Diálogo, liderança e times no online x presencial: nossos desafios mudaram tanto assim?
27 de agosto de 2021
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Mais de um ano e meio de pandemia. Em muitas empresas, o cenário ainda é o home office ou o modelo híbrido que já se instala aos poucos. E como está a qualidade das conversas entre liderança e times no ambiente digital? O objetivo desse artigo é trazer reflexões e alguns caminhos que possam ser experimentados para tornar as conversas neste ambiente mais significativas e produtivas.

Estamos passando muito tempo nas reuniões virtuais, está todo mundo cansado do excesso de tela. Não apenas por ser sempre a mesma coisa. Mas estamos no mesmo ambiente físico o tempo todo, olhando a nossa própria imagem na tela das plataformas digitais e fazendo um esforço cognitivo muito maior para interpretar gestos/comunicações não verbais. Isso consome uma energia e tanto, não é mesmo?

Desde que a pandemia começou, tenho refletido e falado: mais do que nunca, fundamental ampliar diálogo para além das conversas sobre metas, entregáveis. Dialogar apenas sobre o dia a dia, atualização das atividades, o que está sendo feito por um ou por outro é insuficiente em qualquer circunstância. Ainda mais na pandemia. Pensando nisso, trago alguns pontos para reflexão:

  • IMPROVISO: Uma frase do Claudio Thebas que eu gosto muito: “Encontros verdadeiros são sempre únicos e, portanto, imprevisíveis”. Por isso, neste momento ainda tão atípico, abrir a pauta e o espaço para que as pessoas possam trazer temas profundos e significativos que, no senso comum, demandariam um contato face a face é um ato de coragem e de empatia. Preocupações com o futuro, a experiência do luto, medo de adoecer ou de demissão, ansiedade e temas de saúde mental estão na pauta das pessoas. Como a liderança se prepara para acolher esse tipo de conversa? Experimentando sua própria vulnerabilidade e lembrando que ainda que uma conversa não planejada lhe traga insegurança, imprevisibilidade, assumir os riscos dela é se colocar em reciprocidade, em conexão genuína junto ao outro. Isso pode significar acolher, escutar, apoiar de forma individualizada para além das mensagens-chave e diretrizes organizacionais genéricas sobre estes temas. Improviso não significa despreparo. Acionar nosso repertório é sempre um caminho seguro quando achamos que não temos as respostas. É, muitas vezes, estar no escuro e, criteriosamente, buscar recursos, elementos, exemplos em nossa jornada para oferecer ao outro nossa singela contribuição. Ou simplesmente dizer: não sei, quando souber, me comprometo a compartilhar contigo. Autenticidade, transparência e humildade podem valer muito mais do que respostas vagas e protocolares;
  • PERGUNTAS: Outra frase boa é a da Marilee Goldb: “Uma pergunta não feita é uma porta não aberta”. Estar genuinamente interessado e curioso no que o outro traz também é uma demonstração legítima de busca por conexão. As perguntas podem ser muito potentes na medida em que elas contribuem para aumentar a nossa clareza sobre as coisas e a clareza do nosso interlocutor, pois elas podem gerar boas reflexões, correlações, emoções, esclarecimentos nas duas direções. Melhor ainda quando a pergunta pode ser feita de forma neutra, apreciativa, sem julgamentos. Ela é potente quando desafia pressupostos, possibilita novos olhares e outras perguntas. No ambiente online ela é ainda mais relevante pois pode nos auxiliar em ganhar uma profundidade que, talvez, pudesse ser mais fácil de se alcançar no presencial;
  • EMOÇÕES: Compreender as emoções que estão emergindo junto a quem dialogamos é algo fundamental para construir (ou coconstruir) uma intenção para a conversa. Nos dias atuais, ainda tão pandêmicos, como falamos, a conversa pode ser sobre luto, sobre o cansaço das telas, sobre novas ideias, sobre a necessidade de flexibilizar a rotina no trabalho, sobre quando terminará o home office, sobre questões de saúde mental, sobre questões que afetam as pessoas no dia a dia, triviais ou não. Temas por vezes complexos, permeados por ambiguidades e muitas dúvidas na forma de serem tratados. Mas, principalmente, permeados por emoções como medo, tristeza, ansiedade, angústia, raiva, etc. Em matéria recente da Você RH, esta fala a seguir dá o tom do lugar da emoção no diálogo que, hoje, na maioria das vezes, tem um “não-lugar”: “Lidar com a fragilidade humana por meio da expressão de emoções no trabalho se tornará mais importante do que no passado. Os líderes terão de mostrar empatia e considerar suas próprias emoções, bem como as da equipe”. Não é simples administrar esse preparo emocional para olhar pra dentro de si, em primeiro lugar, e lançar esse olhar para equipe também. Exige coragem, treino, disponibilidade emocional, querer conversar de verdade. Ainda que no online.
  • ESCUTA: em pesquisas diversas na atualidade, a escuta aparece sempre como uma habilidade esperada por parte do líder num cenário pandêmico e pós pandêmico. Ao mesmo tempo, esse resultado vem acompanhado das diversas oportunidades de melhoria neste exercício uma vez que os dados mostram que as lideranças se dedicam pouco à essa prática sob a justificativa da falta de tempo. Uma explicação absolutamente legítima, mas que talvez seja apenas a “ponta do iceberg” de um desafio muito maior que é o escutar para acolher, compreender e não para rebater, responder, aconselhar. Além disso, ao escutar o outro, a fala deste outro pode ressoar em quem escuta e isso significa correr o risco de ver emergir nossos medos, inseguranças, incertezas a respeito de quem somos, do que pensamos, de como nos sentimos. Estamos preparados para isso?
  • SILÊNCIO: precisamos ressignificar o silêncio e (re) encontrar seu lugar construtivo e potente no exercício do diálogo. Culturalmente, o silêncio sempre tem sido associado à restrição, ao ato de silenciar o outro deliberadamente. Ou o silêncio, no contexto imediatista no qual vivemos, pode ser interpretado como algo desconfortável, uma pausa desnecessária oriunda da incapacidade de dar uma resposta imediata, de oferecer uma solução, no aqui e agora. O silêncio incomoda e parece que virou ensurdecedor para todos nós. O silêncio exterior, que se faz numa conversa, pode ser uma forma potente de alcançar o silêncio interior, a auto conexão e, após esta pausa, certamente, ao ter a palavra novamente, o faremos com muito mais consciência, inteireza o que, possivelmente, contribuirá de forma significativa com a qualidade daquilo que diremos ou de como acolheremos, escutaremos o outro.
  • COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL: o online, tão enquadrado e limitado, nos impede de expandir a interpretação do não verbal. Mas ainda assim, acredito que seja possível desenvolver a habilidade de interpretar a expressão do olhar das pessoas que cabe na tela, do olhar das pessoas que se destaca em contraponto à máscara sobre a boca. Também é possível estar atento ao tom de voz do outro, tanto na tela quanto no áudio do whatsapp (sem acelerar, é claro…). A voz, a expressão do olhar, algo singular do gestual, o olhar distante e desatento que deflagra que, enquanto a pessoa fala com você, possivelmente, ela também está checando email, aplicativos, notificações, etc. Treinar a nossa habilidade de interpretar o não verbal talvez seja um dos principais desafios do online: exige atenção, sensibilidade, dedicação, intuição, etc.
  • PLANEJAMENTO: ainda que o diálogo, principalmente o sem pauta, possa ser “imprevisível”, existe espaço para estruturar o fluxo das conversas. Tratar o escopo das interações online da mesma forma que fazíamos no presencial – normalmente sem muito planejamento – talvez não seja eficiente no momento atual. É preciso estruturar, planejar o escopo das conversas, mais do que nunca. Prever na agenda da conversa um momento para dar um olá para as pessoas antes de partir para a pauta, para escutar minimamente como elas estão chegando, para “quebrar o gelo” num formato de check in que pode ser criativo, divertido, reflexivo ou básico. O que conta é demonstrar interesse genuíno em acolher. Prever na agenda um momento para escuta, com tempo razoável, que ofereça espaço de fala às pessoas, sem ficar extremamente corrido, demonstrando, assim, que a comunicação realmente é via de mão-dupla. Importante prever um espaço para a colheita e registro dos combinados após uma reunião online. O máximo que pode acontecer é nos tornarmos mais pontuais e produtivos a partir desta forma de fazer e “voltar ao presencial” com uma habilidade adicional.

