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10 de setembro de 2026

Conhecimento, imaginação e complexidade

Paulo Nassar
Marco Ruediger, Paulo Nassar, Fabíola Cidral, Eduardo Saron e Tato Carbonaro (foto: FGV Comunicação)
 
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Masterclass para 3ª Turma do Mestrado Profissional em Comunicação Digital e Cultura de Dados, em 04 de setembro de 2026 – Leia a cobertura aqui

Quero começar saudando, com grande alegria, os ingressantes na terceira turma do Mestrado Profissional em Comunicação Digital e Cultura de Dados. Sejam muito bem-vindas e muito bem-vindos a esta jornada.

Para a Aberje, participar desta iniciativa tem um significado especial. A entidade realiza, há quase 60 anos, um trabalho orgânico, contínuo e coletivo de consolidação e dignificação do campo da comunicação nas empresas e instituições brasileiras. Uma trajetória construída por gerações de profissionais, professores, pesquisadores e dirigentes que compreenderam a comunicação não como simples instrumento de divulgação, mas como dimensão fundamental da vida das organizações e de suas relações com a sociedade.

Gostaria também de cumprimentar e elogiar a FGV Comunicação e a Fundação Itaú — que completará 40 anos em 2027, pelo vanguardismo em defender e implementar os mestrados e doutorados profissionais. Essas instituições compreenderam que a universidade pode aproximar a produção rigorosa do conhecimento dos problemas concretos enfrentados pelos profissionais e pelas organizações.

Nesta breve fala, gostaria de alinhavar algumas ideias inspiradas também em minha prática de 40 anos em salas de aula. Uma jornada que se iniciou como professor assistente e me conduziu à posição de professor titular da Universidade de São Paulo. Ao longo desse percurso, aprendi que ensinar não é apenas transmitir aquilo que já sabemos. É criar condições para que estudantes e professores interroguem suas experiências, relacionem conhecimentos e imaginem outras possibilidades de ação.

É nesse ponto que gostaria de recorrer a Alfred North Whitehead.

Uma universidade é imaginativa ou é nada

Em The Aims of Education, o filósofo e matemático britânico afirma que a função própria de uma universidade é promover a aquisição imaginativa do conhecimento. E conclui com uma provocação que atravessa o tempo: uma universidade é imaginativa ou não é nada, pelo menos, nada de útil.

A frase parece reunir duas dimensões que, muitas vezes, são indevidamente separadas. De um lado, a imaginação, associada à criação e à abertura de possibilidades. De outro, a utilidade, relacionada à aplicação, à técnica e à resolução de problemas concretos.

Para Whitehead, no entanto, não há oposição. O conhecimento se torna verdadeiramente útil quando é animado pela imaginação; e a imaginação se torna socialmente transformadora quando é disciplinada pelo conhecimento, pela experiência e pelos fatos.

É nessa convergência que podemos situar os propósitos deste mestrado profissional.

Não estamos aqui apenas para acumular informações sobre plataformas digitais, inteligência artificial, algoritmos, dados e novas linguagens. Em uma época na qual a informação pode ser acessada instantaneamente, uma instituição universitária não se justifica pela simples transmissão de conteúdos.

Whitehead já advertia que, para a mera transmissão de informações, os livros seriam suficientes. Hoje poderíamos acrescentar: também seriam suficientes os mecanismos de busca, os bancos de dados, os tutoriais e as ferramentas de inteligência artificial.

A universidade começa a justificar sua existência quando transforma informação em conhecimento; quando relaciona fatos dispersos; quando identifica princípios; quando confronta alternativas; quando ilumina a experiência e permite imaginar aquilo que ainda não existe.

O campo da comunicação digital e da cultura de dados exige exatamente essa capacidade.

Vivemos em um mundo de extraordinária complexidade, formado por plataformas, organizações, algoritmos, comunidades, influenciadores, sistemas de vigilância, redes de mobilização e públicos em permanente movimento. Dados são produzidos em escala inédita. Orientam decisões, selecionam visibilidades, organizam comportamentos e participam da construção das representações sociais.

Mas os dados não falam sozinhos.

Todo dado é produzido em determinado contexto, a partir de escolhas, critérios e interesses. Todo dado precisa ser selecionado, interpretado, relacionado e narrado. Entre o dado e a decisão existe uma visão de mundo. Entre a informação e seu uso existe uma responsabilidade.

