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26 de agosto de 2026

Ciclo eleitoral amplia desafios para comunicação e assuntos públicos nas Américas

Conselho Regional da América Latina da Global Alliance analisa eleições no Brasil, Colômbia, Peru e Estados Unidos e efeitos sobre reputação e estratégias empresariais
Mario Bucci
Reunião online da Global Alliance discutiu efeitos das eleições de 2026 nas Américas
 
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Os efeitos das eleições realizadas e previstas para 2026 nas Américas vão além da definição de governos e maiorias legislativas. Mudanças regulatórias, relações comerciais, políticas tributárias, investimentos, disputas geopolíticas e a própria interlocução entre empresas e governos exigem das organizações maior capacidade de leitura política e preparação reputacional. Esse foi o principal assunto da sessão online “O ciclo eleitoral 2026 na América Latina e nos Estados Unidos”, promovida na última quarta-feira (26) pelo Conselho Regional América Latina da Global Alliance. A Global Alliance é a confederação global das principais associações de comunicação. A Aberje faz parte do board da entidade.

O encontro reuniu Dan Doherty, global chair de Corporate Affairs da SEC Newgate, e Thyago Mathias, vice-presidente de Advocacy e Assuntos Públicos para a América Latina da consultoria. A mediação foi de Hamilton dos Santos, diretor-executivo da Aberje e presidente do Conselho Regional para a América Latina da Global Alliance.

Na abertura, Hamilton ressaltou que os ciclos eleitorais produzem consequências para reputação, comunicação corporativa e relações institucionais e governamentais. Ele citou o “Mapa de Polarização 2026”, que será lançado pela Aberje, que investiga a trajetória histórica e conceitual da polarização e analisa como o fenômeno passou do conflito político para uma condição mais ampla da vida social contemporânea, com impactos diretos sobre a comunicação das organizações.

Mudanças políticas redesenham o ambiente de negócios

A análise apresentada por Thyago mostrou uma América Latina marcada por mudanças políticas que envolvem desafios de governabilidade, fragmentação legislativa e pressão pela atração de investimentos. Segundo ele, os ciclos de Colômbia, Peru e Brasil estão entre os mais relevantes para compreender os movimentos políticos e econômicos da região.

Na Colômbia, a eleição de Abelardo De La Espriella por margem inferior a 1% sinalizou uma mudança em direção à direita e uma reaproximação com os Estados Unidos. Para as empresas, Thyago apontou perspectivas de maior interlocução com o setor privado e oportunidades em áreas como petróleo e gás, mineração, infraestrutura, agronegócio e defesa. A estreita margem eleitoral e a divisão do Legislativo, porém, podem limitar a capacidade do novo governo de implementar reformas estruturais.

O Peru combina potencial econômico com instabilidade institucional. A vitória apertada de Keiko Fujimori ocorre em um país que atravessou sucessivas crises presidenciais e confrontos entre Executivo e Congresso. Ao mesmo tempo, suas reservas minerais (especialmente de cobre) e a conexão com o Pacífico mantêm o país relevante para cadeias globais ligadas à transição energética.

Para as organizações interessadas no mercado peruano, a análise destacou um ponto que vai além da política nacional. Conflitos com comunidades e oposição local constituem riscos operacionais relevantes, tornando a licença social para operar e o relacionamento territorial fatores decisivos. Thyago também citou projetos de integração logística entre Brasil e Peru e o interesse de mineradoras europeias e australianas nas reservas do país.

Brasil reúne decisões com impacto regulatório

No Brasil, o alcance das eleições torna o pleito muito relevante para o ambiente empresarial. Em 4 de outubro, os eleitores escolherão presidente, os 513 integrantes da Câmara dos Deputados, 54 senadores (dois terços do Senado), 27 governadores e representantes das assembleias legislativas. Segundo a análise apresentada, a disputa presidencial permanece apertada, com peso relevante de mulheres e eleitores independentes na definição do resultado.

Para as empresas, porém, a eleição envolve também debates capazes de alterar custos, investimentos e modelos de operação. Entre os temas destacados estão as propostas relacionadas à escala de trabalho 6×1, a implementação da reforma tributária e do Imposto Seletivo (sobre bebidas alcoólicas, por exemplo), a regulamentação das bets e os desafios da política externa brasileira diante dos EUA e da China.

A fragmentação do Congresso acrescenta outra variável. Independentemente do resultado presidencial, as organizações terão de acompanhar a composição das duas Casas e sua capacidade de influenciar agendas regulatórias e econômicas. A relação entre Brasil, Estados Unidos e China também tende a permanecer relevante para setores expostos ao comércio exterior, uma vez que a China é um dos principais parceiros comerciais do país.

Empresas precisam se preparar para novos interlocutores

Para os Estados Unidos, Dan Doherty apresentou um cenário em que as eleições legislativas de 2026 podem alterar o equilíbrio no Congresso sem necessariamente modificar a condução da política externa no curto prazo. Todos os 435 assentos da Câmara e 35 das 100 cadeiras do Senado estão em disputa. A pequena margem republicana nas duas Casas aumenta a relevância de um grupo pequeno de estados competitivos (Carolina do Norte, Maine, Ohio, Alaska, Iowa, Texas, Michigan e Georgia), sobretudo na corrida pelo Senado.

Questões econômicas aparecem como principal preocupação do eleitorado. O custo de vida e gastos com saúde, habitação e energia são as principais angústias, enquanto a expansão de data centers e da infraestrutura de inteligência artificial começa a adquirir peso eleitoral devido ao impacto percebido sobre as contas de eletricidade. Segundo a apresentação, diferentes estados discutem restrições ou maior controle sobre grandes instalações, independentemente das divisões partidárias tradicionais (Republicanos versus Democratas).

Uma possível maioria democrata na Câmara também pode ampliar a exposição de empresas a investigações parlamentares. Dan afirmou que lideranças democratas sinalizaram interesse em temas como preços, práticas tributárias de multinacionais, contratos federais, ativos digitais, comércio e tarifas. Companhias estrangeiras com subsidiárias, joint ventures ou interlocução com autoridades norte-americanas podem entrar nesse campo de fiscalização.

Para a América Latina, Dan ponderou que o Executivo norte-americano mantém ampla capacidade de conduzir a política hemisférica, enquanto o Congresso exerce influência mais direta sobre comércio, sanções e poderes relacionados a conflitos externos. Nesse ambiente, decisões empresariais precisam considerar como questões domésticas dos Estados Unidos podem alterar tarifas e relações comerciais com a região.

Ao responder sobre os riscos para CCOs e profissionais de assuntos públicos, Thyago defendeu o fortalecimento da diplomacia corporativa. Segundo ele, empresas podem estabelecer interlocução própria com autoridades e defender seus interesses com maior agilidade, sem depender exclusivamente da atuação dos governos, especialmente em questões comerciais e tarifárias.

Dan associou essa capacidade de atuação a uma definição precisa dos públicos prioritários e ao uso de dados para antecipar impactos reputacionais. “Temos audiências polarizadas e fragmentadas. Para um CCO, é preciso ter muita clareza sobre quais stakeholders realmente importam. Com essa definição e dados confiáveis, é possível se movimentar com segurança”, afirmou.

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