A crítica que não ouse tocar na poesia: o enxame de “influencers” e a banalização da opinião

Temos convivido com opiniões a rodo nas redes sociais. Durante 24 horas, nos 7 dias da semana, há uma profusão de opiniões sobre tudo e qualquer coisa. São opiniões políticas, econômicas, de costumes, de nutrição, científicas, sociais, culturais, esportivas, sobre vidas de celebridades etc., mas também palpites, fofocas, incitações a tretas, maledicências em geral e aquelas voltadas à desinformação. Muitas dessas opiniões são tentativas de influenciar alguém, para o bem ou para o mal, numa disputa acirrada de grande competitividade promovida pelos chamados “influencers”, os quais, com suas táticas e técnicas de manipulação, de certa maneira desbancaram a crítica pretensamente profissional e mais técnica.
De que forma nos deixamos influenciar pela opinião de qualquer um na internet? Por exemplo, entrou em cartaz, no Brasil, o filme “Michael”, cinebiografia do Michael Jackson (1958-2009), cantor, compositor, dançarino e filantropo, mundialmente aclamado como o “Rei do Pop”, considerado uma das figuras culturais mais significantes do século XX e um dos maiores artistas da história da música. A especialista em comunicação e imagem, palestrante e fotógrafa Ana Mokarzel lembra um estudo da Harvard University sobre Michael Jackson, que conclui que ele “deixou de ser apenas uma pessoa para se tornar uma linguagem”.
Nesse sentido, podemos lembrar da recente ação publicitária do McDonald’s da Malásia, que chamou a atenção nas redes sociais, e que foi apontada como uma das melhores sacadas de marketing do ano. Utilizando apenas duas batatas fritas posicionadas estrategicamente, a marca reproduziu a famosa e icônica pose inclinada (“toe stand”) eternizada por Michael Jackson, sem precisar usar qualquer texto ou explicação. A simplicidade e a criatividade da campanha rapidamente viralizaram entre fãs do cantor e admiradores de publicidade. Isso é linguagem.
Aí você, no sábado à tarde, pensa em ir ao cinema. Olha a programação e a crítica tapa o nariz para “Michael”, filme dirigido por Antoine Fuqua. Por quê? Recuso-me a aceitar uma opinião empacotada. Quero eu decidir o que acho. Fui e gostei muito, foi divertido, Michael é fera! O problema é que há pessoas que apenas querem lacrar. Alguns querem falar do que acham – mas não conhecem a fundo e, em alguns casos, nem viveram aquela época. E tem mais: o filme será dividido em duas partes, pois o material original é extenso. Esse primeiro filme ainda não chega na fase em que o artista sofreu com uma série de denúncias. No entanto, algumas pessoas apressam-se em lembrar disso já nas críticas e opiniões a respeito desse primeiro filme, sem lembrar (ou sem saber e sem pesquisar!) que já está confirmada a continuação.
Pra mim, a abordagem do filme é pura diversão, entretenimento de alto nível. Nossos “críticos influencers”, muitos deles pessoas com análises rasas, perdem oportunidades em produzir conhecimento e estimular o pensamento.
Sinal dos tempos? Antes, para falar para milhares ou milhões de pessoas, você precisava passar pelo filtro de uma emissora de TV, rádio ou jornal. Hoje, qualquer pessoa com um smartphone e conexão à internet tem o mesmo potencial de distribuição que uma grande mídia. Tendo em vista que plataformas como Instagram e TikTok, por exemplo, não lucram com a qualidade do conteúdo, mas com o tempo de tela do usuário, os algoritmos são programados para reter sua atenção, o que ocorre principalmente com as postagens e vídeos curtos e com a rolagem infinita. Para tentar se manter relevante no algoritmo, o “influencer” precisa postar constantemente (às vezes várias vezes ao dia).
Vale a reflexão também em relação ao filme “O Diabo Veste Prada 2”, dirigido por David Frankel, com roteiro de Aline Brosh McKenna. É uma sequência do filme “O Diabo Veste Prada”, grande sucesso lançado em 2006 como uma adaptação do romance de mesmo nome de Lauren Weisberger. O elenco traz Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Stanley Tucci, Tracie Thoms e Tibor Feldman, entre outros, que representam os mesmos papéis do filme anterior. É momento para se distrair, observar os 20 anos que separam uma produção da outra (agora em outra época e com novos desafios). Não é para lacrar ou ficar em casa porque um zé ruela qualquer, motivado sabe-se lá por que, resolveu falar mal do filme, sem qualquer embasamento. Se puder, não deixe de ir e de ter a sua própria opinião. Na pior das hipóteses você vê um filme ruim, na melhor, delicia-se com um filmaço.
Outro fato notório que me chamou a atenção dia desses foi o anúncio relativo a “Foreign Tongues”, o 25º álbum de estúdio dos The Rolling Stones, com lançamento previsto para 10 de julho. E como costumo brincar com um amigo próximo, “precisamos começar a pensar que mundo deixaremos para os The Rolling Stones. É sobre sobrevivência da espécie!”
A banda de rock britânica, formada em Londres em 1962, é um dos maiores, mais longevos e mais bem-sucedidos grupos musicais de todos os tempos. A composição atual da banda inclui Mick Jagger (1943), Keith Richards (1943) e Ron Wood (1947). Eles são impressionantes!
O que me fez lembrar de uma antiga canção de Caetano Veloso, “Ele Me Deu Um Beijo Na Boca”, do álbum Cores, Nomes, lá de 1982. A letra, reflexiva e metalinguística, simula uma conversa sobre a vida e filosofia:
“E a crítica que não toque na poesia
O Time Magazine quer dizer que os Rolling Stones
Já não cabem no mundo do Time Magazine
Mas eu digo (Ele disse)
Que o que já não cabe é o Time Magazine
No mundo dos Rolling Stones, Forever Rockin’ and Rolling”
O “Mundo do Time Magazine” representa a ordem política, a política convencional (“fim”) e a crítica racional que muitas vezes ignora a poesia e a arte.
A inversão de Caetano: ele argumenta que, na verdade, é o modelo rígido da revista que não tem mais espaço na cultura vibrante e viva, representada pelos Stones (“forever rockin’ and rolling”).
Viva a arte! Viva o livre pensar! “Livre pensar é só pensar”, como diria Millôr Fernandes. Não deixe de ir, de ter experiências que enriqueçam seu repertório. Na volta, caso tenha curiosidade, leia o que disseram os tais “influencers” e também os críticos profissionais, só por curiosidade, como complemento à sua percepção. No fundo, a sua opinião, o seu gosto, é o que há de mais importante e o que interessa.
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