Por isso, formar profissionais para atuar nesse ambiente não significa apenas desenvolver competências instrumentais. Significa formar pessoas capazes de perguntar: que realidade este dado representa? O que ele ilumina? O que deixa na sombra? Que interesses orientam sua utilização? Que consequências uma decisão baseada em dados produz sobre indivíduos, organizações e comunidades?

Whitehead nos lembra que a imaginação não deve ser separada dos fatos. Ela é uma forma de iluminá-los. Imaginar não é fugir da realidade; é ampliar nossa capacidade de compreendê-la e transformá-la.

Essa perspectiva é especialmente importante em um mestrado profissional. A aplicabilidade do conhecimento não pode ser confundida com treinamento para a repetição de rotinas. Whitehead reconhece a importância da excelência técnica, mas adverte que o trabalho rotineiro prolongado pode embotar a imaginação.

A técnica é indispensável, mas se torna insuficiente quando deixa de ser orientada por uma compreensão mais ampla de seus propósitos, implicações e efeitos.

O mestrado profissional deve aproximar teoria e prática sem reduzir uma à outra. A teoria deve ajudar a interrogar a experiência; a experiência deve desafiar, corrigir e renovar a teoria. O estudante retorna à atividade profissional não apenas com novas ferramentas, mas com uma capacidade ampliada de perceber relações, interpretar contextos, formular perguntas e imaginar soluções.

No campo da comunicação, isso significa compreender que tecnologias, plataformas e dados não são apenas instrumentos. Eles constituem ambientes culturais nos quais identidades são construídas, memórias são disputadas, narrativas circulam, reputações são formadas e legitimidades são concedidas ou retiradas.

A aventura do pensamento e a aventura da ação

Este mestrado deve ser, portanto, um espaço no qual a aventura do pensamento se encontre com a aventura da ação. Um lugar em que profissionais experientes possam suspender, por alguns momentos, as urgências da rotina, examinar criticamente suas práticas e conservar aquilo que as demandas cotidianas tantas vezes ameaçam: a capacidade de imaginar.

Preservar a imaginação não significa recusar a técnica, os dados ou a racionalidade. Significa impedir que se tornem cegos. Significa formar profissionais capazes de relacionar detalhes e princípios, informações e contextos, decisões e consequências, inovação e responsabilidade.

Em um mundo complexo, não precisamos apenas de pessoas que saibam operar os sistemas existentes. Precisamos de pessoas capazes de compreendê-los, questioná-los e imaginar outros sistemas possíveis.

É esse encontro entre conhecimento, experiência, aplicabilidade e imaginação que pode dar sentido ao nosso percurso.

Porque, retomando Whitehead, uma universidade e, podemos acrescentar, um mestrado profissional, precisa ser imaginativa. Caso contrário, poderá até transmitir informações e desenvolver habilidades, mas terá deixado de realizar sua tarefa mais importante: preparar pessoas para compreender o mundo em que vivem e participar, de maneira consciente, crítica e criativa, da construção do mundo que ainda poderá existir.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

Paulo Nassar

Diretor-presidente da Aberje - Associação Brasileira de Comunicação Empresarial; professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP); doutor e mestre pela ECA-USP. É coordenador do Grupo de Estudos de Novas Narrativas (GENN), da ECA-USP e pesquisador no campo da interface entre Comunicação e Antropologia. Docente de mestrado e doutorado (PPGCOM ECA-USP) desde 2006, onde ministra, juntamento com o Prof. Dr. Luiz Alberto de Farias, a disciplina stricto sensu “Memórias Rituais, Narrativas da Experiência”. Pesquisador da British Academy (University of Liverpool) – 2016-2017. Entre outras premiações, recebeu o Atlas Award, concedido pela Public Relations Society of America (PRSA, Estados Unidos), por contribuições às práticas de relações públicas, e o prêmio Comunicador do Ano (Trajetória de Vida), concedido pela FundaCom (Espanha). É coautor dos livros: Communicating Causes: Strategic Public Relations for the Non-profit Sector (Routledge, Reino Unido, 2018); The Handbook of Financial Communication and Investor Relation (Wiley-Blackwell, Nova Jersey, 2018); O que É Comunicação Empresarial (Brasiliense, 1995); e Narrativas Mediáticas e Comunicação – Construção da Memória como Processo de Identidade Organizacional (Coimbra University Press, Portugal, 2018).

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