes profissionais, onde a inteligência artificial ampliou a capacidade de produzir textos, mas nem sempre a de dizer algo relevante.
Desde 30 de julho, o LinkedIn passou a oferecer, no menu de três pontos de cada publicação, a opção “Seems like AI slop”, algo como “parece conteúdo de IA de baixa qualidade”. Quem seleciona a opção deixa de ver aquele post no próprio feed e recebe um agradecimento pelo feedback. Na prática, as denúncias ajudam a plataforma a identificar conteúdos considerados artificiais e a aprimorar seus classificadores. Hari Srinivasan, chief product officer do LinkedIn, também anunciou um aviso privado no painel de métricas dos autores, acionado quando outros membros consideram que o texto publicado soa inautêntico. Ao mesmo tempo, a empresa substituiu o recurso “enhance your post”, que reescrevia textos automaticamente, por um revisor que sugere correções sem alterar a voz de quem escreve.
O critério não é simplesmente identificar a autoria humana ou artificial. É perceber quando uma publicação parece seguir uma fórmula sem apresentar uma perspectiva própria. O problema não está em usar ferramentas para escrever melhor, mas em confundir produção de conteúdo com construção de pensamento.
Isso não significa que todo líder precise publicar constantemente ou transformar as redes sociais em um palco pessoal. Prática enorme… Significa reconhecer que a comunicação pública tem consequências e que construir uma reputação exige mais do que manter um calendário editorial ativo. Frequência sem substância pode até preencher o feed, mas dificilmente vai construir o que foco de uma reputação: confiança.
Terceirizar para um botão o julgamento sobre o que merece ser lido é uma forma de renunciar ao próprio critério, senso de valor e mesmo ao que parece muito simples, mas é essencial: a propriedade de ser o lado que pensa. O fato é que a avaliação sobre a qualidade (em todos os aspectos) de uma ideia não deveria depender exclusivamente de uma atualização de produto, de um classificador ou da reação de outros usuários.
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