COlabora #10 – Um presente: presença
06 de janeiro de 2022
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Publicado originalmente no LinkedIn em 23 de dezembro de 2021

“Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos

Tempo, tempo, tempo, tempo

Entro num acordo contigo

Tempo, tempo, tempo, tempo”

Caetano Veloso, “Oração ao Tempo”

O tempo, nosso bem mais valioso, é também, talvez, o único que não nos permite sequer a ilusão de acumulá-lo. Ou fluímos com ele, ou o perdemos inexoravelmente. A evolução das tecnologias traz com ela uma outra ilusão: a de economizar o tempo. Em teoria, temos ao nosso dispor ferramentas que nos permitem ser mais eficientes, fazer mais coisas dispendendo menos tempo e menos esforço. Mas, na prática, vivemos assoberbados, afobados, exauridos. E, na ilusão de correr atrás de um tempo que não para e não volta, distraímo-nos do fato de que seu ritmo é no presente. É presença. PRESENÇA, justamente o que comprometemos ao tentarmos dar conta de tudo, estar em todos os lugares, atender a todos os convites, entregar todas as demandas, superar todos os objetivos.

Não é apenas a nossa capa de super-heróis e super-heroínas que perdemos nessa vã tentativa. Perdemos qualidade nas relações. Perdemos criatividade e potência transformadora. Nosso tempo é a maior prova de atenção, respeito, consideração e amor que podemos ofertar a alguém. Mas só podemos ofertar aquilo que nos pertence. Dominamos nosso tempo ou somos dominados por ele? Por outro lado, sonhamos transformar o mundo, ou ao menos deixar nele nossa marca. Mas, para isso, precisamos mergulhar na realidade, compreendê-la, descobrir o papel que nos cabe e nos conectar com os outros atores que a constituem. Temos mergulhado em nossa (s) realidade (s), ou somos atropelados por ela (s)?

Diante de um mundo de excessos, presença verdadeira é a maior carência. Autor da “Teoria U”, que propõe um modelo para mobilizar a transformação a partir do futuro emergente, unindo ciência e consciência, Otto Scharmer lidera, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), um instituto chamado “Presencing”.  O mesmo termo dá nome ao processo que ele defende como crucial para mobilizar a transformação pessoal, organizacional e social em prol dos desafios da atualidade. O processo é baseado em sete princípios, dos quais o primeiro já diz absolutamente tudo: “A energia segue a atenção”. Atenção fragmentada é sinônimo de energia dispersa.

Consciência, portanto, é a base de tudo. Se o presente é o único momento em que podemos verdadeiramente agir, precisamos vivê-lo conscientemente, e não em modo automático. Estar diante de alguém de fato. Com olhos, ouvidos, coração e mente abertos e atentos. Estar inteiros, para ofertar e receber o melhor: conexão verdadeira, onde tudo acontece e a PRESENÇA se faz PRESENTE.

Não há transformação, pessoal ou coletiva, sem mergulho, concentração, entendimento e relação. Assim, na ânsia de abraçarmos todas as possibilidades, reais ou virtuais, a um só tempo, acabamos perdendo potência ao vivermos tudo em pedaços: corpo presente, olhos imersos numa tela, pensamentos entre lá e cá, desejos mal sabemos onde – afinal, são tantos, e em tantas diferentes direções!

Precisamos de um novo acordo com o tempo. No livro “Introdução à Vida Devota”, São Francisco de Sales, bispo de Genebra que inspirou Dom Bosco na criação da ordem salesiana, fala da importância do conceito de devoção. Mas não a devoção dos monges, dos santos ou dos profetas. Devoção ao alcance de todos nós, carne, osso e imperfeições à flor da pele, mas capazes de nos colocarmos em plena atenção e dedicação a alguma atividade, ação ou ideia. Nossa relação com o tempo talvez tenha se desconectado dessa devoção. Não à toa, atualmente pensar em devoção é sinônimo de pensar em uma vida restrita, seja pela castidade, seja pelo isolamento.

Um de nossos maiores desafios contemporâneos, certamente, está em trazer esse princípio amplo de uma vida devota ao mundo hiperconectado em que vivemos – um mundo recheado de tecnologias que nos aproximam, mas, ao mesmo tempo, nos desconectam de nossa plena atenção. Não conseguimos mais prestar ou emprestar nossa atenção. Na era do compartilhamento, aprendemos a compartilhar atenção também. Mas atenção só vale quando é plena, absoluta, inteira.

Nesse cenário, duas ferramentas mostram-se cruciais: autoconhecimento e comunicação consciente. Se a energia segue a atenção, o primeiro passo é nos conectarmos com nossos próprios anseios, para entendermos o que, de fato, nos é essencial. Nossa conexão com nossa voz interior precisa ser mais potente que os algoritmos, mais estimulante que as campanhas publicitárias, mais firme que a algazarra externa, clamando padrões de beleza, modelos de sucesso e métricas de realização. Tempo de olhar para dentro.

Respeitado o fluxo interior, aí sim estamos preparados para olhar para fora, atuando sobre a realidade ao nosso redor. Chega o tempo da comunicação consciente: atenta aos detalhes, ao não dito, às atitudes que falam mais que as palavras, às reações que nos revelam mais do que habitualmente somos capazes de perceber.

Conectados (a nós mesmos e aos outros, não apenas às tecnologias) e conscientes. É assim que o mundo precisa de nós. É assim que nossos colegas de trabalho, amigos e amores precisam de nós. É assim que nossa melhor versão precisa de nós.

“Ainda assim acredito / Ser possível reunirmo-nos / Tempo, tempo, tempo, tempo / Num outro nível de vínculo / Tempo, tempo, tempo, tempo…”, prossegue Caetano Veloso, em sua “Oração ao Tempo”. Que possamos acreditar e fazer acontecer. E que, neste fim de ano, nosso melhor presente seja PRESENÇA – para todos os que amamos, e para nós próprios.

* escrito em parceria com Pedro Salomão, empresário, palestrante e autor dos livros “Valor presente”, “Empreendendo felicidade” e “LYdereZ”

 
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