Certamente muitos outros aspectos e desafios do diálogo online podem se somar aos pontos aqui abordados. O cenário atípico e a característica humana dessa prática trazem sempre novas perspectivas e questionamentos sobre os quais podemos refletir em conjunto. É um tema totalmente inacabado e, portanto, permeável a muitas reflexões complementares.

Mas trago uma provocação final: será que nosso desafio de dialogar no online é tão diferente do desafio de dialogar que tínhamos no presencial? Ao passar novamente os olhos pelos pontos elencados acima, será que realmente o diálogo ficou pior no online ou o online só tornou ainda mais desafiador o que já era anteriormente difícil, escasso e não-intencional?

Sim, temos mais ofensores e mais fatores para considerar no ambiente online, mas talvez isso não seja a principal justificativa para a falta de diálogo, escuta, silêncio, abertura às emoções preexistentes à pandemia e que, possivelmente, se intensificaram no online.

Se é a pandemia que nos estimula a melhorar as práticas dialógicas, se é o online que nos faz buscar novas formas de fazer talvez não seja o mais importante. O que vale é exercitar o diálogo online, sabendo que para ele ainda não existe teoria, receita de bolo, padrão ideal, fórmula mágica, 5 dicas infalíveis. Existe alguma sistematização de boas práticas, nossa vivência e nossa boa vontade na colheita dos aprendizados que, certamente, nos ajudarão a teorizar sobre isso com mais robustez e consistência num futuro próximo.

Sim, vamos improvisar, vamos errar, vamos acertar.

Mas que o legado disso tudo seja, ao menos, exercitar novas formas de dialogar.

 
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