Coalizão Empresarial debate papel das empresas no enfrentamento à desinformação

A atuação articulada das empresas no enfrentamento à desinformação, os mecanismos econômicos que sustentam a produção e a circulação de conteúdos falsos e os impactos desse fenômeno sobre confiança, reputação e diferentes setores da economia pautaram o painel “Confiança em Risco: O papel das empresas no enfrentamento à desinformação”, realizado na última quinta-feira (20), em São Paulo, durante a Conferência Ethos. O debate reuniu Hamilton dos Santos, diretor-executivo da Aberje; Marie Santini, diretora e fundadora do NetLab UFRJ; Marcio Borges, pesquisador do NetLab UFRJ; Isabel Cristina Raupp Pimentel, diretora de Comunicação da Interfarma; Cristina Garambone, diretora-executiva de Comunicação e Sustentabilidade da Abradee; e Cristiano Lobato Flores, presidente-executivo da Abert. Andréa Álvares, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos, atuou como mediadora. A Abradee é associada à Aberje. Aberje, Abert, Abradee, Interfarma e Instituto Ethos, com apoio técnico do NetLab UFRJ, formam a Coalizão Empresarial contra a Desinformação.
Ao abrir a discussão, Andréa Alvares relacionou a disseminação de informações falsas à erosão da confiança, elemento que classificou como fundamental para o tecido social. “A indústria criminosa se beneficia da desinformação”, afirmou, ao observar que a desconfiança produz prejuízos e amplia a exposição da sociedade a golpes.
Marie chamou atenção para a dimensão econômica do problema e para sua presença em áreas que ultrapassam o debate político e eleitoral. Segundo ela, a desinformação é conteúdo falso produzido deliberadamente para interferir na tomada de decisão, seja explorando dúvidas, seja apropriando-se da credibilidade de pessoas e instituições. “Há lucro em cima da desinformação”, resumiu. A pesquisadora descreveu uma indústria organizada, capaz de testar narrativas em aplicativos de mensagens e posteriormente ampliar seu alcance por meio de mídia paga e redes sociais. “Não estamos falando de um fenômeno espontâneo, mas de uma cadeia produtiva estruturada”, afirmou. Marie explicou ainda que esses conteúdos são frequentemente desenhados para maximizar engajamento e conversão econômica, operando com lógicas semelhantes às do marketing digital. “Existe um processo de experimentação constante, em que narrativas são testadas, ajustadas e escaladas conforme o retorno que geram”, disse. Esse ecossistema se sustenta na monetização da atenção e na exploração de vulnerabilidades informacionais.
Marcio reforçou essa perspectiva. “Desinformação é mercado, é atividade econômica”, afirmou. Segundo ele, o tema vem aparecendo entre os principais riscos apontados nas últimas edições do Fórum Econômico Mundial, em Davos. O pesquisador também destacou a vulnerabilidade brasileira diante da combinação entre elevado consumo de informações pelas redes sociais e dificuldades para reconhecer conteúdos falsos.
Para Hamilton, a participação na Coalizão integra um movimento iniciado pela entidade em 2021, em um período de forte disseminação da desinformação no ambiente empresarial. “O papel das empresas nesse combate é imenso, elas são cobradas inclusive pela desinformação”, afirmou. Hamilton ressaltou que organizações podem ocupar posições distintas nesse ecossistema. “Em alguns casos, as empresas são vítimas da desinformação, em outras circunstâncias, são autoras da desinformação, como no greenwashing.” Segundo ele, a tecnologia também pode ser mobilizada no enfrentamento ao problema.
As experiências setoriais apresentadas mostraram como a desinformação assume consequências concretas. Isabel, da Interfarma, citou uma pesquisa segundo a qual 70% da população mundial acreditou em pelo menos um conteúdo de desinformação sobre vacinas. “Desinformação não é problema de comunicação, é um problema de saúde pública. Desinformação mata”, afirmou. Para ela, a Coalizão amplia o diálogo entre empresas e poder público e cria condições para uma atuação conjunta.
Cristina, da Abradee, relatou ocorrências no setor elétrico, como informações falsas sobre apagões e golpes envolvendo contas de energia. “Quando as pessoas podem identificar informações falsas, elas podem lutar por seus direitos”, disse.
Cristiano, da Abert, defendeu o acesso à informação confiável como resposta central ao problema. “O principal antídoto para a desinformação é a informação”, afirmou. Para ele, a expansão acelerada das tecnologias digitais trouxe responsabilidades que não acompanharam o ritmo da inovação. Nesse ambiente, acrescentou, o jornalismo ganha relevância por seu papel na verificação e certificação das informações.
Sobre a Coalizão
A Coalizão Empresarial contra a Desinformação reúne associações empresariais e organizações com o objetivo de promover uma atuação coordenada do setor empresarial no enfrentamento à desinformação. A iniciativa parte do entendimento de que o fenômeno representa um risco crescente para a democracia, a confiança institucional e o ambiente de negócios, demandando respostas estruturadas, baseadas em evidências e alinhadas às melhores práticas de governança.
Entre seus objetivos estão mobilizar o setor empresarial em torno do tema, promover ação coletiva e articulação multissetorial, apoiar a tomada de decisão com base em conhecimento técnico e fomentar boas práticas de comunicação responsável e integridade informacional. A atuação se organiza em frentes como produção e disseminação de conhecimento, desenvolvimento de diretrizes, promoção de espaços de diálogo e engajamento institucional.
Ao ampliar o papel das organizações nesse debate, a Coalizão busca contribuir para a mitigação de riscos reputacionais, institucionais e sistêmicos, além de fortalecer a construção de um ambiente informacional mais íntegro e confiável.
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