
A obra “Contra a Transparência”, lançada neste dia 23 de abril de 2026 via Editora Iluminuras por Hamilton dos Santos, colabora de maneira importante para um debate contemporâneo central para o campo da comunicação corporativa, da governança e da reputação: a elevação da transparência ao estatuto de valor absoluto nas sociedades digitais. Estruturado como um ensaio filosófico, a abordagem fica organizada em dez capítulos que percorrem desde a promessa normativa da transparência até suas implicações políticas, econômicas, tecnológicas e subjetivas, culminando em uma reflexão sobre confiança, opacidade e os limites da visibilidade total. Poderia ser mais instigante?!
O ponto de partida do autor – Doutor em Filosofia pela USP e também Diretor-Executivo da Aberje – é a constatação de que a transparência, historicamente associada a virtudes democráticas e ao accountability, foi progressivamente convertida em um imperativo moral totalizante. Essa transformação é analisada à luz de três vetores principais: a institucionalização da transparência na política e nos negócios, a intensificação da vigilância promovida pela infraestrutura digital e a incorporação da transparência como critério de legitimidade subjetiva e pública.
Transparência total
Um dos eixos centrais do argumento reside na crítica à noção de transparência total como quimera técnica e como risco sistêmico. De um lado, ele sustenta que toda transparência é necessariamente seletiva, uma vez que “toda luz seleciona” e todo processo de visibilidade implica filtros e enquadramentos. De outro, argumenta que, mesmo que fosse plenamente realizável, a transparência absoluta seria indesejável, pois tenderia a corroer a confiança, empobrecer a responsabilidade e desorganizar as relações sociais e institucionais.
Particularmente relevante para o campo reputacional é a análise da relação entre transparência e confiança. O autor sustenta que a confiança não emerge da exposição integral, mas de um equilíbrio entre visibilidade e reserva, entre o que se mostra e o que se preserva. A dissolução dessa fronteira, intensificada pelas plataformas digitais, tende a gerar não maior clareza, mas saturação informacional, paralisia interpretativa e desconfiança difusa.
A metáfora recorrente do livro — a transparência como um “fármaco”, simultaneamente remédio e veneno — sintetiza a posição do Hamilton: a transparência é necessária, mas apenas em doses calibradas e em contextos específicos. Quando absolutizada, converte-se em um dispositivo de controle, vigilância e potencial desorganização institucional.
Enfim, a proposição é que a opacidade não é um desvio, mas uma condição constitutiva da experiência humana e das estruturas sociais. Nesse sentido, a transparência radical aparece como uma tentativa de eliminar mediações essenciais, produzindo efeitos contrários aos desejados.
Outras abordagens
Vale aqui dizer que a tese central de “Contra a Transparência” — a crítica à transparência como valor absoluto e a defesa de regimes intermediários de visibilidade — foi explorada, com variações conceituais, na filosofia contemporânea, em estudos de governança e, em menor medida, na literatura de negócios.
No campo econômico e corporativo, Hamilton revisita a ideia da “The Naked Corporation”, de Don Tapscott e David Ticol, amplamente difundida no início dos anos 2000, segundo a qual a exposição das práticas organizacionais produziria – de forma quase automática – confiança, legitimidade e alinhamento ético. Essa visão, embora sedutora, é problematizada como uma simplificação que ignora a complexidade das dinâmicas organizacionais e a natureza mediada da comunicação institucional.
A crítica mais direta e estruturada encontra paralelo em “The Transparency Society”, de Byung-Chul Han, que interpreta a transparência como ideologia do capitalismo digital, associada à vigilância, à homogeneização e à erosão da confiança, sustentando que o excesso de informação não gera necessariamente conhecimento ou legitimidade.
No campo da teoria social, “Seeing Like a State”, de James C. Scott, antecipa esse diagnóstico ao demonstrar que a busca por “legibilidade total” por parte de Estados e instituições tende a simplificar realidades complexas e produzir falhas sistêmicas — uma crítica funcional à transparência como instrumento de controle. Já “Audit Cultures”, organizado por Marilyn Strathern, examina como regimes de prestação de contas e visibilidade permanente podem gerar distorções performativas, nas quais organizações passam a operar para parecer transparentes, e não necessariamente para serem mais responsáveis.
Na filosofia política, Michel Foucault, em obras como “Vigiar e Punir”, na primeira metade dos anos 1970, oferece a matriz conceitual da transparência como dispositivo disciplinar, ao associar visibilidade constante a mecanismos de controle e normalização social.
No campo da governança contemporânea, estudos como “Transparency: Motivations and Challenges” de Adrian Weller introduzem uma abordagem pragmática ao reconhecer que diferentes níveis de transparência podem gerar efeitos adversos, inclusive em termos de confiança e eficiência institucional. Mais recentemente, framework como “Opacity as a Feature, Not a Flaw”, proposto por Herrera e Calderón, propõe explicitamente a gestão da opacidade como componente legítimo da governança, deslocando o foco da transparência total para uma accountability contextualizada.
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Para encerrar, e na minha super modesta opinião, a tese da transparência parcial e gerenciada apresenta elevada pertinência para o contexto contemporâneo da comunicação corporativa. Em ambientes de alta exposição, hiperconectividade e pressão reputacional constante, a ideia de que toda informação deve ser imediatamente publicizada revela-se operacionalmente ingênua e estrategicamente arriscada.
Só precisamos ter um cuidado para não corrermos risco de que a crítica à transparência seja interpretada como legitimação de práticas pouco éticas ou de baixa accountability. E, em síntese e também por isso mesmo, “Contra a Transparência” é uma intervenção intelectual lúcida e até corajosa em um debate central para organizações e lideranças. Ao questionar um dos pilares normativos da comunicação, não propõe a rejeição da transparência, mas sua recontextualização como prática estratégica, contingente e necessariamente limitada.
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