Esportes, tecnologia e comunicação
15 de janeiro de 2021
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A edição deste ano – totalmente virtual – da Consumer Electronics Show, a CES, realizada esta semana, contou com vários painéis sobre esporte, interação com fãs e tecnologia. Interessante ver o esporte debatido em uma “exposição de tecnologia”, mas revela um caminho claro. Com mais ou menos sucesso, por causa da pandemia, atletas, clubes, entidades e campeonatos se adaptaram para sobreviver e rumam para o futuro. E aí vem a pergunta: como fica a Comunicação ligada ao universo esportivo?

Com protocolos de distanciamento social, adaptações para o novo normal e recursos tecnológicos, a vida segue nos campos, quadras e pistas. Tanto que a criação de “bolhas” de isolamento para garantir competições e a crescente adoção de plataformas de OTT por clubes e campeonatos têm levado o esporte até as multitelas do público. Sem falar de vários novos recursos para a transmissão pela televisão ou no amplo mundo das redes sociais. Está todo mundo se virando e nós comunicadores precisamos fazer o mesmo. Há muitas oportunidades, mas o lugar no pódio pode estar ficando distante.

Inovação em todos os sentidos é fundamental no campo esportivo. A tecnologia, principalmente o recurso do streaming, assim como já vivenciamos com as redes sociais, abriu várias alternativas, porém tornou ainda mais sutil a fronteira da divisão de conteúdo para os stakeholders e como a Comunicação se encaixa nesta realidade. Com canais próprios na internet, clubes, por exemplo, transmitem jogos, fazem programas e falam direto com os torcedores, algo que antes dependia de um “atravessador” veículo de comunicação, de jornalistas ou influenciadores.

A tecnologia ajudou o esporte a trazer de volta e a engajar o público, mesmo sem ele poder frequentar presencialmente as competições. Então, o que já se vivia com as redes sociais, agora se potencializou, e evoluiu muito rápido com a pandemia.

Já os protocolos de distanciamento aceleraram ou criaram novos hábitos na sociedade dominada pela telinha dos smartphones. A crescente digitalização aliada ao receio – em muitos casos, também proibição – de se frequentar lugares com aglomerações transforma a comunicação dos esportes, assim como de todo o setor de entretenimento. E quando a pandemia passar, uma parte deste “legado” não vai desaparecer, será absorvido no cotidiano.

Fica claro que os profissionais de comunicação têm ampliado seu perímetro com a crescente adoção de novos recursos para se “falar” com o público nas redes sociais e a geração de conteúdo para plataformas de OTT. Mas também não podemos esquecer dos veículos de comunicação tradicionais. Eles assistem crescer sua credibilidade pela segurança que transmitem em um período de tantas incertezas provocadas pelas “pandemias” de COVID-19 e   Fake News. No dia a dia da relação com a imprensa e influenciadores, não basta tentar fazer adaptações dos processos convencionais.

Em um primeiro momento, para garantir o cotidiano, claro que coletivas de imprensa de clubes e atletas com perguntas feitas por aplicativos de mensagens ou entrevistas individuais por videoconferência foram suficientes, mas é preciso avançar.

No Brasil, ainda estamos alguns passos atrás em termos de interações do esporte com seus fãs e com a imprensa, ou geradores de conteúdo em geral. No corre-corre para sobreviver à pandemia, ainda não viramos a chave de que o conteúdo precisa ser com foco no fã, ainda estamos com foco no jogo, como viabilizar sua realização e como atrair audiência. Na CES, por exemplo, o debate já é outro, é como aumentar cada vez mais a interação dos fãs com o jogo e com os clubes, atletas,… Gerar experiências, criar conexão emocional e, com isso, engajar.

O susto do início da pandemia já passou e, mais do que nunca, planejamento e organização, além de tecnologia, são fundamentais, tanto para a sobrevivência do esporte quanto para a comunicação esportiva, lembrando que ainda vivemos com muitas incertezas. Só o planejamento ajuda a enfrentar o que não foi planejado.

 

Pensando na comunicação ligada ao esporte, também é importante levar alguns pontos em consideração:

  • Consumo de conteúdo mudou – A audiência multitelas e os padrões de visualização criados pelas transmissões por OTT precisam ser levados em conta. As novas plataformas apresentam conteúdo de forma diferente do convencional e integrado ao mundo digital, a experiência é outra, não necessariamente acaba ou termina no período de um programa ou jogo como antes. E a direção é personalizar cada vez mais, do modo de visualização a entrega de conteúdo, para melhorar a experiência do público.
  • Estratégia digital – Seguindo o que falei no ponto anterior, a integração da estratégia levando em conta uma jornada, não apenas o tempo regulamentar de uma partida, por exemplo, precisa estar conectada com o mundo digital e a interação com o público. Pré e pós fazem cada vez mais parte do jogo da comunicação.
  • Pessoas gostam de pessoas – A interação humana é fundamental, ainda mais agora, e as redes sociais ajudam a contar as histórias, mas também a manter o contato com o público e a reforçar ou construir o relacionamento. Também levando em consideração que gostamos de pessoas e pensando em conteúdo, há mais oportunidades para se falar dos atletas, indo além dos temas do esporte, abordando também o dia a dia deles. De exemplos de superação e resiliência até dicas de treinamento em época de pandemia e cuidados com a saúde, são dicas que conectam a história com o público. Positivo sim, oportunista nunca, não custa reforçar a necessidade de ter atenção com o tom do conteúdo.
  • Regularidade na comunicação – Estritamente ligada ao planejamento, mas vale lembrar que é preciso ser consistente para contar uma boa história e criar relacionamento. E, claro, não basta ter bom conteúdo, é preciso saber a maneira e a plataforma certa para divulga-lo.
  • Menos viagens, mais oportunidades locais – Viajar virou uma ação complexa por causa da pandemia e isso afeta a realização de competições e a presença dos atletas em diferentes atividades, mas pode ser uma oportunidade para se destacar as atividades realizadas nas localidades. Descubra as histórias que estão próximas, muita gente vai se identificar com elas.
  • Potencial das parcerias – O esporte precisa dos parceiros e patrocinadores para sobreviver, então o planejamento precisa buscar formas de agregar valor para eles. Não é simples, mas com criatividade sempre é possível desenvolver conteúdo que envolva também os parceiros.
  • Conexão com a equipe – Temos que olhar para dentro da casa. O distanciamento e o trabalho remoto não afetam só nosso público, atingem nossa equipe e a maneira dela trabalhar, e nem vamos falar das questões psicológicas do home office. A tecnologia permite a criação e transmissão de conteúdo mesmo com as pessoas estando em suas casas e não há mais a necessidade de todos estarem juntos nesta produção, só que isso gera um novo fluxo de trabalho e novos desafios. Um problema que aparece com todos em um mesmo local ganha outra dimensão se surge com um membro da equipe sozinho em sua casa. É necessário repensar fluxos, controles e responsabilidades e, mais do que isso, manter as pessoas conectadas umas com as outras para continuarem jogando em equipe.

Os desafios são muitos, mas devemos lembrar que qualquer modalidade esportiva vive em função da interação entre pessoas. A conexão é fundamental e isso é um trunfo que nós comunicadores não podemos esquecer, precisamos correr para nos mantermos na competição ou, se não, vamos acabar assistindo ao jogo da arquibancada.

 
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