ESG: auge e queda de uma sigla

O livro #vivipraver2, de Sonia Consiglio (Heloisa Belluzzo Editora, 2025), reúne cinco anos de colunas publicadas no Valor Investe, compondo uma narrativa articulada da ascensão, inflexão e persistência da agenda ESG (Environmental, Social and Governance) no debate público e corporativo brasileiro. Mais do que um mero compêndio de artigos de opinião, a obra se apresenta como uma crônica de um processo coletivo de aprendizado — uma jornada, como destaca a autora em mais de um momento.
Jornalista de formação, Consiglio combina rigor informativo com clareza didática. Sua escrita é elogiável em ao menos dois aspectos, primeiro, pela contextualização precisa no calor do momento e, segundo, pela recusa de maniqueísmos. Sua longa carreira corporativa em prol da sustentabilidade não deixa dúvidas a respeito de seu posicionamento, mas não a impede de ser uma observadora atenta dos limites e contradições do processo de implementação dessa agenda.
Não surpreende que livro também funcione como uma introdução informal, mas não superficial, aos principais dilemas da sustentabilidade corporativa. Questões como a disputa entre valor para acionistas e capitalismo de stakeholders, o papel dos conselhos de administração, a importância de métricas e de (autor)regulação, os desafios das diferenças geracionais e de gênero, e a incorporação da biodiversidade nas estratégias empresariais vão progressivamente entrando em cena com o transcorrer dos fatos. Os artigos também revelam os desafios (assim como o esforço da autora) de tradução entre mundos: da ciência às organizações, da regulação à cultura empresarial, do engajamento individual às estruturas de poder, das demandas sociais ao lucro.
A coerência dos (mais de cem) artigos vem da tese de que a sustentabilidade deve ser tematizada como mudança de paradigma econômico: “No fim, ESG é sobre mudança de modelo de mundo”. Nesse prisma, a oscilação das reações à sigla – entusiasmo em 2020, consagração em 2021, banalização em 2022, críticas e ataques progressivamente mais violentos e virulentos a partir de 2023 – é menos sintoma de fracasso desse processo de aprendizagem do que indício dos desafios pela frente.
E é precisamente a trajetória recente da sigla ESG o eixo narrativo que estrutura o livro. Esse acrônimo – surgido em 2004, em um documento da ONU voltado a CEOs do mercado de capitais – tornou-se palavra de ordem entre 2020 e 2021 e galvanizou expectativas em torno da uma pauta que busca conjugar meio ambiente, demandas sociais e bons princípios de governança à rentabilidade econômica.
Contudo, se em 2021 Consiglio se via diante do “tsunami ESG”, a partir de 2022, seus textos registram uma virada. A guerra na Ucrânia reconfigura prioridades na Europa, o ESG começa a ser questionado tanto por sua efetividade quanto por sua coerência e movimentos “anti-ESG” emergem, principalmente nos Estados Unidos. Mas, como insiste a autora em mais de um momento, a polarização empobrece a discussão. O que está em jogo não é o prestígio de uma sigla, e sim a persistência de uma jornada que busca encarar de frente questões fundamentais ao futuro da humanidade.
#vivipraver2 é, assim, mais do que uma crônica do ESG: é um testemunho, por dentro das estruturas financeiras e corporativas, das transformações recentes desencadeadas e enfrentadas pela agenda da sustentabilidade.
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