Escolhas difíceis

Nunca foi simples votar. A urna sempre exigiu mais do que apertar números, confirmar escolhas e esperar o resultado. Votar pede leitura de cenário, interpretação de caráter, memória histórica e alguma capacidade de separar promessa de projeto. Em 2026, no entanto, esse exercício tende a atingir um novo grau de complexidade. E não necessariamente por causa dos candidatos.
Durante décadas, o eleitor conviveu com velhas ferramentas de persuasão. Discursos calibrados, estatísticas apresentadas pela metade, pesquisas usadas como narrativa, frases de efeito ensaiadas para parecer espontâneas. Nada disso é novidade. A política sempre soube usar a comunicação como ativo estratégico. O problema é que agora entra em campo um elemento novo, veloz e sofisticado, a inteligência artificial.
Ela poderá ser usada para o bem, é verdade. Para organizar dados públicos, facilitar o acesso a propostas, comparar históricos de votação, traduzir temas técnicos em linguagem clara. Mas seria ingenuidade ignorar o outro lado da moeda. A mesma tecnologia pode fabricar vídeos falsos convincentes, simular vozes, criar imagens inexistentes, multiplicar boatos em escala industrial e personalizar mentiras conforme o perfil emocional de quem recebe a mensagem.
Se antes uma falsidade precisava de tempo para circular, agora ela pode nascer pronta, bonita, convincente e direcionada. Se antes a meia verdade dependia de talento retórico, agora dependerá também de algoritmo. E há algo ainda mais delicado nisso tudo. Muitas vezes a mentira moderna não vem vestida de mentira.
Ela chega como recorte, contexto amputado, número real mal explicado, frase verdadeira usada para sustentar conclusão falsa. Por isso será tão difícil escolher um candidato. Não apenas por quem está na disputa, mas por tudo o que estará ao redor dela.
O eleitor de 2026 precisará desconfiar do que confirma demais suas certezas. Precisará resistir ao impulso de compartilhar o que o indigna em segundos. Precisará entender que vídeos emocionantes nem sempre são verdadeiros, que gráficos elegantes podem manipular e que seguidores não equivalem a credibilidade.
Também será necessário renunciar a um vício antigo da política brasileira, a devoção cega. Ideologias têm seu papel na organização do pensamento, mas quando viram religião civil deixam de esclarecer e passam a cegar. Nenhum candidato merece torcida organizada. O país precisa de cidadãos, não de fãs.
E aqui cabe um ponto frequentemente negligenciado. Votar para presidente importa muito, mas votar para deputado estadual pode impactar sua vida de forma imediata e concreta.
É nas assembleias legislativas que se discutem temas como segurança pública, orçamento regional, transporte metropolitano, saúde estadual, fiscalização do governador e regras que afetam o cotidiano. Um governador forte com parlamento fraco desequilibra o sistema. Um presidente eleito sem base local enfrenta um país fragmentado. Democracia madura não se resume ao Planalto.
Escolher bem, portanto, exigirá coerência em cadeia. Não bastará votar no topo e abandonar o restante da cédula ao improviso. Talvez nunca tenha sido tão difícil escolher. Mas também nunca foi tão necessário escolher bem.
A boa notícia é que o eleitor brasileiro amadureceu muito. Já viu promessas evaporarem, salvadores fracassarem, escândalos se repetirem e slogans envelhecerem rápido. Não é um público ingênuo. E quem escreve também não subestima sua inteligência.
Em 2026, mais do que procurar o candidato perfeito, convém procurar o candidato cuja intenção real mais se aproxima do futuro que você deseja. Para isso, cheque informações, compare trajetórias, observe alianças, analise quem financia, quem apoia, quem silencia e quem muda de discurso conforme a plateia.
Em um tempo em que até a mentira poderá parecer impecavelmente produzida, a verdade continuará exigindo esforço. E talvez esse esforço seja, justamente, o preço da liberdade para votar.
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