Muito antes da crise: reputação, governança e liderança

Em mais de 20 anos trabalhando com comunicação, pelo menos 15 deles acompanhando de perto contextos sensíveis e situações de crise, aprendi que as circunstâncias mudam, os riscos evoluem e a velocidade com que uma situação ganha escala acelera a cada dia. Mas algo permanece: quando a crise chega, ela testa muito mais do que a capacidade de comunicação de uma empresa. Testa sua cultura, sua governança, suas relações e, sobretudo, suas lideranças.
Vivemos em um ambiente especialmente complexo para esse teste. Tensões geopolíticas, insegurança econômica, polarização, transformação tecnológica e um ecossistema de informação fragmentado ampliaram a exposição das organizações e tornaram mais difícil construir consensos até mesmo sobre os fatos.
Ao mesmo tempo, a confiança está cada vez mais escassa. O Edelman Trust Barometer 2026 mostra que 72% dos brasileiros hesitam ou estão pouco dispostos a confiar em alguém que tenha valores, fontes de informação, formas de resolver problemas ou origens culturais diferentes das suas. Globalmente, são 70%. É o que o estudo chama de insularidade: uma tendência de restringirmos nossos círculos de confiança àqueles que se parecem mais conosco.
Empresas e empregadores permanecem em uma posição relevante de confiança. É uma posição privilegiada, mas também uma enorme responsabilidade.
Quando pensamos em gestão de crise, é natural que nossa atenção se volte para o momento em que algo acontece: o incidente, a repercussão, as primeiras decisões, a resposta pública. Mas uma parcela importante da capacidade de uma organização atravessar uma situação crítica é construída muito antes disso. Começa pela reputação.
Uma empresa não entra em uma crise como uma página em branco. Ela chega carregando a história das relações que construiu com empregados, clientes, parceiros, investidores, imprensa, comunidades, autoridades e tantos outros públicos. Confiança acumulada não impede crises, mas influencia a disposição dos stakeholders para ouvir uma organização, interpretar suas explicações e observar seus próximos movimentos quando algo dá errado.
Da mesma forma, a preparação não pode começar quando a crise chega. É preciso antecipar riscos, estabelecer governança, definir responsabilidades e fluxos de decisão, preparar porta-vozes e testar a estrutura por meio de treinamentos e simulações. E é necessário, sobretudo, preparar pessoas. Planos e protocolos ganham força quando quem precisa acioná-los conhece seu papel, está preparado para decidir sob pressão e sabe trabalhar de forma coordenada. Isso inclui, necessariamente, a alta liderança.
Crises raramente oferecem o conforto de decisões simples. É preciso decidir com informação incompleta, equilibrar riscos diferentes e considerar públicos cujas expectativas nem sempre convergem. Por isso, preparação para crises não deveria ser uma competência restrita às áreas de Comunicação, Jurídico, Compliance, Riscos ou Recursos Humanos. É uma competência de liderança.
Executivos precisam compreender seu papel em uma crise da mesma maneira que compreendem suas responsabilidades sobre outros riscos estratégicos do negócio. Precisam saber quando se envolver diretamente, quando se posicionar, quando ouvir, quem deve participar das decisões e quais critérios devem orientá-las.
Depois de tantos anos acompanhando situações sensíveis, ainda me chama a atenção o fato de que, nos momentos mais críticos, nem sempre o principal problema é falta de informação. Muitas vezes, falta clareza sobre quem decide, quem precisa estar na mesa, como diferentes riscos serão ponderados e quais princípios orientarão as escolhas. É nesse momento que a governança deixa de ser uma estrutura no papel e se transforma em capacidade real da organização. E é nessa hora que fica evidente a diferença entre gerir e comunicar uma crise. Não existe comunicação capaz de compensar indefinidamente uma decisão percebida como incoerente, insensível ou incompatível com aquilo que a empresa dizia representar.
A comunicação tem papel fundamental em ajudar a organização a compreender o ambiente, interpretar expectativas, antecipar repercussões e construir respostas claras e transparentes. Mas reputação é resultado daquilo que uma organização comunica e, principalmente, daquilo que faz. Em uma crise, a distância entre discurso e comportamento fica ainda mais visível.
Há, ainda, outra variável que torna essa preparação urgente: o tempo. Redes sociais, inteligência artificial, desinformação e a multiplicação de fontes tornaram o ambiente reputacional mais veloz e menos previsível. As organizações nunca tiveram tantos dados e ferramentas para compreender o ambiente ao redor e, ao mesmo tempo, tão pouco tempo para interpretar o que está acontecendo antes que narrativas ganhem escala.
Isso não significa responder a tudo imediatamente. Velocidade não pode ser confundida com precipitação. Significa estar preparado para compreender rapidamente o que está acontecendo, distinguir ruído de risco real, mobilizar as pessoas certas e decidir com qualidade.
É também por isso que simulações são tão importantes. Seu valor não está em tentar reproduzir exatamente uma crise futura – provavelmente ela será diferente daquela imaginada. O objetivo é colocar a organização e seus líderes diante da necessidade de decidir, priorizar e colaborar sob pressão. Em outras palavras, treinar não apenas o plano, mas a capacidade coletiva de resposta.
Quando o noticiário acaba, a crise acabou?
Uma dimensão da gestão de crises recebe menos atenção do que deveria: o depois. Após dias ou semanas de enorme pressão, existe uma tendência natural de considerar que a crise terminou quando diminui a cobertura da imprensa, cai o volume das redes sociais ou o comitê deixa de se reunir diariamente. Mas o fim da exposição não significa o fim do impacto reputacional.
Stakeholders têm tempos diferentes. Empregados podem continuar discutindo internamente o que aconteceu. Clientes podem rever suas escolhas. Investidores podem acompanhar se compromissos serão cumpridos. Comunidades podem esperar mudanças concretas. A imprensa pode voltar ao tema meses depois.
Recuperar reputação, portanto, não é simplesmente retomar a comunicação que existia antes. É entender o que mudou: ouvir os públicos relevantes, identificar quais dimensões de confiança foram afetadas e, principalmente, demonstrar o que a organização aprendeu e o que fará de forma diferente.
Confiança não se reconstrói apenas com mensagens. Reconstrói-se com evidências, consistência e tempo. Por isso, o período posterior à crise também precisa fazer parte do planejamento. Uma boa estrutura de gestão não deveria perguntar apenas “como vamos responder?”, mas também “como saberemos que estamos nos recuperando?” e “o que precisará mudar depois disso?”.
Em um ambiente no qual as pessoas estão mais seletivas sobre em quem confiar, reputação se torna ainda mais estratégica. Organizações serão julgadas não apenas pelo fato que originou uma crise, mas pela maneira como respondem a ele: pela qualidade de suas decisões, pela coerência entre discurso e prática, pela transparência de suas relações e pelo comportamento de suas lideranças.
Preparar-se para crises, portanto, não é esperar pelo pior. É desenvolver capacidade organizacional para responder melhor quando a complexidade aparecer. Isso passa por planos, processos, governança, monitoramento, treinamento e simulações. Passa por comunicação. E passa, necessariamente, por lideranças conscientes de seus papéis e preparadas para atuar de forma coordenada.
Nenhum líder atravessa uma crise sozinho. Da mesma forma, nenhuma área é capaz de proteger a reputação de uma organização isoladamente. Talvez essa seja uma das principais medidas de maturidade em gestão de reputação: entender que preparação não é responsabilidade de uma pessoa ou de uma função, mas uma capacidade que precisa ser construída coletivamente – antes que seja necessário colocá-la à prova.
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